*Antonio Delfim Netto

Continuamos sem saber qual é a situação da sociedade brasileira em relação à pandemia.

Passaram-se quase 80 dias desde que a primeira vítima infectada pela Covid-19 foi descoberta em São Paulo, no dia 26/2.

Continuamos, até agora, sem saber qual é a situação da sociedade brasileira em relação à terrível pandemia, mais uma das muitas zoonoses que habitam a história do homem. Desde o primeiro momento, os responsáveis pela saúde pública invocaram a “ciência” como sua orientação. Ora, a essência do enfoque científico é “medir e medir!”, coisa que nunca fizemos e que substituímos pela retórica midiática.

Gastamos tempo proclamando o remédio prescrito pela ciência (“fique em casa”), mas ignoramos o seu método de apreensão da realidade, o que, afinal, significa negá-la!

Primeiro dia de novo rodízio de carros em SP

Movimento intenso de veículos na Radial Leste (avenida Alcântara Machado, no Tatuapé) às 14h30, no primeiro dia de rodízio de veículos alternados Eduardo Knapp/Folhapress

Movimento de veículos no corredor Norte Sul (av Rubem Perta, altura da ponte Pedro de Toledo), às 12h45 desta segunda-feira (11), primeiro dia de rodízio alternado Eduardo Knapp/Folhapress

O pouco que sabemos sobre a pandemia, com todas as suas limitações, devemos ao competente trabalho da Fiocruz. Sua estatística informa que, desde as primeiras notícias de infectados pela Covid-19 (em 26/2), tivemos quatro dias até que se revelasse o segundo. Se tomarmos o dia 28/2 como a origem dos registros até 11/5 e os dividirmos em “blocos” de sete dias, teremos dez blocos completos (que terminam em 6/5) e um hoje ainda incompleto, de três dias de observação e que só se completará em 13/5. Por conveniência, é melhor chamá-los de “semanas”.

O primeiro bloco (a primeira “semana”) vai de 28/2 a 5/3. Nele, a expansão da pandemia foi incrivelmente rápida: de 1 a 7 infectados, ou seja, uma expansão de 32% de infectados por dia! As taxas de aumento de infectados dentro das dez “semanas” foram as seguintes:

Taxa de aumento de infectados

A partir da sétima (em torno da terceira semana de abril no calendário: dia 16 a 22), verifica-se que ela se estabilizou numa taxa entre 6% e 7%, mas que produziu um acréscimo de quase 50 mil infectados entre a 9ª e a 10ª “semana”.

É preciso reconhecer que os poderes Executivos (União e estados) e os presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal, se não sentarem à mesa para um entendimento que coordene a saída da sociedade brasileira da confusão que a descoordenação entre eles produziu, conseguirão o que parecia impossível. Matar a pátria amada.

*Economista, ex-ministro da Fazenda. Artigo na Folha de São Paulo, de 13/05/2020.
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