Nos dias de agora, entretanto, além de não pudersertratado como “fofoca” ou conversade comadres,odisse me dissenasredessociais começaaalcançarasraiasdoinaceitável (…).

Para começo de conversa e para o bem da verdade, deixo logo assentado que não sou dos tempos das cadeiras nas calçadas em fins de tarde quando as “marocas” do bairro cuidavam de traçar a boa conversa e, tambémcolocar em dia as fofocas que corriam à boca pequena até então. Fosse o que fosse, na hora do pôr do sol quase tudo acabava sendo objeto decomentários entre as amigas da rua, maldosos ou não, mas sempre precedidos da célebre expressão – ouvi dizer, própria de quem jamais’ assumiria o que estava propalando.

Ao mesmo tempo, durante muitos anos e até quando não mais era possível dar-se ao luxo de usar cadeiras de vime e embalo nafrente das residências, as fofocas ocupavam as páginas de jornais, especialmente nas famosas colunas sociais e em modos muito próprios de umjornalismo que chegou a ganhar famacom profissionais altamente especializados Brasil afora.

Manaus não fugiu à regra, e são conhecidos e notórios os mais renomados especialistas que se dedicavam a produzir colunas que, além de valorizarem as festas, jantares, casamentos, aniversários, banquetes, a alta sociedade e encontros de políticos; aqui e ali alguns deles não resistiam e deixavam escapar pequenas notas capazes de causar incômodo, gerar dúvidas, instigar intrigas. E não se diga que faziam isso por maldade, mas por estilo.

De outro lado, diriam alguns, tudo isso acontecia porque os “colunáveis” davam motivo, conseguiam “causar”, muitas vezes de forma inapropriada ou inadvertidamente e as boas línguas não perdoavam e passavam a contar, de Candinha paraCandinha, todas as novidades do pedaço. Há quem comente que havia três respeitáveis senhoras de boa idade, sérias e bem consideradas, que ao se encontrarem toda a semana em certo clube da cidade, protegidas habilmente pelos leques que iam e vinham sem cessar num abre e fecha incontido, danavam-seao trancetê, mas sempre com muito cuidado para não passar dos limites do tolerável.

Tudo isso que se dava na “Manô contrastante” era um pouco inocente e não conseguia maior propagação. Nos dias de agora, entretanto, além de não puder ser tratado ‘como “fofoca” ou conversa de comadres, o disse-me-disse nas redes sociais começa a alcançar as raias do inaceitável e deve ser reprimido por todos os meios e modos.

É que, utilizando a moderna forma de comunicação por redes sociais, sem autoria definida ou possível de ser identificada facilmente, surgiram as chamadas “fakes News” que, depois de experimentadas em campanhas políticas para ofender e promover candidatos em total desrespeito ao eleitor e cidadão brasileiro, tem sido

utilizadas para impulsionar notícias alarmantes sobre doenças, crimes, ofensas generalizadas a qualquer desafeto, desrespeito à instituições democráticas e à autoridades constituídas do País, e, não raro, intrigar os agentes dos poderes da República.

De uns tempos pra cá isso se transformou em uma arma que, se usada a favor da democracia, dos direitos e prerrogativas do cidadão e da nacionalidade, da modernização do Estado, da boa informação sobre saúde, educação, segurança, trânsito, vacinação, defesa dos mais fracos, proteção da criança e do adolescente, por

exemplo, seria perfeito e um belo instrumento, que a modernidade coloca à disposição da sociedade.

Do jeito que muitas pessoas preferem utilizar esses meios ágeis e inigualáveis, entretanto, poder-se-á chegar ao descrédito total e haver a decadência desse uso que, para muitos, chegou a se transformar em vício raivoso.

Pelo que tem acontecido com os alarmes que desacreditam essa forma de comunicação e chegam a apavorar muita gente, as notícias falsas não podem ser consideradas fofocas virtuais e, ao reverso, se transformam em verdadeiro veneno contra a vida, o direito, a honra e a verdade.

Odifícil é descobrir o antídoto que vença esse malefício da modernidade.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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