Como quase todas as formas de expressão artísticas, as artes visuais chegaram ao Amazonas com o dinheiro do ciclo da borracha. No entanto, mesmo antes do apogeu econômico do látex, a cidade de Manaus não era exatamente um deserto em se tratando de tradição artística.

Desde os tempos do Império a cidade permitia o contato, ainda que intermitente, com exposições de pintura, de escultura. Até mesmo a complicada arte fotográfica da época teve seus praticantes, como HippoliteMarinette, que fez inúmeras imagens de daguerreotipo mostrando uma capital ainda bucólica e meio rural, encravada entre a selva e as sedoiras águas do rio Negro.

Mesmo antes do maestro Joaquim Franco criar seu Ateliêr, os interessados podiam estudar com o professor Arturo Luciani, egresso da Academia de Belas Artes de Florença, que ganhava a vida decorando com pinturas as casas abastadas, além de lecionar desenho artístico no Instituto dos Educandos Artífices. Na pintura decorativa pontificaram também Crispim do Amaral, Domenico de Angelis, Giovani Capranesi, Adalberto de Andreis, Francesco Alegiani e Sílvio Centofanti todos envolvidos com as obras pictóricas que enfeitam o Teatro Amazonas. A fotografia ganha força com a chegada em Manaus do fotógrafo George Hübner, que fundou com seu sócio Libânio Amaral, irmão do pintor Crispim do Amaral, a casa Photographica Alemã, que funcionou na avenida Eduardo Ribeiro até o final dos anos 50. No campo da arquitetura, antes da degradação brutal ocorrida na cidade a partir dos anos 60 do século 20, Manaus ostentava um planejamento urbano muito avançado e bons exemplos arquitetônicos, tanto públicos quanto privados. O conjunto Teatro Amazonas e Tribunal de Justiça, inaugurados na gestão de Eduardo Ribeiro, serve de lembrança daqueles tempos em que os administradores sabiam o que era uma cidade. Das salas do Atelier do maestro Joaquim Franco saiu o pintor Manoel Santiago, cuja obra gravitou entre o academicismo e o impressionismo. Algumas telas de Manoel Santiago podem servista na Pinacoteca do Estado. Ainda do academicismo há a curiosa figura de Branco e Silva, com formação’ no Liceu de Artes e Ofícios de Lisboa, que realizou grandes telas sobre paisagens amazônicas numa técnica tardia e verista. Sua obra mais festejada, hoje na Pinacoteca do Estado, é um óleo sobre tela de delirante alegoria em que esvoaçantes musas descem sobre o Teatro Amazonas, intitulada “Imortalidade”. A partir de 1945 as artes visuais ganham um novo momento com os artistas do Clube da Madrugada, movimento cultural de grande otimismo, que trazia as esperanças do pós guerra. Entre os seus integrantes destacam-se Moacir Andrade, um artista de difícil classificação, mas de grande força expressiva; Álvaro Páscoa, provavelmente o mais sólido artista do Clube da Madrugada, oriundo de Portugal, de onde trouxe as propostas da vanguarda europeias, foi um artista multifacetado, atuando na xilogravura, na escultura, no bico de pena e na pintura, exercendo enorme influência nas novas gerações; Afrânio de Ca[stro, de um talento explosivo, representou o abstracionismo em telas que indicavam uma profunda inquietação beirando ao desespero; Getúlio Alho, além de escritor sensível, é desenhista de grande criatividade e de traço pleno de personalidade, sua obra está espalhada pelos jornais de Manaus e nas obras que ilustrou. Fora do Clube da Madrugada há o mais importante artista plástico que o Amazonas produziu no século XX, Oscar Ramos. Nascido em Itacoatiara, mas com passagens por Manaus, por Belém, Madrid, Londres e Rio de Janeiro, fez parte da vanguarda dos anos 70 e é um de seus principais representantes. As artes visuais do Amazonas atingiram altos níveis de criação.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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