Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

Sabemos das práticas do finado Estado Islâmico de decepar, de verdade.

O livro de Steven Pinker “Os Bons Anjos da nossa Natureza” (Cia das Letras) sempre me pareceu equivocado em alguma medida. Talvez, excessivamente otimista. A ideia de que a humanidade se tornou menos violenta me parece uma afirmação de fôlego curto.

Cedemos facilmente ao vício contemporâneo de assumir que a história da espécie e seus comportamentos datam do lançamento do primeiro iPhone. Esse pecado é comum na própria inteligência pública. E por uma razão muito simples: a velha praga do hegelianismo latente a serviço do nosso narcisismo contemporâneo.

Não acredito que os instintos violentos da natureza humana tenham desaparecido. Deixemos de lado a indignação dos inteligentinhos com essa expressão “natureza humana”. Esses instintos estão apenas gourmetizados. A opção intelectual por crer no progresso da natureza humana é uma lástima para a inteligência pública.

Esta Folha publicou uma matéria no último dia 25 de setembro sobre uma intervenção estética em que um coletivo de arte joga futebol com cabeças de líderes populistas como Trump, Putin e Bolsonaro. Pelo que parece, ao final, a cabeça do Bolsonaro é lançada para um cachorro mordê-la. Pelo que parece, essas cabeças cortadas (de brinquedo) são apenas cabeças de homens maus. E o público poderia gozar com o espetáculo em que esses homens maus são objeto de ridículo e humilhação estética.

Sabemos das práticas do finado Estado Islâmico de cortar cabeças -de verdade- de suas vítimas. Nosso imaginário tem lendas e histórias, de homens, em suas viagens as terras desconhecidas, jogando futebol com cabeças humanas de verdade. Sabemos do gozo dos antigos com as lutas de gladiadores como programa de fim de semana.

Mas estamos na era de uma humanidade mais humana, não é? Fazer espetáculos agora com cabeças de inimigos (ainda que de brinquedo) é considerado arte. Quero dar uma ideia à moçada afeita a intervenções de ativismo estético.

Na Antiguidade e na Idade Média era comum pendurar uma pessoa, homens e mulheres, e abrir seu ventre para que as vísceras caíssem e a vítima sangrasse e gemesse até morrer. Por que não ampliar a arte das cabeças cortadas de homens maus e fazer corpos desses homens maus (estou certo que a igualdade de gênero encontrará mulheres más que merecem a mesma homenagem) e pendurá-los e abrir seus ventres e deixar suas vísceras de silicone ficarem penduradas “sangrando”?

A trilha sonora poderia imitar as vozes dessas pessoas más berrando de dor e pedindo clemência. Estou certo que seria uma catarse enorme para as pessoas bacanas da plateia.

Intriga-me como os artistas ainda não tiveram essa ideia. O universo é o limite. Poderíamos mesmo despedaçar corpos de pessoas más (de brinquedo, claro!) e espetar seus pedaços pelos postes da avenida Paulista ou Faria Lima. Acho que a lista de candidatos a bonecos cresceria bastante.

Imagens do projeto ‘Freedom Kick’

Partida de futebol com molde da cabeça de Donald Trump, projeto do coletivo Indecline com o artista espanhol Eugenio Merino, jogada no muro fronteiriço entre Tijuana, no México, e San Diego, nos EUA Jason Goodrich / Indecline

Partida de futebol com molde da cabeça de Donald Trump, projeto do coletivo Indecline com o artista espanhol Eugenio Merino, jogada no muro fronteiriço entre Tijuana, no México, e San Diego, nos EUA Jason Goodrich / Indecline

Estou certo de que galerias de arte pagariam milhões de dólares para ter uma dessas peças assinadas por artistas renomados, e teses de doutorado, e artigos de jornais, comemorariam essa releitura pós-moderna das sessões de ódio público do bem.

Uma variação poderia ser fazer bonecos dessas pessoas más e jogar para cães despedaçarem enquanto pessoas de bom coração iriam à loucura de gozo em ver os maus sendo punidos. Claro que bonecos de material orgânico saudável para os cães.

Imagino esses artistas e coletivos sendo entrevistados, em segredo, por jornalistas encantados, querendo entender o processo criativo e o horror que eles enfrentam com ameaças de morte nas redes.

Mas há algo que exige cuidado aqui. Há um risco grave nessa intervenção estética.

Com o ambiente de polarização que o mundo e o Brasil vivem, imagine você, meu caro leitor, se um dia de manhã ao ir para o trabalho você visse, espetadas nos postes da praça da República, da Paulista ou da marginal Pinheiros cabeças de bonecos do Lula, do Obama, ou de alguma santa mártir da esquerda.

Seria isso uma ameaça à democracia? Ou vamos votar nas redes sobre quem merece ter a cabeça cortada previamente?

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 12/10/2020.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui