Na Amazônia, até quase meados do século XIX, a língua portuguesa não era hegemônica. Quase todo mundo falava um idioma indígena materno e o nheengatu, a boa língua. Em muitas câmaras de vereadores o trabalho de secretariar as sessões e redigir as atas era confiado a índios alfabetizados nas missões católicas, já que os senhores vereadores não sabiam ler ou escrever. Em 1827, há apenas três escolas na Província do Amazonas, sendo uma na Barra (Manaus), outra em Barcelos e outra em Moura. Em 1800, uma escola de primeiras letras havia sido criada em Barcelos (então sede da capitania). Mesmo levando em consideração as diversas mudanças, o currículo escolar era limitado, determinado pelo poder político, que também nomeava o professor e proibia a iniciativa dos particulares. O currículo abrangia as primeiras letras, a educação física e moral, caligrafia, doutrina cristã, numeração e primeiras regras aritméticas, estudo de gramática, noções de geometria aplicada às artes, história natural, história sagrada, história do Brasil e geografia. Para as escolas femininas, estava acrescido o currículo com a matéria de prendas domésticas. Uma escola melancólica para formar dóceis súditos, nunca uma elite pensante e criativa. O poeta Gonçalves Dias, enviado ao Norte, em 1853, pelo Império, como membro da Comissão Científica de Exploração, visitou diversas escolas e incluiu em seu relatório de viagem um capítulo sobre a educação no Amazonas, registrou a pouca frequência às aulas e o fenômeno da rejeição da língua portuguesa por uma população de fala nheengatu, usada “em casa e nas ruas e em toda parte”. Os poucos que tinham recursos para frequentar uma escola ou uma universidade no sul do país ou no exterior, voltavam tão desligados da vida pacata que não conseguiam mais compreender sua terra natal. Foi este relatório que desencadeou um programa educacional sem precedentes para o norte do império, provavelmente o único programa de grande extensão e investimento realizado pelo regime de Pedro ” na área educacional. O resultado foi o surgimento de intelectuais e escritores nativos da região, que contribuíram para formar um pensamento e pela primeira vez interpretaram aquela realidade unindo a vivência e a erudição. A base educacional montada no século XIX, legou ao Brasil escritores como Inglês de Sousa e José Veríssimo. Outro resultado impressionante foi a formação de um intenso e curioso mercado livreiro que funcionava não apenas através das dezenas de livrarias e editoras estabelecidas em Belém e Manaus, mas também pelos sistema postal. O levantamento desde mercado ainda está para ser feito, mas já se sabe que nesta época que se formaram as primeiras bibliotecas privadas da região, algumas com milhares de títulos. Tive a sorte de ter acesso a algumas dessas bibliotecas particulares, como a de minha avó, Marcionila Senna, que depois foi desmembrada entre os filhos.

Conheci a biblioteca do Dr. André Araújo, a biblioteca do professor Mário Ypiranga Monteiro, e a biblioteca de professor Artur César Ferreira Reis. Tanto a biblioteca de minha avó, a menor de todas, com apenas oitocentos títulos, como as maiores, como 3 do professor Artur Reis, com dez mil títulos, possuíam acervos em três idiomas: português, inglês e francês. A biblioteca de minha avó havia apenas um título em inglês, mas ela era fluente em francês e por isso li Shakespeare pela primeira vez em traduções francesas de sua biblioteca. Alguns autores não podiam faltar nestas bibliotecas, como Coelho Neto, Machado de Assis, Shakespeare, Goethe e Anatole France. A existência deste mercado de livros importados é uma prova que uma única geração foi suficiente para a escola implantada pelo império gerar massa crítica suficiente para gerar um mercado de livros e o surgimento de escritores de grande categoria.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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