Um americano de cor branca ajoelhou-se no pescoço de George Floyd, outro americano de cor preta. O branco sufocou o preto, matando-o. Milhares de pessoas da raça humana, da qual ambos pertencem, se indignaram e promoveram protestos em todos os cantos do planeta Terra. Não era sem tempo. Muitas minorias são diariamente sufocadas mundo afora. E precisamos dar um basta nisso.

Aprendi com meu pai que devemos respeitar os seres humanos, independentemente da cor, do gênero, da opção sexual, da religião, da ocupação, da altura ou do peso. Não gosto da expressão “politicamente correto”. As pessoas têm a obrigação de ser humanamente corretas. Em todos os sentidos. Meu pai desaconselhava o uso de palavras como denegrir ou judiar. Eram ofensivas aos negros e aos judeus.

Meu tio padre Moisés me disse que discriminação de pessoas é pecado e transgressão à Lei de Deus. Está nas Escrituras. O pai deles, meu avô, teve um primo que se casou com uma negra. Eles todos de cor branca tiveram uma prima, de cor preta, chamada Eunice.

Os filhos de Eunice, meus primos, são considerados pretos ou pardos. João é considerado preto. Ouço depoimentos de vários pretos na TV e nas redes sociais. São relatos abomináveis sobre eventos em que foram vítimas de crime de racismo. O João não pode se pronunciar porque está doente e esquecido. Então, eu, seu primo de cor branca vou relatar um fato, vivido por nós dois, em seu lugar.

Tínhamos por volta de 13 anos de idade e morávamos em Brasília. João e sua mãe estavam em nossa casa. Após o almoço, João e eu jogávamos futebol de botão enquanto sua mãe conversava com a minha. Fui solicitado a pagar uma conta de telefone numa agência bancária perto de casa. Convidei João para ir comigo.

Eu entrei no banco sem problemas. João ficou do lado de fora. Eu estava de calção e camiseta. João estava vestindo calça comprida e camisa. A princípio não entendi o que acontecia. Na saída da agência perguntei:

– O que houve João? E ele respondeu:

– Tu não vês que eu sou neguinho. O segurança me barrou.

Quis retornar e tomar satisfação com o guarda. Mas João não deixou. Pediu para que eu esquecesse. Há cinquenta anos atrás era assim mesmo. Ninguém protestava. João anda esquecido. Disso e de outras discriminações pelo qual passou e nunca me disse. João anda mesmo esquecido. De tudo.

Mas eu não esqueci.

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Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

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