Conto retirado do livro “Uma amazonense em Copacabana”, São Paulo, 2018.

Fui visitar tia Idalina em Copacabana. Anda muito saudosa de Manaus. Ela saiu da cidade há muitos anos, mas a cidade não saiu de tia Idalina.

Uma das funções de Tina, a neta que mora com ela, é imprimir, diariamente, os jornais de Manaus. Tia Idalina tem pavor a computador e não abre mão de ler os jornais da terra.

Antigamente, ia pessoalmente comprá-los numa certa banca de Copacabana que recebia jornais de todo o Brasil e de vários países. Com o advento dos jornais on-line, a banca deixou de receber alguns desses periódicos, incluindo todos os de Manaus, para tristeza e revolta de tia Idalina, que por ora se conforma com as impressões feitas por Tina pelo computador.

Lê tudo, inclusive o Jornal do Commercio, que segundo ela, tem o melhor obituário. Ela me disse que o obituário do JC “é formidável, porque fornece o nome dos pais dos falecidos”. Assim não se fica com dúvidas de quem realmente morreu. “Parabéns ao JC”, me disse ela.

Invariavelmente, aparece notícia do falecimento de alguém. Seja pelo obituário, seja pelos convites de missa. E tia Idalina sempre passa telegrama para a família enlutada. Dependendo da intimidade e da amizade com o falecido ou a falecida, ainda dá um telefonema ou escreve uma cartinha. Mas não abre mão do telegrama. Jamais.

Outro dia leu no jornal que, na Índia, os Correios iam suspender os serviços de telegrama. Apavorada, ligou ela mesma para o SAC da nossa ECT para saber se iam acabar com o telegrama no Brasil.

Uma simpática atendente explicou à tia Idalina que, absolutamente, os Correios do Brasil vão manter esse serviço. Inclusive porque houve aumento desse produto, via telefone e internet.

E eu que pensava que tia Idalina fosse a última pessoa do mundo a passar telegramas … Ledo engano!

Uma vez convidei tia Idalina para voltar a Manaus, mas ela morre de medo de avião. Queria muito tomar tacacá na Praça São Sebastião e visitar o Mercadão. Mas não vem, de maneira nenhuma.

Tia Idalina não se esquece do Constellation da Panair do Brasil, que caiu perto de Manaus, em dezembro de 1962. Vindo do Rio de Janeiro, fez escalas em várias cidades até decolar de Belém para Manaus. Tia Idalina conta tudo em detalhes:

– Durante a aproximação final, na madrugada do dia 14, a tripulação solicitou à torre do Aeroporto da Ponta Pelada que ligasse as luzes de sinalização da pista. Depois de breve contato com a torre, a aeronave desapareceu.

Os destroços do Constellation foram localizados nas proximidades de Rio Preto da Eva. Naquela época, o local era de difícil acesso. Tia Idalina disse que houve uma expectativa de encontrar sobreviventes. Chegaram ao local somente no dia 20, bem perto do Natal. Morreram 51 pessoas. Tia Idalina conhecia quase todo mundo, principalmente seus vizinhos queridos.

O medo dela é compreensível. Depois de comermos as pupunhas que eu levei, com café coado no coador de pano e bem forte, tia Idalina me disse:

– Eu morro de medo de avião. Não viajo, principalmente na época do Natal. Eu sou uma amazonense exilada em Copacabana!

Compartilhar
Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui