fernanda torres
*Fernanda Torres

Considero exagerada a afirmação de que não há diferenças entre meninos e meninas.

Filhos, sobrinho, enteados… Minha família só pariu homens na terceira geração. Pouco afeitos a conversas, eles socam, xingam, arrotam e peidam com naturalidade, além de pararem de tomar banho aos nove anos de idade, só se valendo de desodorante e pasta de dente quando lembrados.

A quarentena aprofundou o convívio e, num sábado desses, acabei voto vencido, como sempre sou, na escolha do canal de TV. E foi assim que encarei uma noitada de UFC.

Não tenho opinião formada sobre as preferências inerentes aos gêneros. A cultura impõe valores, não tenho dúvida, o menino veste azul e a menina veste rosa de Damares está aí para provar, mas considero exagerada a afirmação de que não há diferenças entre meninos e meninas.

As relações de poder na escola não mudaram muito desde a minha infância. Os guris ainda tendem a resolver suas querelas de maneira bruta e direta, com empurrões e risadas; enquanto as meninas se revelam mais sofisticadas, excluindo e incluindo com requintes de crueldade.

E também ocorrem excessos nos que ignoram as dissemelhanças entre X e Y. Nunca esqueci uma reportagem da Folha sobre um casal preocupadíssimo em não influenciar culturalmente seu bebê nascido homem. Da seleção dos brinquedos ao nome escolhido, da cor do quarto aos livros, o empenho do par pela neutralidade era tamanho, que beirava a imposição.

O entusiasmo pelo vale-tudo, por exemplo, é produto exclusivo do ambiente ou vem

acompanhado de uma tendência natural do sexo masculino?

Muitas mulheres cultivam o apreço pelo combate e outras tantas atletas se engancham na arena com o mesmo furor dos colegas gladiadores. Mas não conheço nenhum grupo de moças que perca as madrugadas vibrando a cada sopapo, mesmo quando Amanda Nunes adentra o octógono.

The Lioness, como é conhecida, fenômeno brasileiro do UFC e detentora de dois cinturões de campeã nas categorias peso pena e galo, era a grande atração da noite em que fui voto vencido na programação televisiva. Para assistir a ela, foi preciso enfrentar uma sequência prévia de lutas, entre as quais, a do desafio do brasileiro Gilbert Burns, o Durinho, ao ex-campeão Tyron Woodley.

O abdômen tanquíssimo, o amplo costado, o pescoço em triângulo e o muque compacto do americano me fizeram temer pelo azarão pátrio. Mas Durinho estraçalhou o adversário, vencendo a rinha por decisão unânime do júri. Indiferente à carnificina, fui tomada por um desmedido orgulho do nosso vira-lata. E, sintonizada com a minha matilha de cães, participei da mesa redonda de análise das contendas que se seguiram, antes da apresentação da lendária leoa.

Amanda Nunes combate ereta, com a guarda avançada, sem chance para revides. Ela e a desafiante Felicia Spencer são mães recentes, capazes de conciliar a maternidade com uma profissão onde se espanca, e pior, se apanha em público.

Com 13 nocautes no currículo, contra um, de Spencer, Nunes parecia disposta a desmentir o boato de que não aguentaria cinco rounds completos sem perder o fôlego. Já a canadense confirmou a fama de resistente, aguentando virar saco de pancada da outra sem pedir arrego.

A luva do UFC serve para proteger as mãos de quem bate, não o rosto de quem toma. O soco reto no zigomático, a joelhada na cara e a cotovelada no coco abrem rombos na carne fresca, esguichando sangue pelo tablado. O olho roxo, inchado de Spencer, as pernas trôpegas, o nariz torto, o rasgo na maçã esquerda e o rio vermelho que lhe escorria pelas orelhas me fizeram sair do transe. A mulher tem uma filha pequena… Lembrei.

Do meio para o fim da pugna, eu só rezava pela covardia da desafiante, mas Spencer seguia firme, saco de carne da Atena baiana. Fui dormir com um embrulho no estômago.

Uma semana depois, mais uma vez, lá estavam os meus lobos ávidos por outra sessão daquelas. José Aldo, diziam, o ex-campeão brasileiro, seria a Felicia da vez, contra o jovem leão russo, Petr Yan, atual detentor do cinturão peso galo.

Aguentei até notar sinais de cansaço no doce Aldo. Yan o socou como máquina, mesmo quando o velho guerreiro foi ao chão. O árbitro teve misericórdia e deu por encerrado o massacre.

Não há nada mais trágico do que a luta livre, ou o boxe. Aldo tinha consciência de que ia levar uma sova e, mesmo assim, honrou o duelo. No final, recebeu um terno abraço de seu algoz. É de chorar. Yan sabe que é o Aldo de amanhã.

Em casa, a corja urrava diante da TV, enquanto eu, mãe e mulher, emudecia por Aldo. Deve existir, afinal, discrepâncias notáveis entre os sexos.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 25/07/2020.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui