*Claudia Costin 

O homem, que se imaginava um monstro, surge no tribunal como funcionário carreirista.

O último dia 11 de abril marcou o 60º aniversário do início do julgamento de Adolf Eichmann, um dos arquitetos da chamada “solução final”, que resultou na morte de milhões de judeus, ciganos e homossexuais em campos de extermínio. O julgamento, encetado após uma fuga espetacular dos EUA, para onde havia sido levado em 1946, ocorreu em Jerusalém, após uma captura também extraordinária em Buenos Aires.

Num livro polêmico, resultante de sua cobertura jornalística do processo de Eichmann, Hannah Arendt descreve meticulosamente o cenário em que o julgamento ocorreu, a fala das testemunhas e as características mais evidentes do ex-comandante da SS. “Eichmannn em Jerusalém”, que pude reler recentemente, teve como subtítulo “Um Relato sobre a Banalidade do Mal”, o que soa curioso para quem não teve a chance de ler a obra.

Mas a frase faz muito sentido, a partir da escrita de Arendt. Ela tenta mostrar, o que lhe rendeu críticas ressentidas, que Eichmann não era um monstro ou alguém particularmente malévolo, o que, por outro lado, não significava para ela que ele devesse ser perdoado ou punido com mais clemência. Ele seria uma engrenagem consciente num processo que resultaria em profundo sofrimento, sendo apenas medíocre, não um gênio do mal.

A expressão banalidade do mal, aliás, só aparece no final do livro, associada à tese de que os piores bandidos devem ser julgados e pagar pelos graves crimes cometidos, mas é importante entender que a história usa pessoas mesquinhas e ambiciosas para cometer atrocidades que elas não necessariamente tencionavam fazer no início.

Mas aquele homem, que se imaginava a personificação de um monstro, surge no tribunal como um funcionário carreirista que, de fato, tinha organizado todo o processo para que ocorressem mortes civis, não relacionadas a territórios a conquistar. Margaret MacMillan, em seu recente livro “War: How Conflict Shaped Us”, mostra como em boa parte das guerras o assassinato de populações não armadas está relacionado à necessária conquista de territórios. Mas, admite ela, isso não teria ocorrido com Hitler e, em especial, com Eichmann, responsável pela organização do transporte de “proscritos” aos campos de concentração.

Seria mais fácil condená-lo se ele parecesse um sádico? Talvez, mas os crimes estavam escancarados, e Hannah Arendt apontou-os com clareza, mesmo se no banco de réus estava apenas um ser humano.

Mas são seres humanos que ferem e matam, mesmo que indiretamente, se seus valores estão associados a vinganças, ao mero fortalecimento de seu próprio poder ou a visões messiânicas de mundo.

*Professora. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 15/04/2021.
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