Contardo Calligaris
*Contardo Calligaris

A ‘excessiva’ sexualização das meninas, que não está no filme ‘Lindinhas’, só pode estar de antemão na cabeça do censor.

Quem sabe um dia censores e boçais (de fato, são a mesma coisa) sumirão da face de nossa cultura? Quando isso acontecer, não sentirei saudades deles, mas falta, porque o censor ou boçal é quem mais escancara, para a gente ver e ouvir, seus próprios desejos (os quais, às vezes, podem expressar o espírito do tempo ou parte dele).

Por isso, em geral, utilizo censuras e proibições como guias. Alguém tentou proibir uma obra? Veja ou leia sem esperar. É sempre relevante conhecer a boçalidade da época da gente.

“Lolita”, de Nabokov, é um dos melhores romances do século 20. Contrariamente ao que muitos boçais imaginam, a leitura de “Lolita” não ensina nada sobre pedofilia, porque a paixão de Humbert Humbert não tem nada a ver com pedofilia. Mas basta ler “Lolita” lembrando-se da dificuldade para publicar o livro nos Estados Unidos dos anos 1950 para ter imediatamente um retrato fidedigno da boçalidade americana em pleno macarthismo.

Com isso em mente, segui a sugestão de Damares Alves e, neste fim de semana, assisti a “Lindinhas”, de Maïmouna Doucouré, que ganhou o prêmio de melhor diretora no Festival Sundance deste ano.

O nosso governo tentou impedir a programação do filme na Netflix. Damares Alves se disse decidida a atuar “na defesa das crianças” para que não sejam expostas “à erotização precoce”.

Você se lembra de “Kids”, de Larry Clark, em 1995? Foi um choque para quem tivesse conseguido reprimir tudo o que ouvira sobre sexualidade infantil desde Freud.

Ingenuamente, considerando a indignação dos boçais de hoje, pensei que “Lindinhas” fosse um novo “Kids”. De fato, é um filme tocante e delicado sobre um grupo de meninas de 11 anos, que, na periferia francesa, inventam um jeito para se tornarem mulheres, que é mais complicado do que menstruar pela primeira vez. Amy, a protagonista, acaba de chegar do Senegal, frequenta a mesquita com a mãe e, também com a mãe, lida como pode com a chegada iminente do pai com uma segunda mulher.

O grupo das meninas se inscreve num concurso de dança; elas preparam uma coreografia “sexy”, que seria risível num Carnaval baiano dos anos 1990 (anos do Tchan). No filme, não há violência sexual nem sequer há sinais de um interesse sexual de adultos pelas meninas.

Tudo bem, Amy rouba um celular e chega a postar uma foto “inapropriada”. Mas, se você não está preparado para isso, não está preparado ou preparada para ser pai ou mãe -ou para ser adulto ou adulta.

Então, de onde vem a indignação? Será que quiseram proibir sem ver o filme? Possível. Mas fico com minha primeira observação: a indignação do boçal não revela nada sobre a obra que o indigna, mas nos diz muito sobre o próprio boçal.

Os protestos do governo não nos dizem nada sobre “Lindinhas”, mas dizem algo sobre as taras dos que se indignam com as lindinhas. O que está na cabeça de alguém que vê o filme de Doucouré e é levado ou levada a protestar contra a sexualização das meninas? A “excessiva” sexualização das meninas, que não está no filme, só pode estar de antemão na cabeça do censor ou boçal. Esse, então, grita contra algo que está nele, não no filme. E esse algo é o quê?

Não acredito que Damares e os “damaresotos” e “damaresotas” país afora sejam curiosamente estimulados pela puberdade de meninas de 11 anos. Me parece mais provável que eles sejam sobretudo preocupados em manter as meninas ignaras. É como se lhes fosse crucial evitar que as meninas se sexualizem —o que, aliás, em época de internet, parece especialmente difícil.

Manter as crianças, e sobretudo as meninas, ignaras de sexo é a fantasia do pedófilo. Repito: do ponto de vista clínico, pedófilo não é quem gosta de carne “fresquinha”, é quem tem a fantasia irresistível de fazer, com a criança, coisas que ela não entenda. A menina ignara é um elemento insubstituível dessa fantasia: de fato, não é o corpo, mas a “inocência” dela que excita o “taradinho”.

Por isso mesmo, a prática da pedofilia é especialmente frequente nas instituições religiosas -porque o pedófilo exemplar é aquele religioso de Boston que levava um menino a praticar sexo oral nele, explicando que essa era uma versão da santa eucaristia.

Moral da história: acho bom que as lindinhas se sexualizem um pouco (claro, sem deixar de se divertir pulando corda). Acho bom, porque só isso vai afastar delas os taradinhos que gostariam de gozar de sua inocência e de sua ignorância.

*Escritor e psicanalista. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 01/10/2020.
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