claudio bernardes
*Claudio Bernardes

Situações sanitárias extremas podem induzir mudanças no processo de urbanização.

No momento em que situações dramáticas ameaçam a saúde dos habitantes das cidades, deixando-os, por essa razão, praticamente impedidos de se movimentar pelos espaços urbanos, parece interessante refletir sobre a fragilidade do espaço territorial em situações epidêmicas. A interseção entre planejamento urbano e saúde pública passa a ser uma questão extremamente relevante.

É fato que situações sanitárias extremas podem induzir mudanças no processo de urbanização. Ao longo do século 19 e início do século 20, cidades como Londres, Nova York e Paris foram densamente povoadas, em tecidos urbanos caracterizados por residências próximas a fábricas, matadouros, cortiços e outras instalações sanitariamente inadequadas, com pouco fluxo de ar e luz. Como consequência, ondas de tuberculose, cólera e febre tifoide varreram essas cidades causando a morte de porções significativas da população. A gripe espanhola, por exemplo, infectou 500 milhões, quase 30% da população mundial na época, e matou cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo.

Coronavírus esvazia cidades e fecha fronteiras pelo mundo

Bombeiros iranianos desinfetam as ruas da capital Teerã, na tentativa de barrar a propagação do novo coronavírus pelo país AFP

Crianças recebem instruções de como lavar as mãos em frente ao hospital Mbagathi, em Nairóbi, no Quênia Luis Tato/AFP

Polícia usa máscaras em parada na cidade de Colombo, Sri Lanka Lakruwan Wanniarachchi/AFP

Funcionários do município de Bat Yam, na costa Israel, desinfetam parquinho para crianças Jack Guez/AFP

Em função dessas ocorrências epidêmicas, foram propostos novos modelos de zoneamento, segregando usos residenciais, comerciais e industriais, além de regulamentos construtivos para melhorar as condições de superlotação e salubridade. Contudo, os esforços para controlar doenças infecciosas por meio do ambiente construído pode ter contribuído para agravar doenças crônicas no século 21. A separação dos usos por meio de zoneamento, juntamente ao advento do automóvel, cem anos depois, induziu a construção de ambientes urbanos que desencorajam a caminhada e promovem deslocamentos com transporte individual motorizado. Isso pode ter ajudado a produzir uma ambiência urbana inadequada e uma população fisicamente inativa, com taxas crescentes de obesidade e enfermidades crônicas relacionadas, como diabetes, câncer, doenças coronárias e pulmonares.

Dessa forma, fica a questão: como modelos urbanísticos tão impulsionados atualmente em função do intenso processo de urbanização – adensamento, interação social, mobilidade por meio de transportes de massa e espaços públicos vibrantes – coadunam-se com uma situação epidemiológica como a que atravessamos nos dias de hoje?

A mistura de usos e o adensamento desestruturado, ou estruturado de forma inadequada e insalubre, foram, no passado, grandes responsáveis pela disseminação de doenças. Nos dias de hoje, ao contrário, se implementados de forma equilibrada e racional podem ser grandes aliados na contenção do processo de disseminação das doenças. Em princípio, vizinhanças mais adensadas, com abundância de usos mistos, aumentam as possibilidades de as pessoas terem que se deslocar menos.

Assim, em momentos de epidemia, terão menos contato com outras pessoas para desempenhar as atividades diárias minimamente necessárias. A contaminação entre as pessoas está muito ligada àa proximidade de umas com as outras. Durante o auge do surto de gripe suína, de 2010, pesquisadores da Universidade de Stanford usaram sensores sem fio para determinar a frequência com que 788 pessoas, em uma faculdade, ficavam a três metros umas das outras, distância em que as infecções podem se espalhar por meio de espirros e tosse. Os pesquisadores descobriram que, em apenas um dia, houve 762.868 casos de contato passível de transmissão.

A mobilidade urbana eficaz, eficiente e sustentável, calcada em transportes de massa, embora de importância crucial para o funcionamento das cidades modernas, no caso de uma epidemia, pode ajudar a amplificar a propagação da doença. Portanto, embora o planejamento não possa imaginar a cidade em estado epidemiológico como uma situação natural, deve construir modelos comportamentais que simulem a disseminação de doenças, considerando possíveis localizações geográficas e sua conectividade com o resto da cidade, estruturando soluções e um sistema territorial que, em casos extremos, possam minimizar danos e perdas para o funcionamento da cidade e sua economia.

*Engenheiro Civil. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 30/03/2020.
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