Drauzio Varella
*Drauzio Varella

Anos atrás, escrevi nesta coluna que não gosto de Natal e a reação não foi amigável.

Meu WhatsApp amanheceu enlouquecido no primeiro dia do ano. Os textos falavam de amizade eterna e as imagens exibiam fogos de artifício, pinheiros cobertos de neve, ursinhos e gatinhos em paisagens idílicas acenando para um 2020 pleno de alegria, felicidade, paz universal, serenidade e, sobretudo, realizações.

Apesar de saber que as alegrias farão visitas apressadas, que felicidade plena e paz mundial são miragens, que serenidade é estado inatingível para espíritos conturbados como o deste que vos escreve e que as possíveis realizações me obrigarão a trabalhar ainda mais, passei horas a retribuir a gentileza dos que enviaram tantas mensagens calorosas, tarefa que havia exigido a mesma dedicação no dia de Natal.

Caríssimo leitor, diante da impossibilidade de dar fim a esse costume, tomo a liberdade de sugerir que a partir do próximo ano enviemos uns para os outros mensagens únicas, com validade para Natal e Ano-Novo. Já que os votos de felicidade, sucesso e as bênçãos divinas são redundantes em ambas as datas, por que razão repeti-las?

Só haveria justificativa caso fossem contraditórias: no Natal votos como esses; no Ano-Novo, os de fracassos, desencontros e as maldições.

Anos atrás, escrevi nesta coluna que não gosto do Natal. A reação nas assim chamadas redes sociais não foi propriamente amigável.

Disseram que era desrespeito a um dia sagrado, menosprezo aos sentimentos altruístas que emergem nesses dias. Alguns se referiram com palavras vulgares à senhora minha mãe, que morreu muito antes de experimentar os desgostos que os escritos do filho lhe causariam.

Como é usual nas referidas redes, meus detratores nem sequer se deram ao trabalho de ler o texto. Tivessem lido, entenderiam que meu problema com o Natal não é fruto de intolerância religiosa, já vivi o suficiente para respeitar crenças alheias, por mais estranhas ou irracionais que a mim pareçam. O que me incomoda é o lado estético das comemorações: as imagens natalinas são um festival de cafonice.

Começa pelo Papai Noel, esse senhor de barba postiça, botas de cano longo, gorro, vestido com roupa de tecido sintético capaz de assar um ser humano sob o sol de dezembro. Sinto pena do homem de sorriso bondoso, sentado no shopping com crianças endiabradas pulando em seu colo, enquanto as mães tiram milhares de fotos. Imagino que no recolhimento da noite, o bom velhinho sonhe que é Herodes em ação, na Galileia.

Para os apreciadores do mau gosto, os enfeites são insuperáveis. Guirlandas verdes com laços de fita vermelha, bolas de cores carnavalescas, pó branco borrifado para imitar a neve, trenós de renas lapônicas puxando o pobre Noel, representado com formas roliças desde os tempos em que obesidade era sinal de boa saúde.

Os enfeites pendurados nas portas das casas respeitam o mesmo padrão de guirlandas, bolas, trenós e papais noéis em miniatura, com a agravante de que às vezes são enriquecidos com piedosos bebês alados, que imagino serem anjos em ascensão ao firmamento.

Na agência bancária em que tenho conta, todos os anos montam a inevitável árvore de Natal. É toda de ouro, os ramos, os galhos, as bolas, as fitas, os pingentes, os pacotes de presente e a base que dá suporte à peça de decoração.

Ano após ano, alimento a esperança de que um gerente bem-aventurado tenha piedade e me poupe daquele horror dourado. Em vão, dezembro ainda nem começou, ela aparece bem na entrada, orgulhosa de sua feiura imponente.

Nessa época do ano nem pensar em tomar uma cerveja com o amigo, no bar. Quer dizer, você pode ir, mas não tenha pretensão de escutar uma palavra que ele disser, a gritaria nas mesas que reúnem os funcionários das firmas é infernal. Se houver distribuição de presentes dos amigos secretos, então, fuja correndo.

Esses dias são ideais para os que se divertem em bandos de bêbados que se juntam para berrar pelas ruas, durante a madrugada. São bons, também, para quem prefere estradas, rodoviárias e aeroportos congestionados.

Você, leitor, dirá que não passo de um chato mal-humorado que implica com tudo. Não é verdade, gosto das luzes miúdas enroladas nos troncos das árvores e nas grades dos prédios, deixando as calçadas da cidade de São Paulo menos escuras, mais festivas e acolhedoras.

Mas o melhor desta época do ano, o que me deixa feliz de verdade, é despertar na manhã do dia 2 de janeiro.

*Médico e escritor. Colunista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 05/01/2020.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui