Entre a magistratura e as letras

Por onde andava, seja nos tempos da judicatura desde 1914 ou da política eleitoral, coletava dados e informações sobre os municípios do interior e ia publicando seus livros, importantes contribuições para a História do Amazonas.

Não foram poucos os antigos magistrados que, além de servirem à justiça e ao direito, deram vigorosa contribuição às letras e à literatura em nossa terra. Nos primórdios da Universidade livre de Manaus, pelos idos de 1909, foram eles os que mais contribuíram para o debate e a crítica literária em nossa cidade com forte atuação na vida social e política.

Era comum dizer-se que a Academia Amazonense de Letras era mais de desembargadores e juízes, do que de poetas. Padre Raimundo Nonato Pinheiro algumas tantas vezes andou alardeando essa verdade em seus muito bem escritos artigos de jornal, sem que isso representasse censura ou crítica. Apenas uma constatação.

Dentre vários deles que ocuparam poltronas azuis da Academia centenária estão o desembargador Manoel AnísioJobim, a quem sucedi na Casa de “Adriano Jorge”, pelos idos de 1981, assim como Mário Verçosa, OyamaItuassu, Paulo Jacob, André Araújo, Arthur Virgílio (o avô), Sá Peixoto, Sadoc Pereira, por exemplo.

Jobim carregava a honra de ser família tradicional. Foi juiz de direito em Coari, Manacapuru, Barcelos, Fonte Boa, do Júri Popular em Manaus, integrou a Corte de Apelação em 1937, estava na primeira composição do Tribunal Regional Eleitoral com Antero Rezende, Stanislau Affonso, Manoel Xavier Paes Barreto e Elviro Dantas, compôs a comissão que organizou o anteprojeto de lei de organização judiciaria daquela época e chegou ao mais alto grau da magistratura em 1943, substituindo a Manoel Carpinteiro Péres Jr., promovido por antiguidade.

Como vários outros membros do judiciário ingressou na política partidária sendo eleito senador da República para mandato que exerceu juntamente com Waldemar Pedrosa e Vivaldo Lima em 1953, como membro do PSD e presidente da comissão de divulgação e alistamento eleitoral de 1946, chegando a defender a candidatura de Ruy Araújo ao governo do Estado na época, e acabou sendo secretário geral do Estado em 1947, uma espécie de vice-governador amazonense. Por onde andava, seja nos tempos da judicatura desde 1914 ou da política eleitoral, coletava dados e informações sobre os municípios do interior e ia publicando seus livros, importantes contribuições para a História do Amazonas.

O registro mais conhecido de sua passagem pela justiça na atualidade é porque dá o nome à Penitenciária que deveria ter sido Penitenciária Agrícola, conforme a proposta original ao tempo do governo José Lindoso; mas o filho de dona Yayá e irmão de Vital Jobirn, deixou muitas obras publicadas e sentenças bem reconhecidas pelos méritos com que analisava as questões.

Escreveu em jornais e revistas, entre elas na “Victoria Régia”, de Francisco Benfica, na ” Revista de Educação”, de Júlio Uchoa, na Revista do Instituto Geográfico e Histórico, na Revista” Cabocla” de Genesino Braga e na Revista da Academia, mas de tudo que produziu o que mais se destacava eram os livros “Panoramas Amazônicos” dedicados a vários municípios do Estado como Manacapuru, Codajás e Tefé, a Introdução da História do Amazonas, e aquele em que retrata pensadores e intelectuais oferecendo pistas biográficas sobre a intelectualidade no extremo-norte.

Foi presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas ainda sentindo os abalos de ter sido afastado do cargo de professor da Faculdade de Direito do Amazonas por alegada e injusta acumulação de cargo, e quando todos pensavam que com a aposentadoria o velho juiz ia verdadeiramente vestir o pijama, aproveitar mais a familia, dedicar-se ao lazer pessoal, ele se reinscreveu na Ordem dos Advogados para retornar ao batente da vida jurídica. Afinal, essa era a sua vocação.

Ao falecer, em junho de 1971, deixando viúva dona Esther Vinhas Jobim e os filhos Nelson, Paulo e Ruth, mestre Anísio Jobim abria lacuna importante na vida literária e nas letras jurídicas amazonense.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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