*Marcelo Viana

Matemático encontrava regularmente a soberana Catarina, a Grande, para conversar sobre as ciências.

O czar Pedro 3º tinha o nome, mas nenhuma das qualidades de seu formidável avô, Pedro 1º, o Grande. Impopular devido a suas ideias pró-germânicas, em 9 de junho de 1762 foi deposto por tropas fiéis à sua carismática esposa, a princesa alemã Sofia de Anhalt-Zerbst que, ao converter-se à igreja ortodoxa russa, adotara o nome Catarina.

Morreu pouco depois, em condições suspeitas, e Catarina logo se fez coroar, dando início a um reinado de mais de três décadas que fez dela a mulher mais poderosa de sempre, e a única a receber o cognome “a Grande”. Entre suas prioridades estava devolver à capital imperial o brilho cultural que tivera a partir do reinado de Pedro 1º.

As exigências de Leonhard Euler para voltar à Rússia foram exorbitantes: salário anual de 3.000 rublos, pensão para sua esposa, Katharina, e promessa de cargos importantes na corte para seus filhos. Catarina aceitou sem hesitar e, em 1766, Euler regressou pela última vez a São Petersburgo. Está sepultado no mosteiro Alexandre Nevsky, num mausoléu de mármore que tive a oportunidade de visitar em 1991, quando participei da inauguração do Instituto Euler da Academia de Ciências da (ainda) União Soviética.

Esse período final de sua vida foi marcado por diversas tragédias. Cinco anos após ter ficado cego, em 1771 sua casa foi destruída por um incêndio que quase lhe custou a vida. Dois anos depois perdeu sua esposa de 40 anos. Oito dos 13 filhos do casal não chegaram à idade adulta.

Mas em 1776 casou com sua meia-cunhada Salome, e essa relação durou até a sua morte.

Catarina, a Grande, era uma mulher culta e sofisticada, que se correspondia com os maiores intelectuais do seu tempo, e fazia questão de discutir pessoalmente com os pensadores que reuniu em sua corte. Euler não era exceção: tinha encontros regulares com a soberana para conversar sobre matemática e outras ciências.

Euler continuou trabalhando até morrer, sem que os dramas pessoais ou a cegueira abatessem sua incrível produtividade. O seu último trabalho, sobre balões aerostáticos, foi encontrado escrito com giz na ardósia, e foi publicado postumamente.

Em 18 de setembro de 1783, após um almoço em família, sofreu uma hemorragia cerebral enquanto conversava com um colega sobre a recente descoberta de Urano. Poucas horas depois “parou de calcular e de viver”, como explicou Condorcet em seu elogio fúnebre na Academia de Ciências da França.

Seu maior monumento é o website The Euler Archive (Arquivo Euler), repositório dos mais de 850 trabalhos que escreveu, e de muito mais informação sobre sua vida e obra.

*Jornalista. Articulista da Folha de São Paulo. Texto no Caderno Ilustrada, de 16/03/2021.
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