Por que o Brasil não dá a menor importância para esse almoxarifado biótico? E o que é pior: não deixa ninguém se habilitar a fazê-lo. Quer dizer, a venda de terras para estrangeiros e o contrabando do germoplasma e recursos minerais correm soltos.

Uma floresta robusta, rica e promissora, e uma população com mais de 2 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza segundo o IBGE. Este é o maior paradoxo da Amazônia, uma região que se antecipou à modernidade liberal da Revolução Francesa, desde o Século XVIII, e que não se submeteu ao governo imperial do Brasil, latifundiário e atrasado contra o qual se insurgiu. A isso se deu o nome de Cabanagem, uma guerra genocida, que matou 60 mil nativos, a maioria formada por jovens cabanos (moradoras de cabanas, ou taperas) e que durou de 1835 a 1840. Desde então, o Brasil, através de seus inúmeros governantes, se manteve de costas para o Grão-Pará e Rio Negro, como era chamada esta região que sempre se pautou por  uma gestão inquieta e visionária de seus moradores e governantes, desde o Marquês de Pombal.

Questão entalada

E se a Amazônia se tornasse independente? Essa é uma questão que permaneceu entalada quase dois séculos de indiferença com este apêndice do Brasil que não sabe – talvez nem queira – administrar. Há controvérsias a respeito dessa questão, suas implicações e necessidade de entrosamento e tentativas de convencimento com a União Federal. Entretanto, não faltam razões para levar adiante  o processo de emancipação. Vejamos algumas delas. Correspondente a 59% do território nacional, passados 200 anos da Declaração da Independência do Brasil, a Amazônia tem sido tratada como Colônia pelo governo central, de acordo com o célebre desabafo do General Eduardo Villas Bôas, em 2015,  quando era Comandante Militar da Amazônia. “Nossos habitantes são vistos como cidadãos de segunda classe”.

Desconectados e desgovernados

É precário para a maioria de nossos habitantes o acesso aos benefícios sociais que competem à União. A renda per capta é insatisfatória e indigna e é lastimável o provimento de infraestrutura necessária para o desenvolvimento regional. Os entes federais trabalham desconectados, com ministérios em sedes suntuosas alguns e outros administram a própria penúria. A propósito, TCU e o MPF recomendaram  à Suframa, há 5 anos, o papel de coordenar e reestruturar essa presença e seus recursos humanos e materiais superpostos ou em ações paralelas. Temos uma floresta robusta, as mais imponentes e frondosas árvores do planeta, um acervo biótico desejado desde sempre pelos países desenvolvidos e absolutamente destratado pelo Brasil. O fator humano, com efeito, o mais importante alvo da ação pública, está entre os mais depauperados e desleixados da gestão federal.

Abundância natural e exclusão social

Temos 67% das florestas tropicais do mundo e 20% da água potável/disponível da Terra, além de 20% da biodiversidade. Isso representaria a real possibilidade de produção de medicamentos, alimentos funcionais e dermocosméticos e abastecimento hídrico num momento em que a água escasseia. Aqui borbulham oxigênio de um terço das árvores do mundo. Porém, o manejo de seus benefícios não são devidamente aproveitados pela população da Amazônia. É reduzido o número de cientistas para trazer ao laboratório o banco genético para produção de riqueza. Geramos energia hidrelétrica para o resto do país e muitos municípios vizinhos às hidrelétricas não dispõem de eletricidade. E o mais curioso: o Brasil não permite que fabriquemos artefatos de energia solar, mesmo tendo 30% de estados como o Amazonas sem acesso à fonte alternativa de energia. Abundância natural e exclusão social.

foto: Gisele Alfaia

Em lugar de proibir, incentivar

Por que o Brasil não dá a menor importância para esse almoxarifado biótico? E o que é pior: não deixa ninguém se habilitar a fazê-lo. Quer dizer, a venda de terras para estrangeiros, notadamente, asiáticos, e o contrabando do germoplasma e recursos minerais correm soltos.

Reportagem recente da BBC Brasil denuncia a venda ilegal de terras, incluindo áreas de conservação e de indígenas, pelo Facebook. A postura proibicionista do poder público impede o acesso aos recursos naturais. Em lugar de proibir seria mais inteligente estimular padrões de sustentabilidade socioambiental, espalhar e popularizar o conhecimento científico, para que todos desejem, cuidadosamente, manejar a riqueza florestal.

Manejo florestal

Qual o sentido manter tanta riqueza intacta com uma população empobrecida com IDHs tão desumanos? Não advogamos – é importante enfatizar – o desmatamento predatório como meio de subsistência como fazem alguns empreendedores desavisados. Desmatar é queimar literalmente 90% da riqueza natural da biodiversidade. Entretanto, a despeito de atividades da Silvicultura e de protocolos consistentes que norteiam o Manejo Florestal Sustentável-MFS, os órgãos estaduais de Meio Ambiente não adotam essa opção de negócios. Essa opção de geração de riqueza foi consolidada com base em inovação tecnológica reconhecida e recomendada pela ONU, pois maneja, renova e fortalece as florestas tropicais. Além de gerar milhares de emprego e renda ao longo de sua cadeia produtiva e do conhecimento.

Pesquisadores com perfil empreendedor

E se a Amazônia se tornasse independente, deixando-se invadir por pesquisadores com perfil empreendedor que ajudassem a formar um exército de novos pioneiros da Bioeconomia, utilizando este bioalmoxarifado de soluções naturais com inteligência e cuidados? Inteligência para decodificar os protocolos naturais que deveriam orientar a mimese de novos produtos de que a Humanidade necessita. Depois de 54 anos do programa Zona Franca de Manaus, sabemos produzir quaisquer itens ou artefatos, conscientes de que precisamos, queremos e sabemos cuidar, simultaneamente, deste tesouro florestal. É notório nosso talento para gerar riqueza apesar do país priorizar sua aplicação noutra freguesia. Nosso conceito de cuidar é gerar riqueza com sabedoria socioambiental, onde é proibida a ganância predatório do capitalismo selvagem do lucro rápido e a qualquer custo.

Sem improvisação

E se a Amazônia se tornasse independente, essa independência não necessariamente implicaria em novos confrontos belicistas. Bastaria sugerir ao resto do Brasil que interrompesse suas ações improvisadas e alopradas de gestão da Amazônia. Não precisaria mais nos abraçar, como sempre quisemos, muito menos atrapalhar nossa capacidade de fazer dessa imensa potencialidade um ciclo permanente de prosperidade social. De quebra, o Brasil poderia vir passear na floresta, conhecer suas entranhas e façanhas liberais pra valer.

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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