*Martin Wolf

O protecionismo está de volta, acima de tudo nos Estados Unidos. As forças que o propelem são a xenofobia e a nostalgia. É possível argumentar em favor de certo grau de autossuficiência, por motivos de segurança nacional. Mas esses argumentos teriam de ser meticulosamente avaliados. Não é isso que vem acontecendo, com certeza não na gestão de Donald Trump. No entanto, embora o tom seja diferente sob Joe Biden, a realidade, infelizmente, não mudou. Pelo contrário: o protecionismo se tornou uma das poucas questões em torno das quais existe consenso bipartidário.

O comunicado divulgado pelos líderes do G7 afirmava que “concordamos em garantir nossa futura prosperidade ao defender um comércio mais livre e mais leal, dentro de um sistema de comércio reformado”. Isso oculta o racha entre os Estados Unidos, que têm dúvidas cada vez mais fortes quanto ao comércio internacional, e a Alemanha, que depende do comércio para sua prosperidade, o que se aplica a todos os países de alta renda, mas tamanho menor.

Líderes do G7 encontram a rainha Elizabeth 2ª

A rainha Elizabeth 2ª conversa com o presidente dos EUA, Joe Biden, em jantar para os líderes do G7 no Projeto Éden, centro ambiental no sudoeste da Inglaterra Jack Hill/AFP

A rainha Elizabeth 2ª conversa com o presidente dos EUA, Joe Biden, em jantar para os líderes do G7 no Projeto Éden, centro ambiental no sudoeste da Inglaterra Jack Hill/AFP

Não surpreende que um país grande e dotado de economia sofisticada e recursos diversos, como os Estados Unidos, tenda a ter um comércio internacional menos intensivo do que nações menores, e portanto se preocupe menos com isso. O país desfruta de muitos dos benefícios do comércio internacional por meio de especialização interna. Mas como argumenta a economista Anne Krueger em seu livro “International Trade”, o comércio internacional sempre andou de mãos dadas com o crescimento econômico, em todo o mundo, desde a Segunda Guerra Mundial.

Além disso, mesmo que o comércio seja menos vital para os Estados Unidos do que para outros membros do G7, isso não significa que os americanos sejam vítimas indefesas das práticas malévolas do restante do mundo, e especialmente da China. Pelo contrário: o recurso ao protecionismo é como perder chaves e procurá-las embaixo de um poste de luz não porque elas caíram ali, mas porque ali a iluminação é melhor.

O problema dos Estados Unidos é que o protecionismo -um imposto sobre a economia doméstica, especialmente os consumidores, em benefício dos produtores- é um substituto politicamente aceitável, mas ineficiente, para uma rede bem planejada de previdência social. Os europeus têm muito a aprender com os Estados Unidos, especialmente sobre inovação. Mas quanto a combinar comércio aberto e segurança econômica pessoal, e assim se ajustar ao comércio internacional, eles estão muito à frente.

Em uma esplêndida polêmica recente, o economista Adam Posen rebate frontalmente os argumentos protecionistas. Ele aponta, especialmente, que longe de serem excepcionalmente abertos ao comércio internacional, os Estados Unidos são relativamente fechados. Longe de ter passado por um grau excepcional de abertura nas duas últimas décadas, o país vem se tornando menos aberto. Longe de ter sido excepcionalmente abalado pelas importações vindas da China, para cada emprego americano perdido para competidores chineses, cerca de 150 postos de trabalho foram perdidos para “choques que criam sensação semelhante em outros setores”. E longe de ser uma vítima única do declínio do emprego na indústria, o que aconteceu nos Estados Unidos também está acontecendo nas demais economias de alta renda.

Sem dúvida a economia dos Estados Unidos sofreu com a desigualdade elevada e crescente e com o mau desempenho de sua força de trabalho; o nível de emprego dos adultos em idade de trabalho foi ficando cada vez mais para trás com relação ao da maioria dos integrantes do G7. Mas esses fenômenos não podem ser atribuídos ao comércio, porque os Estados Unidos são menos abertos do que outros países, mesmo o Japão. As verdadeiras explicações incluem o surgimento de novas fortunas em setores inovadores, mas também o comportamento rentista que prevalece na economia e, não menos, a falta de apoio à renda e ao trabalho (especialmente ao das mães, nessa última categoria).

Por que as perdas de empregos industriais se tornaram tão salientes em termos políticos? Parte da resposta é que se trata de empregos ocupados primordialmente por trabalhadores brancos e homens.

Mas isso também aconteceu porque, nos Estados Unidos, a inexistência de um sistema universal de saúde e a falta quase completa de apoio ao retreinamento e busca de emprego faz da perda de um emprego também uma perda de segurança básica. Uma economia moderna se torna mais, e não menos, flexível quando a segurança do trabalhador é separada de um trabalho específico.

Na ausência daquilo que os dinamarqueses chamam de “segurança flexível”, o protecionismo pode parecer inevitável. Mas nada trará de volta os velhos empregos industriais. Robôs substituirão os operários nas linhas de montagem de todo o planeta. A indústria terminará como a agricultura -fantasticamente produtiva, mas sem empregar trabalhador algum na produção. Como aponta Posen, a nostalgia não é uma política sensata.

Automoção: realidade que dá certo em São Paulo

Analista de manutenção testa robô colaborativo para carregar pequenas embalagens no laboratório 4.0 da Natura Eduardo Knapp/Folhapress

Na fábrica da Unilever, na cidade de Aguaí, no interior de SP, máquinas operam no setor de desodorantes em aerosol com poucos funcionários Eduardo Knapp/Folhapress

A alemã DHL está testando uma série de inovações. No centro de distribuição, o uso de robôs colaborativos (que trabalham ao lado de humanos) carregam itens e seguem os funcionários Keiny Andrade/Folhapress

Além da nostalgia e de uma busca de segurança no lugar errado, há a xenofobia. Mas os dias em que a China era a força esmagadora em favor da produção industrial barata terminaram há muito tempo. O debate agora se concentra cada vez mais na segurança nacional.

Há a opinião, por exemplo, de que a pandemia provou que as cadeias de suprimento estendidas são perigosas. O oposto é verdade. Depois da escassez inicial, surgida por conta de uma procura inesperadamente forte, a oferta disparou. Depender da produção interna não teria resolvido isso. Existe um problema hoje com o suprimento de vacinas, mas isso se deve a uma escassez mundial de capacidade de produção e à força da demanda vinda dos ricos.

Sim, existem argumentos em favor de manter a liderança tecnológica em setores vitais e de assegurar o suprimento de produtos essenciais. Mas essas preocupações precisam ser definidas e tratadas de forma precisa. Acima de tudo, na competição econômica com a China, a estabilidade democrática e o investimento em pessoas, infraestrutura e inovação serão os fatores decisivos.

Enquanto isso, o prosseguimento do comércio internacional em todo o mundo não só cimentará a interdependência mútua mas embasará a prosperidade, especialmente a dos países mais pobres, como enfatiza o excelente Relatório do Banco Mundial sobre Desenvolvimento, edição 2020, que se concentra em cadeias de suprimento e desenvolvimento. Isso também é compatível com enfrentar a mudança do clima, sob as políticas corretas decididas por acordo mundial.

O G7 está certo ao afirmar que o sistema de comércio mundial precisa de reforma. Mas isso não deve significar destruição. Não deveríamos jogar fora o comércio liberal pelas razões erradas, e da maneira errada.

(Tradução de Paulo Migliacci)

*Doutor em economia e comentarista-chefe de economia no Financial Times. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião de 15/06/2021.
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