Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

Tudo pela saúde, nada pela delícia; o ano de 2020 teve gosto de pânico.

Dizemos em filosofia que alguém defende a vida estética quando você pergunta para essa pessoa qual é o sentido da vida e ela responde que é o gosto. Estética em filosofia não é só a filosofia da arte, mas, sim, a filosofia que se dedica às sensações, derivada da palavra “aesthesis”, do grego, que significa sensação.

Portanto, defender uma vida estética é defender que o sentido da vida seja o gosto dela.

Antes, um reparo fundamental: não confunda essa ideia com aquela moda brega de buscar “experiências” -e que faz alguém tocar piano pendurado por um guindaste sobre um vulcão só para ricos entediados assistirem e vivenciarem.

O mundo nunca foi tão pouco estético. A estética atualmente é a do chuchu. Retomarei essa questão adiante.

Voltemos ao que interessa. O sentido da vida como gosto implica tanto o gosto bom quanto o ruim. Sensações fortes vão pra ambos os lados.

Mesmos ideias clássicas nesse âmbito, como por exemplo o amor às mulheres, ao sexo, às aventuras e ao tabaco, carregam sinais ambivalentes em si. Quem nunca sofreu por amor? Só os infelizes. E essas sensações podem matar.

Um exemplo na literatura do século 20 que trata muito bem do que seria uma vida estética é o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante, morto em 2005. Em obras como “Cuerpos Divinos” e “Mapa Dibujado por un Espía”, ambas publicadas pela editora Galaxia Gutenberg, de Barcelona, em 2010 e 2013, respectivamente, as mulheres estão sempre no centro da ação, moldando o cotidiano e o imaginário do autor e da narrativa.

Conhecido por ter tido uma vida cercada por paixões por diversas mulheres e por ser um aficionado pelo sexo frágil, não sei como ainda não o acusaram de masculinidade tóxica, esse conceito idiota que inventaram para falar mal de homem que gosta de mulher raiz. Talvez por ele ser cubano?

A mulher como agente da vida estética de um homem não implica só o gozo sexual, como os pobres de espírito pensam. Está relacionada a tudo que a paixão, o medo, o desejo, o desespero, a traição, a obsessão, enfim, os riscos que as paixões trazem para vida cotidiana.

Por isso que o sentimento pelas mulheres, quando descrita pela ótica masculina, sempre foi um exemplo claro do que significa a vida estética -paixões alegres e tristes.

A imagem do corpo da mulher molhado, suado, sujo, lavado, cheio de cheiros e gostos é recorrente nos textos escritos por Cabrera Infante.

Em meio às aventuras da Revolução Cubana ou da noite de Havana, as mulheres sempre estão no centro da vida.

Os pobres de espírito pensam que ser um aficionado pelo sexo frágil significa apenas um gosto pelo corpo da mulher.

Não.

Como bem dizia o escritor Karl Kraus, “certamente não é só o exterior de uma mulher que interessa, a lingerie também é fundamental”.

O tirar apressada das roupas, os tropeços nas saias, o pudor em meio ao orgasmo, as personalidades dessas mulheres -as bravas, as doces, as tristes, as vadias.

Um apreciador tende a ter um gosto inclusivo.

O tabaco também é um objeto de prazer e de sofrimento.

Cabrera Infante escreveu “Fumaça Pura”, lançado pela editora Bertrand Brasil, com uma primeira edição em 1985, dedicado ao tabaco. Um cubano legítimo não poderia não apreciar um bom charuto.

Talvez não.

Depois que conheci gaúchas veganas, estou perdendo a fé na humanidade.

O gosto pelo charuto ou pelo cachimbo, infinitamente melhores do que o cigarro, “esse produto para a massa”, é um certo domínio sobre o tempo. Ser dono do seu tempo é uma das maiores qualidades de uma vida de qualidade.

O gosto do tabaco, assim como o gosto de uma mulher na boca, dá mais sentido à vida do que mil formas de metafísica, já pensava o escritor franco-argelino Albert Camus.

Mas, como dizia acima neste texto, os tempos de hoje não são dados à vida estética. Ser um homem que gosta de mulheres raiz seguramente tirará o seu lugar de fala.

Experimente querer gravar um vídeo de si mesmo fumando um charuto ou um cachimbo para ver a produtora entrar em pânico com a cena.

Tudo pela saúde, nada pela delícia. O ano de 2020 teve gosto de pânico.

Espero que este seja um ano com sabor de mulher e de tabaco cubano na boca.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 04/01/2021.

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