*Djamila Ribeiro

Exposição da artista Grada Kilomba na Pinacoteca reinterpreta mitos gregos.

A recente visita de Grada Kilomba deixou uma profunda marca de luz no Brasil, onde participou de uma série de eventos, entrevistas e lançou uma exposição de arte na Pinacoteca, em São Paulo, tema de que tratarei neste artigo.

Feminista negra, a pensadora-artista-escritora teve seu livro “Memórias da Plantação – Episódios de Racismo Cotidiano” (248 págs., R$ 48, ed. Cobogó) como o mais vendido da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Postou-se por diversas vezes diante da plateia e a encantou com a transmissão de um conhecimento múltiplo, sensorial, ou, nas palavras dela, circular. Valho-me das palavras do babalorixá Rodney William quando ele descreveu aquelas pessoas cujo caminho é do orixá da paz e da criação para justamente pensar essa grande filha de Oxalá em palco: “tranquila fala, tranquila cala, mas ferve por dentro. Voz firme que não se altera, mas mostra toda sua autoridade na força do seu silêncio e na de seu olhar”.

Tive a honra de ser convidada por Grada e por JochenVolz, visionário diretor-geral da Pinacoteca, para participar de “Grada Kilomba: Desobediências Poéticas”, exposição da artista, em cartaz até 30 de setembro no museu. Pude contribuir na abertura de uma conversa e com o texto introdutório do catálogo da exposição, que pela primeira vez traz os escritos originais de Kilomba.

Já havia visto parte da exposição na Bienal de Berlim no ano passado e só pude me encantar mais. Kilomba traz a leitura dos mitos gregos de Narciso e Édipo sob um outro olhar, o olhar vindo de lugares cujas experiências foram silenciadas pelo colonialismo. Da releitura a partir do contar e do interpretar dos mitos gregos, a artista coloca em xeque o conceito de conhecimento, ao refutá-lo como geralmente é apresentado: de uma forma masculina e branca, representado por uma imagem fálica.

A pessoa se forma em algo, se especializa nesse algo, faz mestrado, doutorado sobre esse algo e assim por diante, colocando um bloco em cima do outro, formando a imagem. Em oposição a isso, a autora inova com a fluidez com que traz seu pensamento, entre a dança, a narração de histórias, a crítica textual, discursiva.

“O que fiz sempre foi uma outra forma de conhecimento que é transdisciplinar, que conecta muitos formatos e pensamentos diferentes, é uma coisa mais redonda, mais circular eu diria. É quando nós desobedecemos as disciplinas clássicas, criamos novas disciplinas e formatos. Isso é a descolonização do conhecimento”, afirmou a artista na abertura da exposição.

Quem for à Pinacoteca terá contato com a narração dos mitos e diversos olhares sobre eles. Narciso é um jovem caçador, amaldiçoado a amar a própria imagem. Quando olha seu rosto refletido no espelho d’água, ele se encanta e passa o tempo todo olhando, falando e querendo beijar-se.

Eco é apaixonada por Narciso, o segue, mas ela é uma ninfa amaldiçoada a repetir apenas as últimas palavras proferidas. Na história, tanto um quanto outra são metáforas interessantes para pensar o que tem sido o grupo social no poder e a reverberação da paixão pelos valores coloniais.

Nesta própria Folha, já trouxe em texto a tradição do pensamento de mulheres negras em olhar para as pessoas brancas a partir de Narciso. Cida Bento, em sua tese de doutoramento, trouxe o termo “pacto narcísico da branquitude” para descrever essa relação do grupo social no poder em se proteger, se aplaudir, se ver apenas.

Já a trágica história de Édipo começa com um pai que ouve do Oráculo que o filho recém-nascido vai matá-lo e irá se casar com a mãe. O pai se sente ameaçado e pede a execução da criança, mas Édipo é salvo, cresce e acaba por cumprir o destino: mata seu pai, sem saber quem era ele, e se casa com sua mãe, sem tampouco saber quem era ela.

Nesse mito, ainda há a esfinge (o retrato de Kilomba a representando ilustra a capa do catálogo da exposição), uma fera enviada pelos deuses para impedir que qualquer um adentrasse a cidade de Tebas. A criatura guardava a entrada do local com uma pergunta, e, caso a pessoa não soubesse respondê-la, era devorada.

Édipo consegue responder e entra na cidade, onde conhece a rainha. Kilomba trabalha com a figura da esfinge e a tríade da branquitude que não sabe, não precisa saber e não quer saber dos efeitos passados, presentes e futuros do colonialismo, ao passo que Édipo é aquela história que, por mais que nós corramos e finjamos que ela não existe, não podemos escapar dela, algo como a maldição do país colonial que continua medíocre enquanto celebra o pacto narcísico e ignora a própria história.

*Mestre em filosofia. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 19/07/2019.

 

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