É preciso meditar sobre a contrapartida federal de infraestrutura de transportes, para os generosos recursos da ZFM – 54,42% da riqueza aqui produzida, segundo a USP. De 1995 a 2002, na gestão FHC o investimento em logística foi a BR-174, ligando Manaus à Boa Vista, sem acostamento, em direção ao Caribe. De 2003 a 2010, Lula inaugurou um armazém de cargas no aeroporto de Manaus. Mesmo com a nova Lei dos Portos e com o pacote logístico que o precedeu, à parte uma ponte que, junto com um estádio consumiram robustos investimentos, é latente e contundente a sensação do abandono para a infraestrutura logística local

O Brasil segue na última colocação em estrutura rodoviária, ferroviária, quilometragem de dutos e, a despeito da imensidade dos rios amazônicos, o item hidrovias é uma tragédia. A Bélgica, com um portfolio de 700 anos em navegação fluvial, balizamento, estabilização e recuperação de hidrovias, tem cutucado o Brasil para nossa vocação logística florestal/fluvial, a cabotagem. Nunca é demais recordar que, além da descoberta do processo de vulcanização que permitiu industrializar o látex, a navegação de cabotagem, infraestrutura coerente com a vocação logística da economia regional, viabilizou o Ciclo da Borracha há 100 anos. Os ingleses investiram pesado na construção de barcos e portos, para agregar 60% de crescimento na própria economia na virada do século XIX, e na modernização agrícola de cultivo da seringueira.

O exportador brasileiro gasta em torno de US$ 125 para levar uma tonelada de soja de Mato Grosso ao Porto de Santos, enquanto o concorrente americano paga US$ 25 para o transporte entre Illinois e Nova Orleans. O agronegócio do Mato Grosso investe pesado para assegurar as rotas de exportação de grãos a partir da Amazônia. No modal rodoviário, são 4 milhões/km de rodovias asfaltadas nos EUA, 1,5 milhão na China e 196 mil no Brasil, no modal ferroviário EUA despontam com 226 mil quilômetros, Os chineses, com 74 mil, e os canadenses, com 48 mil, e comparou-as com as brasileiras, com apenas 29 mil. O contraste é mais espantoso, quando se trata do transporte hidroviário. Apesar de sua invejável malha fluvial, o Brasil tem apenas 7 mil quilômetros de hidrovias, enquanto os Estados Unidos têm 41 mil, a China, 124 mil, e a Rússia, 102 mil. O balizamento do Rio Madeira, uma promessa de investimento que já está prestes a completar duas décadas, continua debaixo d’água.

O dramaturgo Samuel Becket, um dos autores do Teatro do Absurdo,  escreveu, ainda sob os escombros da II Guerra, em 1949, a peça Esperando Godot, onde, num cenário simples de uma estrada, árvore, à noite, Estragon e Vladimir esperam um sujeito de nome Godot. Nada é esclarecido a respeito de quem é Godot ou o que eles desejam dele. Em meio a um longo diálogo, surge Pozzo e Lucky e este carrega uma pesada mala que não larga um só instante. No segundo ato, o cenário é o mesmo, Estragon e Vladimir iniciam sua jornada na espera de Godot. Surgem novamente Pozzo e Lucky. Pozzo está cego e Lucky surdo. Após a partida destes, aparece novamente um garoto anunciando novamente: “Godot não virá, talvez amanhã.” O diálogo final, que encerra o ato e a peça é o seguinte: Vladimir: “Então, devemos partir?” Estragon: “Sim, vamos!”. E eles não se movem. Qualquer coincidência com a dinâmica do conformismo ou negligencia logística é dramática sucumbência.

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Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo e ensaísta. Consultor do Centro da Indústria do Estado do Amazonas - CIEAM.

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