Festa brasileira
Festa brasileira

“Tudo era festa. Antes do jogo, os preparativos eram realizados com muita expectativa pela nossa querida Ana Maria, a médica de bela fama (…) 

Enquanto os tambores rufavam em ensaios dosbois Caprichoso e Garantido na ilha encantada de Parintins ultimando as providências para um dos maiores espetáculos da terra – o Festival Folclórico -, a seleção brasileira de futebol se preparava para entrarem campo disputando a Copa do Mundo realizada na Rússia.

Olhos fixos na televisão, equipado com as cores nacionais, bandeirinha na mão, apito no bolso, ao lado da minha Rosa, bateu uma saudade imensa – ainda maior do que aquela que todos os dias me dói – saudade dos tempos em que nos reuníamos na casa de nossos pais para vibrar com os jogos da copa de futebol, fosse onde fosse e a que horas fosse.

Nosso pai gostava de acompanhar a nossa alegria e vibrava intensamente como brasileiro. Nossa mãe e mestra Sebastiana Braga adorava ver, ouvir e comentar tudo que dissesse respeito à seleção, e com paciência de Jó, acompanhava a demorada e as lentas trocas de passe no meio do campo do time quando estava à espera de oportunidade mais segura para avançar em direção ao gol do adversário. Nós outros ficávamos irritados com o jeito maneiroso de jogar que às vezes a equipe demonstrava.

Tudo era festa. Antes do jogo, os preparativos eram realizados com muita expectativa pela nossa querida Ana Maria, a médica de bela fama que se transformava em organizadora de torcida, mestre-cuca, decoradora da casa e assistente da anfitriã. Durante a partida o pedido.de silêncio não só para ouvir melhor a narraçãodo locutor, mas também como forma de cada um conter os nervos, sentar-se onde quisesse, vestir-se como desejasse, comer o que lhe aprouvesse, desde que não ficasse fazendo comentários em paralelo e fora de hora. Se acontecesse de haver gol contra o Brasil – e muitas vezes tivemos de engolir essas bolas sem desejar -estabelecia-se um disse-me-disse de contestação contra a marcação do árbitro, a falha do zagueiro e até em relação à bola que parecia estar murcha. Na hora do nosso gol a casa fervilhava de emoção, gritos, buzinas, apitos, bandeirinhas, corrida para a rua, pula-pula interminável recheado de abraços e mais abraços. Ao final,qualquer que fosse o resultado do jogo, levávamos conosco não só a emoção de acompanharjuntos a apresentação da nossa seleção de futebol, muito mais do que isso, levávamos o sabor da vida feliz desde os primeiros passos de cada um, em familia, em harmonia e com as bênçãos dos nossos pais, verdadeiramente irmanados como uma rocha.

Somente o nosso irmão João, o comentarista de futebol de primeira linha e que se impunha como respeitado professor, advogado e procurador do Tribunal de Contas, não comparecia a essas reuniões porque assistia ao jogo sozinho e calado, observando as jogadas como se fosse fazer comentário final dos noventas minutos.Mesmo assim, a cada jogada mais complicada, a cada gol ou ao fim do primeiro tempo tocávamos o telefone para saber a opinião do mestre.

Imagine o leitor esse filme passando na minha cabeça na execução do H1no Nacional, exatamente na hora em que de pé é emocionados, cantávamos junto com a torcida do estádio, estimulados por nossos pais para o civismo e o amor à Pátria em qualquer circunstância da vida.

Neste último jogo confesso que chorei em silêncio com lágrimas de amore de saudade, emocionado ao ouviro nosso Hino, e, a cada estrofe que á galera foi cantando sem parar, agradeci a Deus pela familia que nos concedeu nessa passagemterrena e pelos exemplos que tivemos de nossos pais, fiéis torcedores da seleção canarinho.

Revise você também, no coração e na memória, os momentos de encantamento que passou com sua familia.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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