Nossas amazonidades desde muito tempo, deixaram de fazer parte do planejamento político, de governo e das configurações do futuro. A classe política caminha em caminhos diametralmente opostos às nossas raízes, nosso modus vivendi, nossa realidade não apenas por desconhecê-las, mas principalmente, porque nelas não cabem as negociatas sujas e malévolas do caminhar dos partidos políticos que apenas pensam no poder como meio de encher os bolsos dos apaniguados.

Com isso, toda vez que um político com mandato popular abre a boca, é preciso jogar o que foi dito na fossa da história amazônica e, principalmente, amazonense. Mesmo alguns que deveriam manter sua cultura advinda da vida no barranco dos rios, cedem ao império da desfaçatez e abandonam nosso futuro em beneficio de seu próprio caminhar.

A REALIDADE.

Ontem, como convidado para uma Mesa Redonda sobre políticas públicas, na Assembleia Legislativa, abordei o tema “Água/Recursos hídricos, políticas públicas e desenvolvimento: conceitos e definições”. A medida que expunha meus 22 diapositivos que focalizavam aspectos teóricos do tema, aumentava a minha pressa em acabar, pois não havia reação alguma do público, mesmo diante de uma questão (problema?) de enorme magnitude para o meio ambiente  e para os ecossistemas amazônicos, pois sem teoria, a única coisa a fazer é seguir no caminho do “eu acho”, deixando de lado o alicerce do “eu sei”.

Na hora do debate, as perguntas foram todas dirigidas para um outro palestrante que mostrou diapositivos com repetições dos textos legais e fiquei pensando que a retirada da disciplina Filosofia do curso científico e dos cursos universitários, deixou os estudantes e profissionais com enorme deficiência para debater questões teóricas que devem embasar os posicionamentos.

SERÁ QUE SABIAM?

Em um dos diapositivos mostrei a diferença entre PIB e IDH e percebi que muitos dos que ali estavam nunca tinham ouvido falar de uma coisa nem de outra, a não ser superficialmente, o que os impedia de intervir e reagir.

MINHA EXPOSIÇÃO.

Falei sobre a importância do embasamento teórico nos atos de intervenção do homem nos ecossistemas e no meio ambiente e como era uma Mesa Redonda sobre Políticas Públicas e Recursos Hídricos, lembrei que uma política pública adequada, precisa ter três elementos indispensáveis: politics (processos), policy (conteúdos) e polity (instituições). Os olhares do público sinalizaram que a classe política pode continuar com suas práticas deletérias. Puxei para o ambiente amazonense e falei sobre o artigo 229 da Constituição do Estado do Amazonas que protege os caudais e deixa fora da proteção de nossos igarapés e da água subterrânea que não são caudais, porem a reação foi de perplexidade. Difícil avançar nas questões ambientais sem inserir a necessidade absoluta de ter conceitos e/ou definições de aquilo que se insere no meio ambiente (habitat habitado) e nos ecossistemas (espaço de vida e liberdade usado apenas para garantir a manutenção da vida).

Quando coloquei o IDH em oposição ao PIB, imaginei que deixaria claro essa diferença essencial para o homem moderno e procurei dar um conceito mais visível e entendível, dizendo que PIB é um índice inventado por economistas que tem o preço de tudo e o valor de nada, enquanto o IDH é um índice criado por um filósofo e um economista – Mahub Ul Haq e Amartya Sen (Prêmio Nobel de Economia 1988) que usa três dimensões essencialmente humanas: educação, longevidade e renda.  Para mostrar a diferença entre PIB (como indicador de riqueza – sic) e IDH, lembrei que Manaus, em 2012, contribuiu com 76,15% para a formação do PIB estadual, enquanto Juruá, Anamã, Amaturá, Itamarati e Japurá, p. ex., não atingiram 0,1%. Adicionalmente mostrei que essa “rica” cidade tem regiões com IDH de 0,943 (igual ao da Noruega) enquanto bairros operários têm valores de 0,658 e alonguei a comparação para os  municípios cujas posições mais distais são Manaus (IDH=0,787) e Ipixuna (IDH=0,487), lembrando que lá  mora gente como a gente.

Apresentei como solução para essas injustiças econômicas, sociais, regionais, educacionais, humanas, etc., a implantação de um modelo de desenvolvimento assentado na biodiversidade e no conhecimento tradicional, mas ninguém me perguntou nada sobre isso. Sem interlocução, não se anda para frente. Minha recompensa é imaginar que deixei uma semente.

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Ozório Fonseca
Biólogo, Mestre em Ecologia, Doutor em Ecologia e Recursos Naturais. Professor Visitante na UFRGS (1983-1995). Diretor do INPA (1995-1999), Professor da UFAM e da UEA. Membro Honorário da Academia Amazonense de Medicina; Membro Titular da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Filho do ex-prefeito de Itacoatiara Osório Alves da Fonseca (1889-1960) e da professora Francisca de Menezes Fonseca (1906-1988). Nascido em Manaus, porém criado em Itacoatiara. É o nosso querido mestre do Principado de Itacoatiara (título que conferiu à nossa cidade).

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