Foi no dealbar de 1948. Não, nem tanto. Já era maio, final de maio. A professora Cora Santana, esposa do renomado mestre Martins Santana, o gordo Martins Santana, tão gordo como competente na cátedra de português do Colégio Estadual do Amazonas, ao despedir-se da turma, por força das férias juninas, recomendou:

– Não se esqueçam de fazer uma descrição sobre o que de interesse observarem durante as férias, onde quer que as forem gozar, a fim de que, no retorno, possam oferecer a seus colegas um retrato de alguma passagem ou qualquer acontecimento que mereça registro.

E as ansiadas férias juninas chegaram. Então eram juninas, hoje julianas.

Na reabertura do período entreguei à mestra a minha composição. E dona Cora, mostrando satisfação, leu-a em sala, comentando os aspectos religiosos e folclóricos nela contidos.

O porquê da alegria de dona Cora devia ter a sua justificativa. Na verdade eu lhe entregara uma memória da fogueira de enchente. Mas o que vem a ser isto?

Meu pai, João Diniz de Carvalho, trouxera do seu Aracati, no Ceará, o costume místico de homenagear os reverenciados santos do mês de junho – Antônio, 13; João, 24; e Pedro, 29 – com tradicionais fogueiras. E, durante a queima da lenha empilhada, os fogos de artifício, em grande quantidade, riscavam a noite imitando miríades de pirilampos ignescentes. E, em volta da fogueira, o ritual folclórico da consagração da amizade.

Eram assim, duas pessoas geralmente jovens – pois a juventude é a mola-mestra, fulcro vivo de todo e qualquer movimento sócio-cultural, desportivo, patriótico ou festivo – dirigiam-se à fogueira e decidido o grau de afinidade (parentesco) a adotar, primo-irmão, cunhado, noivo, compadre, contornavam a fogueira por três vezes, em sentido contrário um do outro, e, ao se encontrarem, de mãos unidas proferiam o juramento:

Santo Antônio disse,

São Pedro confirmou.

Que nós “haverá” de ser compadre,

Que São João mandou.

Ao final daquele ritual, levado a sério, cumprimentavam-se divulgando entre os presentes a sua nova condição de primos, noivos, irmãos, sei lá… E selado o desejo mútuo, com o apadrinhamento do santo da vez, jamais abdicariam do título, que valia para toda a vida.

Pois bem, João Diniz era devoto de São João, seu xará celeste. E nada no mundo seria capaz de impedir que fizesse a sua fogueira, quando o dia de São João chegava. E enquanto as labaredas alumiavam a noite, a minha inesquecível mãe Lídia, comandava a distribuição do chocolate e biscoito, gengibirra e tapioca, bolo de macaxeira e aluá, beiju e pé-de-moleque, bolo pobre e mungunzá, coalhada e banana frita… E meu pai cuidava de suprir a garotada com fogos de artifício e mandava acender a girândola. Então a festa chegava ao auge.

Só que naquele ano, como em muitos outros, não restava um palmo de terra em toda a propriedade, para servir de base à tradicional fogueira, a nossa fazenda Acaraú estava totalmente alagada.

João Diniz decidiu, e coube a mim e ao meu irmão Ademar, cortar as bananeiras (que logo seriam lembranças, arrasadas pelas águas) necessárias à montagem da fogueira. Arrastados os caules que, como sabemos, são aquosos e não pegam fogo, levamos para o local do nosso jardim, sendo amarrados uns aos outros. Sobre essa jangada improvisada levantamos uma pilha de madeira seca, que meu pai, em seguida, utilizando-se de uma canoa, foi até ela ateando-lhe fogo. A fogueira flutuante, como sempre acontecia, iluminou e animou a festa de São João daquele ano, na Fazenda Acaraú.

Essa a essência do trabalho (que eu não sabia literário) entregue à apreciação da minha mestra Cora Santana. E o porquê do título – Fogueira de Enchente.

Muitos anos depois, com base nessa descrição do meu primeiro ano ginasial, compus o soneto do mesmo nome:

Fogueira de Enchente

Era tosca a jangada e era fogueira

De bubuia no jardim que se afogara,

Na jangada de imbaúba e bananeira,

A fogueira junina crepitava

Joelho n’água a moça recitava

Quadrinhas… E cantava a desfeiteira.

Um rapaz de calção que a flertava,

Alimentava o fogo e a brincadeira.

Das canoas a moçada disparava

Os rojões, foguetões, traques, bombinhas,

Alumiando a noite e os campos d’água.

Na varanda da casa, que se ilhava,

Um grupo, que encenava as pastorinhas,

Falava de sua dor, de amor e de mágoa…

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Almir Diniz
Poeta e contista amazonense. Membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.

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