*Juca Kfouri

Outra vez os rubro-negros parecem décadas à frente do alvinegro, em nova crise.

Em 1982, com o Flamengo campeão mundial no ano anterior e o Corinthians na Taça de Prata do Campeonato Brasileiro, disputando para chegar à Taça de Ouro no mesmo ano, o que conseguiu, a revista Placar fez a pergunta: Por que o Corinthians não é um Flamengo?

A resposta era óbvia, mas o Corinthians se superou ao buscá-la e criou a Democracia Corinthiana.

Então, o diretor de futebol corintiano, Adílson Monteiro Alves, escreveu um bilhete para o diretor da publicação semanal: “Porque o Corinthians não quer ser o Flamengo”.

Touché! Reconheceu, com satisfação, o jornalista.

Campanha do Flamengo na Libertadores 2019

O segundo jogo também foi com vitória, 3 a 1 sobre a LDU (EQU), mas uma derrota por 2 a 1 para os equatorianos no returno quase complicou a classificação da equipe Ricardo Moraes – 13.mar.19/Reuters

Contra o Peñarol (URU), o Flamengo perdeu no Maracanã por 1 a 0 e segurou um empate fora de casa, por 0 a 0, que garantiu a passagem na primeira posição do Grupo F para as oitavas de final; cariocas, equatorianos e uruguaios terminaram com 10 pontos Carl de Souza – 3.abr.19/AFP

Trinta anos depois, a pergunta pôde ser, literalmente, refeita: Por que o Flamengo não é um Corinthians?
Sim, em 2012, o rubro-negro brigou para não cair para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro e o Corinthians sagrou-se bicampeão mundial.

O Flamengo demorou sete anos para responder.

Sem bilhete, apenas com futebol exemplar.

Eis que, quase 40 anos depois da primeira indagação, novamente a questão está em pauta, diante da enorme distância entre os dois clubes mais populares do país, outra vez com vantagem dos cariocas, embora os paulistas vivam no estado menos pobre do Brasil.

Flamengo e Corinthians jogarão no próximo domingo (3) pela 30ª rodada do Campeonato Brasileiro, com o rubro-negro 22 pontos à frente antes da rodada 29.

Diferença que a história do confronto ainda não registra, pois em 136 jogos a superioridade da Gávea é de apenas um jogo, 54 a 53, e há empate no torneio nacional, 24 a 24.

Mas o Flamengo com finanças saneadas pela gestão anterior marcha para estabelecer supremacia aparentemente sólida sobre o rival endividado e desnorteado.

A comparação entre os dois times não permite dúvida: exceção feita aos goleiros, posição em que há equilíbrio entre Diego Alves e Cássio, nas demais só Gil pode ser considerado melhor que Pablo Marí.
De resto a distância é abissal.

Daí ser possível projetar um fácil triunfo rubro-negro no clássico no Maracanã lotado.

É claro que sempre se faz necessário alertar para o de sempre quando se trata de futebol, a possibilidade de a retranca alvinegra arrancar o empate acovardado ou até mesmo vencer por margem mínima.

Será milagroso do ponto de vista do vencedor, catastrófico para o derrotado.

Importa considerar, antes do jogo mais popular do Patropi, a expectativa em torno do embate.

Se o time do Grêmio, que é o time do Grêmio, sofreu o atropelamento histórico na semifinal da Libertadores, como não considerar o Corinthians apenas como coadjuvante daqui a três dias?

É conhecida a dificuldade dos clubes brasileiros em estabelecer hegemonia duradoura no cenário nacional, porque a autossustentabilidade é meta ainda não alcançada nem por quem teve o Rei Pelé durante quase 20 anos, nem por quem teve gestões de vanguarda, como o São Paulo, ou mecenas como o Palmeiras e o Fluminense ou, ainda, patrocinadores poderosos, como o próprio Corinthians.

Mesmo sob o risco de amanhã, por politicagem, o Flamengo ser vítima de administração temerária e ir tudo por água abaixo, parece crível, até pelo escrito em seu moderno estatuto, que o Flamengo apenas vive o primeiro ano de uma nova etapa na sua história mais que centenária.

Será muito proveitoso se todos os demais grandes clubes brasileiros quiserem ser o Flamengo. Basta imitá-lo.

*Jornalista esportivo. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno de Esporte, de 31/10/2019.
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