Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Nascimento do explorador que foi referência de Darwin completa 250 anos.

Ele foi “o maior e mais formidável de todos os homens desde o Dilúvio”, declarou o rei da Prússia, Frederico Guilherme 4º, a quem serviu durante décadas. Quando as notícias de sua morte cruzaram o Atlântico e chegaram aos EUA, jornais do país declararam que o século 19 tinha sido “a era de Humboldt”. Por que diabos, então, quase ninguém mais recorda a carreira extraordinária do naturalista Alexander von Humboldt (1769-1859)?

Talvez porque, 250 anos após o nascimento do pesquisador, a maneira peculiar que Humboldt tinha de imaginar o mundo natural tenha se tornado uma espécie de senso comum científico, difundindo-se por muitas disciplinas.

Se muita gente hoje enxerga instintivamente a Terra como um sistema dinâmico de conexões entre atmosfera, águas, rochas e biodiversidade, isso se deve, em larga medida, ao incansável viajante nascido nas vizinhanças de Berlim.

Por outro lado, os “filhos” intelectuais de Humboldt absorveram e ampliaram de tal modo o legado de seu “pai” científico que acabaram por eclipsá-lo. O exemplo mais famoso dessa vasta descendência de naturalistas é Charles Darwin (1809-1882) – até seu estilo de escrita foi inspirado no do alemão.

Apesar de ter sido aclamado pelo público ainda na juventude, Humboldt precisou bancar o rebelde – e dependeu também de uma mistura de tragédias familiares e sorte – para iniciar sua carreira de explorador global. Membro da nobreza prussiana, ele estava destinado a uma carreira no serviço público do reino, então o Estado dominante entre as diferentes nações de língua alemã da Europa.

Quem o empurrava para essa vida de burocrata era principalmente sua mãe, Maria Elisabeth, uma figura fria e distante que se encarregara da educação dos filhos após a morte do marido, Alexander Georg.

Ele estava tentando saciar sua paixão precoce pela geologia trabalhando como inspetor de mineração quando, em 1796, Maria Elisabeth morreu, deixando para Alexander e para seu único irmão, Wilhelm, uma herança considerável. Enquanto Wilhelm seguiu a carreira de diplomata, Alexander se pôs a gastar o patrimônio da família com planos grandiosos de uma expedição aos trópicos.

Encontrar o destino certo deu algum trabalho – era o momento das Guerras Napoleônicas, um dos primeiros conflitos globais da história -, mas Humboldt enfim conseguiu permissão do governo espanhol para visitar suas colônias sul-americanas, desembarcando na Venezuela em julho de 1799.

Era o começo de jornadas que o transformariam no primeiro explorador-celebridade da Amazônia (infelizmente, sem chegar ao que acabaria sendo o lado brasileiro da floresta) e dos Andes, e que o conduziriam ainda a todas as demais regiões das Américas e até à Sibéria ao longo das décadas.

Infatigáveis, Humboldt e seu colaborador francês Aimé Bonpland coletavam espécimes da flora e da fauna, conversavam com colonos e indígenas, mediam obsessivamente a pressão atmosférica e outros parâmetros ambientais, analisavam rochas e o solo, coletavam manuscritos pré-colombianos. Numa época em que as fronteiras entre as diferentes disciplinas científicas estavam começando a se solidificar, o aventureiro prussiano desejava produzir uma síntese de todos os conhecimentos humanos sobre a Terra e o Universo.

Foi dessa ambição que surgiu o conceito de “Naturgemälde” (algo como “pintura da natureza”), retratado pela primeira vez num dos desenhos do vulcão Chimborazo, no atual Equador, que Humboldt chegou perto de escalar até o topo.

Pela primeira vez alguém mostrava com clareza como cada faixa de altitude em regiões montanhosas é um microcosmo de climas e biodiversidade, que pode ir da floresta equatorial ao polar em poucos milhares de metros de subida.

Do microscomo da “Naturgemälde”, Humboldt acabou partindo para o Cosmos como um todo – aliás, “Kosmos”, título dado à sua obra magna, publicada nos seus anos de velhice em quatro volumes (mais um quinto póstumo). O subtítulo diz tudo: “Um rascunho de uma descrição física do Universo”.

Não é por acaso que o maior divulgador científico do século 20, o astrônomo americano Carl Sagan (1934-1996), tenha tomado de empréstimo o título “Cosmos” para sua série de TV. Na obra original e em suas outras publicações, Humboldt tinha o cuidado de adotar uma linguagem viva, evocativa e poética, que conquistou admiradores como Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), o maior nome da literatura alemã da época, e virou best-seller entre o público em geral.

Darwin chegou a ser ridicularizado pela irmã por adotar as “descrições floreadas e afrancesadas de Humboldt” nos relatos sobre sua viagem científica pelo mundo a bordo do navio Beagle, nos anos 1830. A narrativa da viagem de Darwin, aliás, chegou às mãos do sábio alemão, que a comentou ponto por ponto numa carta elogiosa ao então jovem britânico.

As origens aristocráticas, ademais, não impediram o naturalista de se tornar um defensor ferrenho dos ideais da Revolução Francesa. Suas longas conversas com Simón Bolívar inflamaram ainda mais o desejo que o sul-americano tinha de buscar a independência da Coroa espanhola.

Entusiasta da nascente experiência democrática dos EUA, Humboldt não se furtava a criticar o sistema escravista e a perseguição aos indígenas em solo americano. Para ele, a harmonia da “Naturgemälde” também tinha uma dimensão política.

Da Amazônia a Napoleão, as aventuras de Humboldt

Explorador incansável, alemão virou ídolo de outros cientistas

As Descobertas

Humboldt pode ser considerado o criador da ciência da ecologia antes mesmo que o termo fosse cunhado, desvendando as interações entre o meio físico e os seres vivos, como a que existe entre o clima e a biodiversidade

Conceito das zonas climáticas e de vegetação na Terra, cunhado por ele:

Relação entre zonas de vegetação e altitude no vulcão Chimborazo, nos Andes:

Thomas Jefferson (1743-1826)

Além de ajudar a fundar os EUA e se tornar presidente do jovem país, Jefferson tinha interesse insaciável por todas as ciências e passou semanas discutindo o tema com Humboldt em Washington

Simón Bolívar (1783-1830)

Ainda um jovem galanteador nascido nas colônias espanholas da América do Sul, ele conheceu Humboldt em Paris e debateu com ele os ideais de liberdade da Revolução Francesa antes de se tornar revolucionário

Napoleão Bonaparte (1769-1821)

O imperador da França teve um ataque de ciumeira diante da atenção que Humboldt recebia do público parisiense – em parte porque os livros do prussiano competiam com a obra que ele escrevera sobre sua invasão do Egito

Charles Darwin (1809-1882) O pai da teoria da evolução resolveu se tornar naturalista, em grande parte, por causa da admiração que tinha por Humboldt. Ficou decepcionado porque o alemão falava demais e ele não conseguiu conversar direito com ele quando se encontraram em Londres

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 05/05/2019.
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