É preciso visitar o planejamento da Embrapa 2030, que nos envolve diretamente como desbravadores que buscam formatos econômicos não-predatórios para atendimento das demandas socioeconômicas e da reposição/ proteção florestal. Basta arregaçar as mangas. 

Vem novidades por aí. A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) acaba de lançar seu plano de trabalho para os próximos 10 anos, trata-se do VII PLANO DIRETOR DA EMBRAPA 2020–2030. É prazeroso tecer comentários sobre os trabalhos desenvolvidos pela Embrapa ao longo de seus 48 anos. Assim como a Embraer, o Programa do Álcool e do Óleo Vegetal, o Agronegócio, a Embrapa é uma decisão do Estado Brasileiro em escolher novos caminhos. E o mundo inteiro não tardou em aplaudir essa escolha. No agronegócio, aquilo que era outrora um constrangimento na balança comercial – a venda de produtos do setor primário, hoje, além do orgulho é também alívio fiscal. Metade de nossas exportações são do agronegócio. Temos, para ilustrar o prestígio, um movimento que pretende dar o Prêmio Nobel da Paz à Embrapa, na pessoa de um de seus mais ilustres dirigentes, o ex-ministro Alysson Paulinelli, como nosso melhor candidato ao prêmio Nobel da paz.

Recursos de base biológica

Neste Plano Diretor, destacamos um dos objetivos estratégicos para os próximos 10 anos: “Desenvolver tecnologias e conhecimentos que contribuam para a Bioeconomia por meio da utilização de recursos de base biológica para a geração de bioprodutos, bioinsumos e energia renovável”. E para tanto, sinal de sagaz percepção e acertada de muitos, e que escapou aos dirigentes do país, a decisão estratégica de criar novas oportunidades a partir do aprofundamento do conhecimento sobre a biodiversidade dos biomas brasileiros. A partir dessa escolha, duas metas chamam a atenção. Até 2030, viabilizar a disponibilização de cinco novas matérias-primas renováveis para uso no contexto da bioeconomia e viabilizar a incorporação (adoção) pelo setor produtivo de cinco bioativos e bioinsumos a partir dos recursos genéticos da Amazônia, Pantanal e Mata Atlântica. Poderíamos especular que agora o Brasil começa a fazer escolhas?

Arregaçando as mangas

Como já havíamos anunciado neste espaço, iremos encontrar um suporte robusto para a vertente da Bioeconomia, a economia do conhecimento que extrai da natureza, de modo sustentável e rentável, as respostas que a humanidade precisa para resolver questões nutricionais, farmacológicas, dermocosméticas entre outras obviedades da diversidade biológica tropical. É preciso visitar o planejamento da Embrapa 2030, que nos envolve diretamente como desbravadores que buscam formatos econômicos não-predatórios para atendimento das demandas socioeconômicas e da reposição/ proteção florestal. Basta arregaçar as mangas.

Domesticação da castanha-do-Pará

Essa incursão da Embrapa, a propósito, se dá historicamente na Amazônia, que foi premiada com uma unidade de pesquisas para resolver o problema do mal das folhas da Hévea brasilienses, a seringueira. Daí pra frente, os trabalhos que priorizaram o bioma Amazônia, fortaleceram a pesquisa aplicada na Embrapa Amazônia Ocidental e Oriental. Muitas das soluções e conquistas propiciaram modulações econômicas como óleo de palma, o super guaraná, o combate ao fungo do cupuaçu, da banana e da castanha-do-brasil. Foi assim que o projeto pecuária dos Irmãos Vergueiro, há 50 anos, deu lugar ao maior projeto de reflorestamento da área removida para a pecuária de corte com espécies da valor comercial, na Fazenda Agropecuária Aruanã, que consolidou a domesticação da castanha do Brasil ou do Pará, como é conhecida a Bertolethia excelsa. De quebra, veio também a pupunha, a copaíba, a andiroba, o cumaru…

Quem sabe faz a hora

O Amazonas, entretanto, ainda não deu muita trela ao cultivo extensivo de seringueiras, descoberto pela Embrapa Amazônia Ocidental. E, se considerarmos o conjunto da obra, e a desarticulação dos órgãos federais na região, o polo industrial de Manaus não soube ainda aproveitar satisfatoriamente os avanços tecnológicos da Embrapa local para soluções de suas demandas, por exemplo, no polo de duas rodas, que não tem fornecimento estadual para a produção de pneus para motos e bicicletas. Quem sabe não chegou a hora. Isso não faz qualquer sentido. A Embrapa Instrumentação de São Carlos sabe muito mais de nanobiotecnologia da seringueira do que o Polo industrial de Manaus nem imagina o que isso poderia representar.

foto: Bruno Zanardo

Conselho e o Centro de Biotecnologia

Há quase dez anos, além de cobrar da Universidade do Estado do Amazonas assentos no seu Conselho Gestor para a representação do setor produtivo da ZFM, o mantenedor da instituição, o CIEAM e a FIEAM, Centro e Federação das Indústrias do Estado do Amazonas, fizeram repetidas injunções para que a Embrapa Amazônia Ocidental colocasse para funcionar o Centro de Biotecnologia da Amazônia. A ideia já era antiga entre alguns gestores da Suframa, que não tem quadros técnicos nesta área. Tanto que o formato já fora detalhado para promover a entrega do CBA para os 70 pesquisadores da Embrapa. Por uma razão óbvia. Eles são especialistas em transformar pesquisa em desenvolvimento em direção ao mercado. Isso não ocorreu porque prevaleceu o mais mesquinho dos motivos, um dos defeitos de caráter mais lastimáveis da condição humana, a vaidade. Com isso, estamos 20 anos atrasados na consolidação desta vocação absurdamente óbvia que é Bioeconomia. O que vai adiantar trocar o CBA de nome, muito menos prometer que a União Federal vai, enfim, concordar que esta iniciativa, nascida no âmbito empresarial para a criação do pólo de biotecnologia, saia do papel. Tem sido, com todo respeito general. A boa notícia é que a Embrapa acaba de entrar na mata para melhor trabalhar e faturar…

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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