“Os desfiles, ou paradas escolares, eram abertas por bandas marciais que anunciavam o colégio a que pertenciam conforme o toque de seus clarins e abatida de sua “caixinha”.

Sou do tempo em que, desde pequeno, ainda no aconchego da casa de nossos pais, todas as crianças eram acostumadas a compreender a importância de cultivar a consciência cívica e a brasilidade, conduta familiar que se estendia ao grupo escolar, curso ginasial, segundo grau e nível superior, sem exageros, mas com devotamento e respeito.

Era comum e dever aprender-se os hinos do Brasil e do Amazonas e apresentá-los em todo e qualquer evento, perfilar-se com admiração e solenidade diante do hasteamento do Pavilhão Nacional, participar de gincanas e olimpíadas culturais e desportivas, e, com certa pompa, conforme o costume, participar dos desfiles oficiais da Semana da Pátria no dia 5 de Setembro nos quais expúnhamos garbo, elegância e solenidade. Era a forma mais comum de demonstração pública que os educadores encontravam para os festejos cívicos, ainda que fosse herança dos anos 1930.

Em certa fase, cheguei a organizar os desfiles estudantis, o acendimento da pira representativa do Fogo Simbólico da Pátria na Praça Antônio Bittencourt (Praça do Congresso) e depois na Praça Heliodoro Balbi (Praça da Polícia), de cujo evento participavam atletas, estudantes, políticos, autoridades civis, militares e eclesiásticas e professores. Na ocasião davam-se as homenagens aos vultos históricos, personalidades brasileiras e amazonenses que eram destacadas pelos governos federal e estadual em reconhecimento a relevantes serviços prestados à sociedade. Tempos depois incluiu-se homenagem especial à mulher amazonense com realce a senhoras que fossem exemplo singular para as novas gerações.

A vigília permanente ao Fogo Simbólico reunia estudantes, operários de várias classes e categorias, militares de todas as forças, membros da maçonaria, escoteiros, bandeirantes e lobinhos, representantes de todas as raças e credos, homens e mulheres que, irmanados, reverenciavam os heróis nacionais e exprimiamo respeito pelos valores da nacionalidade brasileira.

Os desfiles, ou paradas escolares, eram abertas por bandas marciais que anunciavam o colégio a que pertenciam conforme o toque de seus clarins e a batida de sua caixinha”, as quais resultavam de inúmeros ensaios que nos empolgavam. Os desafios” entre as bandas do Instituto de Educação, Colégio Estadual, Dom Bosco, Colégio Brasileiro e Escola Técnica Federal eram travados desde os primeiros ensaios pelas vias do centro da cidade. A grande surpresa, certo ano, foi o belo exemplo da banda do Instituto Benjamin Constant, só de mulheres, a qual concentrou os aplausos do público. Os trajes eram engalanados e destacados por cores representativos de cada escola. Mesclavam-se orgulho, satisfação, entusiasmo e civismo, mesmo que alguns, passados tantos anos, possam desdizer esse sentimento, embriagados por outras questões menores.

Não há quem retire da minha retina as belas acrobacias das balizas que abriam o desfile, o empenho do professor Pedrinho Silvestre em liderar o seu Colégio Brasileiro, o mestre Lulu Verçosa à frente do bode do Colégio Estadual, a grande movimentação que se dava em minha casa com nossa amada mãe preparando o fardamento dos filhos e filhas, com ferro à carvão, para vê-los compondo os pelotões de destaque do Instituto, o vestir das polainas, o colocar dos quepes, o polir das fivelas douradas dos cintos, o rebrilhar nos espadins… Pareço ouvir, ainda agora, as batidas audaciosas e inimitáveis doprincipal instrumentista da banda da Escola Técnica, conhecido como “17” e a citara inaugurada nas bandas pelo colégio Dom Bosco.

Indiscutível que tudo isso estimulava o entusiasmo da juventude, mobilizava os colégios, concitava a imprensa a tratar de fatos antigos, e, sem dúvida, fazia despertar o interesse pela história ao mesmo tempo em que contribuía para ampliar a consciência do nacionalismo.

Muito depois, ao ouvir os ensaios desses grupos marciais, algumas vezes andei interrompendo brevemente belos momentos de amor e paixão para me deliciar com os sons que me eram tão peculiares e tanto diziam da juventude que experimentei com grandes alegrias.

Compartilhar
Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui