“Ingressou na política partidária e, quase de supetão, viu-se em Palácio Rio Negro como interventor federal designado por Getúlio Vargas (…)” 

Assumi, comigo mesmo, o compromisso de honra de aprofundar estudos antigos que vinha fazendo sobre a vida e a obra de Álvaro Botelho Maia, misto de intelectual e político, levado inicialmente pelo entusiasmo de minha mãe e mestra, Sebastiana Braga, e, ao depois, porque ao lê-lo como poeta, romancista e ensaísta, dei conta de que ele era daqueles que, mesmo no auge das refregas políticas em que esteve envolvido – e foram muitas e por longos anos-,jamais abandonou a leitura, o estudo e a produção literária, nem reduziu a qualidade do fazer prazeroso de escrever. E quanto mais pesquiso, leio e recolho informações sobre minudências de sua trajetória, mais cresce em mim a admiração por diversos ângulos de sua vida amazônica, e, agora, pela projeção nacional que foi assumindo, gradativamente, sem excessos, em meio aos maiorais de seu tempo.

Essa motivação foi ampliada também por causa do ano centenário da Academia Amazonense de Letras durante o qual tenho dedicado esforços pessoais a visitar, ainda que à voo de pássaro, a produção intelectual dos fundadores da Casa de “Adriano Jorge”, a qual presido no período do faustoso acontecimento.

Não identifiquei, ainda, registros de sua produção literária quando estudante dos cursos elementares, possivelmente pelas bandas de Humaitá, mas sei que em 1904 já despontava como poeta, e dos bons, em meio aos colegas estudantes do Ginásio Amazonense e, desde então, seguidamente, foi ampliando as contribuições em jornais e revistas até consumar, anos mais tarde, uma série de livros de conteúdo encantador, seja pelo bom uso do idioma pátrio como pelas belas imagens que construiu, notadamente da floresta amazônica que conhecia desde o berço, e com a qual, vez por outra, se harmonizava em viagens ao seringal Goiabal, rincão de seu nascimento.

Elegante no ser, viver e conviver, voz em veludo, cabeleira ao vento e olhar doce, quase sempre posto em traje jaquetão conforme o modelo que atravessou décadas, foi um dos professores que obteve maior identicidade com os alunos do Ginásio e da Escola Normal, e, mesmo não tendo sido dos primeiros vinte e cinco instituidores da Academia de Letras, teve o nome imediatamente lembrado na primeira reunião daquele grupo original, no encontro histórico do salão de honra do jornal “Imparcial”, e deu-se à entidade com esmero, honrando-a sob todos os aspectos.

Porque desejou, e creio que desejou ardentemente posto que é possível verificar diversas atitudes do jovem professor, advogado e jornalista neste sentido, ingressou na política partidária e, quase de supetão, viu-se em Palácio Rio Negro como interventor federal designado por Getúlio Vargas. Seus verdes e audaciosos anos, entretanto, podem ter provocado a primeira crise política de sua carreira: o caso Eneida, ainda a ser estudado adequadamente por quem resolva se debruçar sobre importante episódio de defloramento ou falso defloramento na Manaus de antigamente. Mediu força com o sistema judiciário estabelecido, e saiu derrotado.

Pouco depois voltaria às graças do poderoso Vargas, se é que algum dia dele se afastou, e retemperado em energias e alguma experiência, retomou aos embates e cumpriu longo período de gestão administrativa e diversos mandatos parlamentares. Ouvi-lo em comícios, diziam meus pais e os mais velhos com quais convivi, como o saudoso amigo Paulo Pinto Nery, ouvi-lo nos palanques exigia contemplar o olhar da multidão que se concentrava nas ruas e praças diante do “Tuxaua” a conduzir as massas com o encantamento de suas ideias e da sua pregação cívica, inaugurada com a sua Canção de Fé e Esperança proferida no Teatro Amazonas em 1923, e que se transformou na mensagem mais importante por muito anos: o glebarismo.

Cognominado em concurso público de o “príncipe dos poetas amazonenses”, era poeta também na prosa bem composta, no improviso do discurso político, na recitação da tribuna acadêmica, e mesmo que devamos proclamá-lo, como devemos, romancista de referência, ensaísta deméritos, orador de brilho, creio que deve ser como poeta que as glórias imortais devem vesti-lo com mais fulgor. Na verdade, entre as letras e a política, Álvaro fortaleceu sua formação espiritualista com a qual suportou o apedrejamento das injustiças.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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