Ao amigo Geraldo Gadelha

1

Esta é a história de uma cadelinha nascida na rua e criada na rua. Era vira-lata. Vivia abandonada. Protegia-se escondida entre os arbustos, às margens de uma estrada que levava a um condomínio de sítios, fora da cidade em Manaus.

Por esse caminho também andava o médico Dr. Geraldo, na direção da chácara que possuía em um desses sítios. A presença do Dr. Geraldo mudou a história da cadelinha.

2

Dr. Geraldo via de longe aquela pequena criatura. Era arisca e se escondia quando alguém parava perto de carro. Peluda, seus pelos estavam muito sujos.

Ele gostava de cães e não resistiu à curiosidade. Aproximou-se com o carro para vê-la melhor. Ficou penalizado com aquilo. A cadelinha estava muito magra e olhava para ele como quem pede ajuda.

Decidiu ajudar. Ao passar todos os dias, levava um bocado de ração que o pequeno animal recebia abanando a cauda. Já sabia a hora em que o Dr. Geraldo trazia-lhe a ração.

Ficava esperando à beira da estrada.

3

Um dia o bom homem estacionou o carro e não viu a cadelinha. Caminhou um pouco para dentro do mato e a encontrou se arrastando. Fora atropelada e tinha medo que as pessoas lhe fizessem outros males. Ela não podia nem se defender.

Estava assustada.

Única pessoa em quem confiava era no Dr. Geraldo. Ele a cativou com seus gestos de carinho. A cadelinha se deliciava com a ração especial que o Dr. Geraldo lhe trazia, quando passava por ali.

4

O bom homem pegou-a nos braços e a levou a um veterinário. Viram que ela precisava ser operada.

O veterinário realizou várias cirurgias e conseguiu recuperá-la. Internou-a na clínica e fez curativos diários. Ela estava muito abatida.

Ficou cega de um olho.

5

Quando ela saiu da clínica, o bom homem levou-a para a sua chácara e dedicou-lhe cuidados especiais. Deu-lhe o nome de Perla, que ela não custou a aprender. Com o seu jeito simples, a cadelinha conquistou a amizade de todas as pessoas da chácara.

Quando o bom homem chegava, a primeira coisa que fazia era ir conversar com a Perla. Ela o recebia fazendo festa. Já estava boa e forte, podia pular em torno do amigo.

6

A maior diversão desse bom homem em sua chácara era alimentar os passarinhos.

Tinha um lugar, junto à piscina, aonde ele colocava pedaços de frutas e alpiste. Os passarinhos comiam e voavam cheios de alegria.

Gostavam mais do alpiste.

7

Para a Perla ele levava ração da melhor qualidade. Ela necessitava recuperar-se com uma comida especial. A cadelinha comia tudo.

Passou muita fome quando estava abandonada.

Precisava adquirir energia.

8

Quando morava no mato a cadelinha aprendeu a lidar com os passarinhos. Na chácara eles ficaram irmãos. Comiam, juntos, o alpiste que aquele bom homem levava para eles.

Nunca se viu coisa igual, uma cadelinha comendo alpiste.

9

Zezé passava os fins de semana, com sua família, na chácara do Dr. Geraldo, a quem chamava de tio, e ficou admirado ao ver a Perla comendo alpiste.

Pensou logo: ora, se nem as aves grandes gostam de alpiste, só os passarinhos, como é que a cadelinha Perla gosta de alpiste, também?

Ela era vista com olhos diferentes entre os animais da chácara.

10

Um dia ao acordar de manhã, o Zezé viu uma coisa maravilhosa.

A cadelinha Perla voava com os passarinhos.

Zezé achou que a cadelinha voava de tanto comer alpiste.

11

O menino correu e foi chamar o tio Geraldo para ver a Perla voando.

O bom homem se apressou curioso e viu a Perla correndo e pulando, a brincar com os passarinhos.

12

Tio Geraldo disse então ao Zezé que ela estava era muito feliz.

Zezé concluiu:

– Ah, então é isso: a gente voa quando está feliz…

Praia da Ponta Negra, em 3/12/2017.

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Elson Farias
*Poeta e ensaísta. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras. Nascido em Itacoatiara é uma das glórias dessa cidade.

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