fernanda torres
*Fernanda Torres

Atravesso a savana árida, procuro manter a calma que já não possuo, evito o charco, a queda e o jacaré

E eis que o mundo se transformou nesse imenso Titanic, com 7 bilhões de pessoas na fila, a espera de um bote salva vidas que talvez demore mais de ano para ser lançado ao mar.

Em março de 2020, enfrentei o isolamento com coragem e resignação, agora, só sobrou a resignação. E para aplacar o sentimento de que nasci em hora errada, passo e repasso as grandes crises da humanidade, aceitando que as catástrofes são mais regra do que exceção.

Assisti a um excelente documentário na CNN sobre a gripe espanhola. Nossos avós e bisavós encararam não só uma guerra, como uma epidemia de influenza disseminada por jovens soldados que conseguiram chegar vivos em casa.

Confesso, com certa vergonha, que a retrospectiva daquela desgraça toda me trouxe uma estranha sensação de consolo. Esse horror não é privilégio nosso.

As imagens em preto e branco exibem um paralelo perturbador com o agora. Negacionismo, máscaras penduradas no pescoço, aglomerações insanas e ondas sucessivas de contágio, cada vez mais violentas, também fizeram parte do menu macabro de 1918.

Quando, no início deste ano, a OMS oficializou a pandemia, meu clínico geral definiu a situação como a terceira guerra mundial com internet e algum conforto. Agarremo-nos às poucas vantagens da vida moderna.

A gripe espanhola podia matar em menos de 24 horas. Sem antibióticos, cortisona ou anticoagulantes para combater a peste, os médicos não sabiam nem sequer que a doença era transmitida por vírus.

Desconhecia-se também a ação oportunista das bactérias, que provocavam pneumonia nos pacientes debilitados. Enfermeiras cobriam a boca com panos dobrados, mas deixavam o nariz a descoberto, ignorantes de que a transmissão acontecia pelas vias respiratórias.

Para agravar, a gripe espanhola deixava sequelas neurológicas em muitos dos sobreviventes. O comprometimento das faculdades mentais da maioria da população terminava apenas por engordar as estatísticas; mas ao acometer o líder de uma potência como os Estados Unidos, e isso em meio às negociações de paz da Primeira Guerra, um indivíduo enfermo ajudou a alterar o rumo da história.

Falo do presidente Woodrow Wilson, que sucumbiu à moléstia durante os debates que antecederam a assinatura do Tratado de Versalhes.

Decretado o fim da guerra, Wilson desembarcou na Europa pregando moderação. Convencido de que a Alemanha não poderia sofrer retaliações proporcionais ao ódio dos países vizinhos, o americano defendia um acordo que possibilitasse a recuperação econômica alemã.

Pouco depois de chegar em Paris, Wilson caiu de cama com sintomas da espanhola. Ele se recuperaria a tempo de voltar para a mesa de negociação, apresentando, no entanto, um preocupante quadro de fadiga, confusão mental, lapsos de memória e delírio paranoico. Frágil e atordoado, ele acabaria por se alinhar aos que exigiam uma punição exemplar dos perdedores.

Uma década depois, Hitler seria eleito com a promessa de vingar seu povo da humilhação imposta pelo Tratado de Versalhes.

Tolstói acredita que os grandes líderes não são os principais agentes da história. O povo é que os empurra, para lá e para cá, seguindo o desejo inexorável da massa. Pode ser. Mas certas decisões equivocadas, certas falhas trágicas dos que estão no comando, bem como a ignorância, a cegueira e a loucura, ajudam a conduzir a manada para o abismo.

E é como me sinto hoje, como gado, nesse funil insano do isolamento natalino negacionista de 2020, seguindo o fluxo cego da multidão, na dependência de gestores do nível de Marcelo Crivella.

Procuro manter a calma que já não possuo, evito o charco, a queda e o jacaré. Atravesso a savana árida, repleta de micro e macro bestas feras.

Do outro lado da campina, verdejam, nos seringais, a promessa do tão ansiado antígeno. Meu grupo de antas, pacus e queixadas ainda se encontra muito atrás, seguindo lentos, entre queimadas e mutações.

Ao longe, já escuto o alvoroço dos ursos siberianos, dos cavalos mongóis, das águias gringas e dos veados alpinos, a um passo da imunização.

Encerro esse 2020 recém saída de uma Covid branda, torcendo para que um mínimo de IgG me proteja na travessia. Já perdi a conta dos amigos e parentes acamados. Exausta de tanta notícia ruim, peço perdão ao leitor por essas linhas um tanto erráticas. É que anda difícil manter um raciossímio lógico.

Que 2021 nos dê uma trégua.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 27/12/2020.
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