Drauzio Varella
*Drauzio Varella

Fico bobo de ver como as pessoas continuam crédulas em pleno século 21.

Nunca fiz nem farei propaganda de remédio. Primeiro, porque não me formei médico para ser publicitário; depois, por impedimentos éticos: seria incompatível com o trabalho de educação em saúde que realizo há tantos anos, pelos meios de comunicação em massa.

Em meu portal de saúde, sempre deixei claro ser falsa qualquer publicidade de medicamentos em que apareça meu nome ou minha imagem.

Apesar desse cuidado e da conduta mantida em 50 anos de carreira, volta e meia surge um imbecil que posta uma foto minha na internet, indicando remédios para emagrecer, parar de fumar, fortalecer a imunidade ou a potência sexual dos desvalidos. A cada postagem sou obrigado publicar desmentidos e a contratar os préstimos de um escritório de advocacia, para tentar localizar os falsários.

É o máximo que se consegue fazer contra essa bandidagem inescrupulosa que infesta o esgoto da internet, com perfis falsos e sites fantasmas ancorados no exterior.

Há duas semanas corre pela rede que eu teria feito um quadro no Fantástico para falar de um produto chamado Cartilax, que se diz preparado com colágeno, milagroso para dores nas juntas. As ilustrações trazem a imagem de uma coluna vertebral retirada de um programa do Fantástico de anos atrás, que nada tinha a ver com o assunto, apresentada como se tivesse ido ao ar no domingo anterior.

Não contentes, os falsários inventaram uma entrevista em meu nome, usando as cores e o layout do meu portal.

Entrei em contato com os advogados para ir atrás dos picaretas, providência também tomada pelo departamento jurídico da TV Globo.

Essas medidas não evitaram que centenas, ou talvez milhares, de incautos tenham adquirido o famigerado produto. Amigos e pacientes me ligaram para saber se era verdade, as redes sociais do portal ficaram congestionadas com comentários, a Sociedade Brasileira de Reumatologia entrou em contato conosco para checar a veracidade da alegada autoria.

É incrível a que ponto nos levou a internet – um médico conhecido por suas aparições em programas educativos precisa pagar advogados para se defender de meliantes impunes que utilizam sua imagem para explorar a credulidade alheia. Na verdade, o Facebook e o Instagram são coautores irresponsáveis dessas propagandas criminosas.

De minha parte, fico muito revoltado. Indicar um produto que dizem conter colágeno, para aliviar dores reumáticas? O dia em que eu receitar colágeno – mesmo de boa procedência – para dores articulares, espero que meus colegas façam a gentileza de me encaminhar para um neurologista. Tumor no lobo frontal será a primeira hipótese.

Fico bobo de ver como as pessoas continuam crédulas em pleno século 21. Basta lerem a primeira asneira a respeito de algo que se diz “alternativo” para acreditarem piamente e fazer de tudo para convencer os amigos a experimentá-lo. O argumento é que se não fizerem bem, mal não farão, porque são produtos “naturais”. Dizem-no com ar de superioridade cognitiva, como se veneno de cascavel, estricnina e cocaína não o fossem.

Anos atrás, fizemos uma série no Fantástico sobre os perigos do consumo de chás preparados com ervas, tema escolhido porque mais da metade dos transplantes de fígado indicados por toxicidade de droga, no Brasil, são provocados por essas infusões “naturais”, não pelos medicamentos alopáticos.

A série gerou um festival de reclamações e xingamentos que atingiram até minha genitora. Houve manifestação na frente do prédio de uma das repetidoras da Globo, no Maranhão.

Quando contraindicamos os assim chamados tratamentos alternativos para os pacientes que nos consultam, a crítica que recebemos é a de que “os médicos não acreditam em nada”. De fato, os bons médicos não foram formados para acreditar, mas para adotar condutas baseadas em evidências científicas. Crença é domínio do pensamento religioso.

Os criminosos sem escrúpulos que usam meu nome para enganar gente ingênua, bem como os que vierem a fazê-lo, precisam ser punidos, não apenas pela apropriação indébita, mas por pôr em risco a saúde das pessoas.

Caro leitor, se você caiu na armadilha de adquirir esse produto, nem se dê ao trabalho de cancelar a compra. O site dos vigaristas não aceita devolução. Jogue essa porcaria no lixo. Não vá tomar as cápsulas, sabe-se lá que merda puseram dentro.

*Médico e escritor. Colunista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 01/09/2019.
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