“Os americanos precisavam de borracha para entrar na guerra e o Brasil de entrar no processo mais acelerado de industrialização. Resultado, os EUA pagaram a mobilização dos novos seringueiros, o Brasil ganhou a CSN, Companhia Siderúrgica Nacional e a Amazônia, que forneceu insumo e mão de obra, ficou a ver navios”.

Coluna Follow-up 02.07.21

Na floresta, dois bicudos não se bicam, muito menos se aliam. Esta é a imagem belicosa entre Brasil e Amazônia que, talvez, permita explicar porque viramos cidadãos de II classe, desde que Dom João VI, fugido de Napoleão, veio para o Brasil implantar seu reinado nos trópicos. Seu destino, inicialmente, era a Amazônia, onde o Marquês de Pombal, anos antes, instalara um projeto socioeconômico progressista, liberal e baseado em pequenas propriedades. E onde havia festa, fartura e hospitalidade em estado permanente. Dom João se apaixonou mas foi, mais uma vez, obrigado a ampliar sua fuga. Belém era muito perto de Paris e Napoleão não estava de bom humor diplomático.

Manaus era uma das cidades mais importantes do Ocidente com a economia da Borracha no Século XIX. Juntamente com Belém, abastecia o mercado internacional de borracha, o ouro negro, retirado da Árvore da Fortuna, a mítica seringueira. Só havia aqui esta espécie em abundância e em atividade extrativa. Capitais do Grão-Pará e Rio Negro, as duas cidades assimilaram as influências da liberté, fraternité e egalité da Revolução Francesa, que ainda fervilhava nas Guianas vizinhas, adubando a autonomia amazônica num contraste civilizatório entre o Norte e o Sudeste monarquista, latifundiário e escravagista. Este foi um fator diferencial que serviu de desculpas para o desastroso relacionamento do nascente Império Brasil com a Amazônia, algo que transpira até nossos dias. Havíamos ficado indiferentes à Declaração de Independência em 1822. E nunca demos muita trela à Coroa. E mais grave, nos insurgimos contra o Império e fomos massacrados com a guerra genocida da Cabanagem, na década seguinte.

Durante três décadas a Amazônia respondeu por, praticamente, metade do PIB brasileiro, tal o volume de recursos do Ciclo da Borracha drenados para a capital federal. Como hoje. Pagamos os polpudos salários de deputados e senadores e a Polícia Militar da Amazônia, de tão aparelhada e modernizada pelas libras da borracha, foi escalada a sufocar a rebelião de Antônio Conselheiro, em Canudos, no sertão nordestino. Não foi investido um tostão na modernização de um parque fabril para perenizar está riqueza com beneficiamento local. Praticamente o mesmo se repete em nossos dias.

Os ingleses viram mais longe desde que aqui aportaram e tudo fizeram para a abertura do Rio Amazonas para as companhias internacionais. E temendo um despertar nacional que nunca se deu, trataram de levar as sementes de seringueira, com aval das autoridades alfandegárias do Brasil, para seus domínios tropicais asiáticos. Não sem antes imprimir-lhes melhoramento genético nos laboratórios do Museu Imperial Botânico de Kew Gardens. Em 1905, começou a produção extensiva de seringueiras não Malásia, Birmânia e adjacências. Em 1911, a borracha cultivada com inteligência em plantio de 5×5 metros, conseguiram espalhar borracha de origem amazônica para o mundo Industrial do século XX, dos automóveis, veículos de duas rodas, preservativos e produtos hospitalares. E os seringais fincados na escuridão da floresta amazônica não tinham como disputar qualquer mercado.

Veio a II Guerra Mundial, em 1942. A Amazônia, que mergulhara na mais cruel penúria econômica, dependente das migalhas federais, por décadas, se viu nomeada o quartel-general da borracha, sem a qual os veículos de guerra não poderiam combater. Chamado a Washington, Getúlio Vargas, que simpatizara com alemães, italianos e japoneses, e foi meio a contragosto debater o que já estava resolvido, teve que rezar a cartilha. Os americanos precisavam de borracha e o Brasil de entrar no processo mais acelerado de industrialização. Resultado, os EUA pagaram a mobilização dos novos seringueiros, o Brasil ganhou a CSN, Companhia Siderúrgica Nacional e a Amazônia, que forneceu insumo e mão de obra, ficou a ver navios.

(Artigo em parceria com Wilson Perico)

Voltaremos na semana que vem!

 

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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