“É preciso acertar na mosca, como se dizia entre os antigos, quando era imprescindível não errar o alvo em relação a decisões de alto valore que deveriam ser tomadas pela sociedade.

Depois de haver experimentado o exercício de dois mandatos de vereador de Manaus (1989-1992 e 1993-1996) integrando grupo de alta qualificação e experiência profissional, sei muito bem qual a importância da Câmara Municipal e da chefia do Poder Executivo para uma cidade, especialmente como a nossa ca pital que vive em permanente crescimento demográfico desproporcional em relação aos demais centros do País. Sei da necessidade da boa escolha que cada eleitor deve fazer, conforme suas convicções, com liberdade, mas observando o cenário crítico de saúde pública, da desordem urbana, de dificuldades de gestão diante de uma economia nacional cambaleante, de problemas de segurança, de emprego e de estabilidade social.

E preciso acertar na mosca, como se dizia entre os antigos, quando era imprescindível não errar o alvo em relação a decisões de al to valor e que deveriam ser tomadas pela sociedade

O que desejo recuperar, entretanto, após esse introito, é a realização da primeira eleição para o chamado Senado da Câmara da Barra, feita em língua portuguesa mesmo sem abandono da língua geral, no lugarejo de 11 ruas e uma praça recortadas entre os bairros de São Vicente-de-Fora e dos Remédios, na condição subalterna de subúrbio de Serpa, com seus 1.188 moradores não índios residentes em 232 casas, e 379 escravos negros. Essa pequena população costumava percorrer as ruas das Gaivotas, do Sol, da Lua, a travessa Estrela e o caminho da Cachoeirinha, quase sempre partindo da Praça da Fortaleza, do Largo da Trincheira ou do beco do Enforcado.

Era 17 de dezembro de 1833 quando se realizou a eleição para o nosso Senado da Câmara, levada a efeito sob a presidência de Joaquim Rodrigues Calado, na sede da antiga Fábrica Imperial. Dos 45 candidatos 7 foram eleitos. Os mais votados, com 36 votos, Manoel Gonçalves Loureiro Filho e Francisco Gonçalves Pinheiro, e depois, Mathias da Costa (31), João Ignacio Rodrigues do Carmo (28), Francisco de Paula da Silva Cavalcante (27), Henrique João Cordeiro e Cláudio José do Carmo, ambos com 26 votos.

Não eram neófitos. Membros da Guarda Nacional, líderes do movimento de 1832, políticos desde o governo de Joaquim do Paço, defensores da autonomia contra o Pará, deixaram sem assento o padre João Antônio da Silva e Bonifácio João de Azevedo. Vencidos alguns dias de turbulência política e militar, o Senado foi instalado em 21 de dezembro de 1833 na mesma Fábrica Imperial de Lobo d’ Almada, com missa de Frei José dos Inocentes, em dia de gala, no qual foram usadas a custódia de prata dourada rodeada de topázios, a ambula de prata com os santos óleos, a naveta portuguesa e turíbulos de requintada prata colonial, ainda que a custo elevado para os cofres públicos.

Em 3 de janeiro seguinte deram-se as primeiras reuniões políticas e a designação do juiz de órfãos (João da Silva e Cunha), do juiz municipal (Henrique João Cordeiro) que depois foi juiz de direito e chefe de Polícia, e do promotor de justiça (Francisco Alexandre Leite). Estava composto o governo local, e, desde então, cresceu o desejo pela completa autonomia política em relação ao Pará, a qual haveria de vir, desejada de há muito e defendida com armas.

O Senado da Câmara passaria a ser a sede e o templo político de tudo que fosse relevante na localidade, desde os pequenos problemas de arruamento e aguadeiro, às questões mais complexas de domínio da religião, normas urbanas, tratamento a escravos negros, pelourinho, mas, sobretudo, domínio e controle da terra urbana, ainda que a municipalidade pouco coubesse desse quinhão.

Nos dias que correm são outros, e inúmeros outros, os problemas que nos afligem, mas que reclamam enfrentamento urgente e está sob nossa responsabilidade direta eleger quem os enfrente com altivez, seriedade e competência.

Compartilhar
Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui