Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

Só ignorantes pensam que presidente é um conservador, como Trump tampouco é.

Num dado momento do filme “Alien vs. Predador”, de 2004, a narrativa tem que fazer uma escolha entre os dois vilões. E escolhe o Predador, que pelo menos tem forma mais próxima daquela humana e demonstra uma mínima capacidade de empatia.

Num cenário de horror eleitoral em 2022, Bolsonaro é o Alien e Lula é o Predador. Numa eventual disputa no segundo turno em 2022 entre Bolsonaro e Lula, a sensibilidade conservadora indica que o Lula seria a opção menos ruim. Muitos subirão pelas paredes. Se isso acontecer com você é porque você é simplesmente ignorante acerca do assunto.

Antes de tudo, deixemos claro que especulamos aqui sobre um cenário de horror eleitoral. A melhor opção seria o impeachment de Bolsonaro já. Se tivéssemos alguma opção viável melhor do que o cenário “Alien vs. Predador”, a conversa seria outra. Os dois são péssimos.

A tradição conservadora britânica, representada por nomes como Edmund Burke, no século 18, Michael Oakeshott e Russel Kirk, no século 20, e Thomas Sowell e John Kekes, vivos, entre outros, exige de quem queira se aproximar da disciplina, maturidade e muita leitura.

A descrição da sensibilidade conservadora, ou disposição, ou espírito, ou ainda atitude, vem a seguir.

Um conservador é um cético, ao contrário do que pensa a ignorância que reina no debate nacional. Outra coisa: um conservador sempre avalia contextos específicos, eleições específicas, por isso muitos afirmam que não há ideologia conservadora propriamente dita.

A intenção é sempre o menor trauma possível analisado a partir dos dados mais empíricos possíveis. Política é trauma ou acomodação ao possível.

Mudanças só no varejo, nunca no atacado. Mudanças a partir de problemas concretos, nunca a partir de uma “visão de mundo” abstrata.

Um líder, quanto menos “visão de mundo” tiver, melhor. Governar é gerir um certo número de ferramentas para resolver um certo número de problemas, disse Oakeshott. A tradição conservadora é uma política da imperfeição, afirmou Kekes: nunca há utopias, nem líderes maravilhosos. O pessimismo antropológico dessa tradição recomenda, como diz o sábio, “menos, menos”.

A palavra “conservador” remete à ideia de que devemos levar a sério hábitos, costumes, tradições —religião é um caso entre tantos— e instituições que trouxeram o mundo até aqui, mesmo que ele seja imperfeito.

Jamais um conservador será um racionalista universalista. Sua vocação é um ceticismo político e um relativismo moral associados à ideia de que grande parte da nossa sobrevivência é difícil de se entender por qualquer forma de geometria ou engenharia social.

Por que Lula? Os governos Lula foram melhores até agora do que o de Bolsonaro está sendo. Provavelmente, ele teria gerido melhor a peste.

Claro, ambos são figuras duvidosas do ponto de vista ético, mas escolhas políticas são escolhas que vão além do que gostaríamos que o mundo fosse, como afirma Maquiavel.

Lula faz acordos melhor do que Bolsonaro. Tem uma tendência apaziguadora e é muito mais inteligente. Provavelmente aprendeu um tanto nesses anos e pode querer imitar Mandela: nada de vinganças. Bolsonaro é um zumbi. A praga petista foi seguida pelo apocalipse zumbi dos bolsonaristas comedores de cérebro. Patinamos até hoje

Eleições: empresários querem terceira via para 2022

Chieko Aoki, presidente da rede Blue Tree Hotels: “Temos um inimigo iminente [a pandemia]. E temos que concentrar esforços nisso. O sucesso ou não disso muda o cenário. Nesse momento minha preocupação é a vacinação para todos. Não tenho cabeça para outras questões” Mastrângelo Reino/Folhapress

Carlos Wizard Martins, fundador da Wizard: “Sempre defendo que devemos ter um governo cada vez mais liberal, deixar a iniciativa privada cuidar da economia e o governo regulamentar. É incoerência o governo ter 600 CNPJs. As estatais são deficitárias, não têm governança nem transparência” Jorge Araujo/Folhapress

Josué Gomes da Silva, presidente da Coteminas: “Até entendo a lembrança do meu nome [para vice em uma chapa de Lula] por conta do meu pai. Mas sou candidato a presidente da chapa única para as eleições da Fiesp. Meu projeto é ajudar a indústria nacional e a indústria paulista” Zanone Fraissat/Folhapress

Elie Horn, fundador da incorporadora e construtora Cyrela e criador do Instituto Liberta, que combate a exploração sexual de crianças e adolescentes: “O problema da saúde é muito grave e até hoje não se conseguiu acertar. Precisa de concentração para encontrar a solução, vidas estão em jogo. Não podemos esperar mais mortes pela frente” Eduardo Anizelli/Folhapress

Eu disse nesta coluna que Joe Biden, nas eleições para a presidência dos Estados Unidos, era a melhor opção para céticos conservadores. Digo agora que num cenário entre Bolsonaro e Lula em 2022, Lula é o menos ruim.

Outra coisa que seria bom ficar claro é que direita versus esquerda é uma oposição pobre para análise política.

Lula é de esquerda, mas Bolsonaro é que está tentando transformar o Exército em sua milícia, corrompendo a moral da tropa, dividindo as Forças Armadas, como Hugo Chávez fez na Venezuela.

O que busca essa atitude conservadora? Busca competência, menos violência, liberdade dentro da lei e consenso no dia a dia. Defesa das instituições e não de pessoas. Só ignorantes pensam que Bolsonaro é um conservador, como Trump tampouco é.

A nossa história recente aponta para Lula como o candidato conservador em 2022. O STF já sabe disso. As Forças Armadas também. Eu sei: a vida não é para iniciantes.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 04/04/2021.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui