*Maria Hermínia Tavares

A gestão da pandemia tornou a crise crônica; uma agonia que será prolongada.

No domingo (23), depois de desfilar com um séquito de motoqueiros pela zona sul do Rio de Janeiro, o presidente declarou a uma aglomeração de adoradores que “estamos no final de uma pandemia, se Deus quiser”.

No dia seguinte e no mesmo tom, o ministro Paulo Guedes discorreu nesta Folha sobre a recuperação da economia brasileira, que “surpreenderá o mundo”. Falou também de seus planos para este ano, repetindo velhos objetivos que não saíram do papel: reforma administrativa, reforma tributária e privatizações.

Acenou também com nova versão do Bolsa Família, financiada mediante a venda de estatais —o que, para variar, ainda está por ocorrer. Para o clarividente doutor, a pandemia parece que já se aproxima do fim e seu legado trágico não requer atenção especial.

Bolsonaro faz passeio de moto no Rio e gera aglomeração

Cariocas assistem a manifestação de apoiadores de Bolsonaro na praia de Lucas Landau/Reuters.

Jair Bolsonaro discursa em carro de som ao lado do ex-ministro Eduardo Pazuello em manifestação de apoiadores do governo no Rio de Janeiro Andre Borges/AFP

Motoqueiros acompanham Bolsonaro em passeio na praia de Copacabana na manhã deste domingo Carl de Souza/AFP

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) acena para apoiadores enquanto passa de moto por via no Rio de Janeiro neste domingo (23) Pilar Olivares/Reuters

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro aguardam sua passagem de moto no Rio de Janeiro neste domingo (23) Pilar Olivares/Reuters

Nada mais fantasioso. Como observou dias atrás o economista Ricardo Paes de Barros (Insper-SP) ao jornal Valor, a gestão da pandemia tornou a crise crônica; uma agonia da qual só se sabe que será prolongada.

Sem coordenação nacional, com o combate ao vírus descentralizado nos governos subnacionais, além de sabotado pelo Planalto e o Ministério da Saúde, chegou-se a uma perversa estabilidade. Na melhor das hipóteses, a taxa de transmissão da Covid segue há muito tempo em torno de 1 -ou seja, em média uma pessoa repassa o vírus para outra- sem redução significativa que permita de fato a volta à normalidade imaginada pelo ex-capitão e seu ministro. Emenda-se uma onda na seguinte e assim sucessivamente com tantas quantas se formarem.

A continuidade da epidemia em patamar alto não cobra apenas a exorbitância das mortes evitáveis -como se já não fosse pouco. Agrava desigualdades de todo tipo, pois a capacidade de adaptação às novas circunstâncias varia na proporção direta da renda, do local de residência, do tipo de atividade e mesmo da cor da pele. Algumas brechas ampliadas na pandemia -como vem ocorrendo com o ensino básico- terão efeitos a perder de vista e difícil reparação.

Desastres sociais deste porte costumam abrir espaço para lideranças políticas prontas a explorar o mal-estar difuso para concentrar poder pessoal. É o caso de alguns dos populismos contemporâneos. Não está claro que será esse o destino do país. Ao populista do Planalto faltam interesse pelos assuntos de governo e discernimento para escolher colaboradores com sentido de realidade. Até o mais vocacionado dos autocratas precisa fazer mais do que promover desfiles de motos aos domingos, aglomerar fanáticos, tuitar contra seus inimigos e esperar que Deus o ajude a acabar com a pandemia.

*Professora e pesquisadora. Matéria na Folha de São Paulo. Caderno Opinião, de 27/05/2021.
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