O saneamento de calçadas de Manaus constitui um importante marco civilizatório, não só porque dá inicio ao resgate da nossa história permitindo uma visualização de nossa memória arquitetônica, como também porque as barracas  de “vendedores ambulantes fixos” (?!) degradam a paisagem urbana atual. Lamentavelmente a cidade livre dos obstáculos físicos, foi invadida por bandidos que impedem, por exemplo, moradores de prédios do centro de descer para as calçadas depois das 18:30”h. Como essa é, talvez, a única opção dessas pessoas para saírem um pouco do apartamento, a nova invasão configura um desrespeito inaceitável contra seres humanos que dão ou que já deram contribuições importantes para a grandeza de Manaus, do Amazonas e do Brasil.

 

Senti na pele 

No sábado de carnaval fui ao centro acompanhar uma amiga que queria um adereço para sair em uma Escola da Samba e, na volta, em frente ao Edifício Cidade de Manaus, por volta de 15 horas, um homem chegou por traz, colocou a mão em meu ombro e disse: “doutor o senhor paga…”. Não ouvi o resto, mas minha amiga que faz artes marciais reagiu dizendo: “cai fora que sou policial” e o ladrão sentindo que a “barra” podia pesar e que outras pessoas estavam vendo, foi embora deixando angústia e revolta.

 

Saneamento ameaçado 

A retirada dos “ambulantes fixos” (se é ambulante, como pode ser fixo?) está ameaçada sob o inaceitável argumento de que eles constituíam um obstáculo para os ladrões ou seja, a cidade precisa de “out laws” para se proteger de “out laws”. A meu juízo essa ideia do “volta camelô” parece muito com a do “volta lula”, porque ambas têm apoio político (no mau sentido) para restaurar algo abominável. Até já se comenta que brevemente um político (no mau sentido) de olho nos votos, vai contratar um advogado que vai entrar com uma ação na justiça, onde um juiz com uma hermenêutica rara vai conceder uma liminar frustrando a esperança de muitos em favor de poucos.

 

Aqui tudo é mais difícil

 

Para Manaus e para o Amazonas as conquistas são sempre difíceis e complicadas desde o tempo da borracha, e quero lembrar aqui uma mensagem do Presidente Affonso Penna (1906-1910) ao Parlamento, onde escreveu: “é preciso corrigir os excessos do Amazonas, conserval-o sob tutela, humilha-lo, estinhar o seu erário […]”.

Afonso Pena era destemido, mas hoje o poder central pensa a mesma coisa, embora aja de forma dissimulada.  A ideia “volta  camelô” tem aprovação disfarçada da base aliada e a prorrogação da Zona Franca recebe apoio chambão. Para o governo central dos nossos dias, a região só serve para promoção pessoal e culto à Mamon (o deus do dinheiro). Seus “líderes” viajam pelo mundo mentindo sobre a preservação da Amazônia, enquanto por aqui assumem outra postura como mostrou a notícia veiculada pelo jornal eletrônico (www.ambientebrasil.com.br – 21/02/2014 –véspera de carnaval) dando conta que o governo disponibilizou 1.500.000 hectares na Amazônia para concessão florestal. Na mesma nota o INPE afirma que o desmatamento caiu 19% e que 60% das áreas desmatadas são de domínio estadual estabelecendo um grosseiro engodo, pois a Floresta Amazônica está protegida pelo artigo 225 da Constituição Federal. Ou será que o substrato (solo) tem um domínio e a cobertura (floresta) tem outro? A mesma notícia informa que o governo é o maior comprador de madeira e que foram feitas 1.500 autuações, aplicados R$ 500.000.000,00 em multas, aprendidos 26.000 m3 de madeira e embargados 40.000 hectares. Na realidade as multas não vão ser pagas, a justiça vai devolver a madeira e as terras aos “donos” que assinarão um Termo deAjustamento de Conduta (TAC) um mecanismo que só vi funcionar quando assinado com o chinelo de minha mãe. Todos os países que fizeram concessões florestais perderam patrimônio natural e não ganharam desenvolvimento, como mostra o “ranking” do IDH de 182 Nações de 2009: Trinidad Tobago (0,837 – 62º); Malásia (0,809 – 66º); Tailândia (0,783 – 87º); Sri Lanka (0,759 – 102º); Gabão (0,755 – 103º); Filipinas (0,751 – 105º); Fiji (0,741 – 108º); Indonésia (0,734 – 111º); Honduras ( 0,732 – 112º); Nicarágua (0,699 – 124º); Índia (0,612 – 134º); Camboja (0,593 – 137º); Papua Nova Guiné (0,541 – 148º); Gana (0,523 – 152º); Camarões (0,522 – 153º); Nigéria (0,511 – 158º); Costa do Marfim(0,484 -163º); Libéria(0,422-169º); República do Congo (0,389 – 176º); República Centro Africana (0,369 – 179º).  E por aqui ainda tem gente confundindo crescimento econômico com desenvolvimento.

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Ozório Fonseca
Biólogo, Mestre em Ecologia, Doutor em Ecologia e Recursos Naturais. Professor Visitante na UFRGS (1983-1995). Diretor do INPA (1995-1999), Professor da UFAM e da UEA. Membro Honorário da Academia Amazonense de Medicina; Membro Titular da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Filho do ex-prefeito de Itacoatiara Osório Alves da Fonseca (1889-1960) e da professora Francisca de Menezes Fonseca (1906-1988). Nascido em Manaus, porém criado em Itacoatiara. É o nosso querido mestre do Principado de Itacoatiara (título que conferiu à nossa cidade).

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