Manhãzinha de 24 de janeiro. Abro o computador (hábito diário desde que “aposentei” meus antigos companheiros: a máquina de escrever, o papel-carbono e o mimeógrafo) e tomo um choque: e-mail assinado pelo amigo Zé Raimundo (J. R. López) anuncia o falecimento de sua genitora, dona Vita Lopes da Costa. A pranteada senhora nasceu em Itacoatiara e faleceu aos 88 anos, justo no dia em que Zé Raimundo completou o seu 58º aniversário.

Lembranças da terra natal, mistérios do mundo que absorvemos e a compreensão de que somos meros intérpretes da vida, embaralharam-me a visão ante a infausta notícia, e quase chorei comovido.  Mentalmente, vi a longa caminhada do meu amigo, de meus familiares, de tantos outros colegas de infância e juventude, de mim, de todos da velha Serpa.

Mais velho que ele, mais chorão, e, portanto, mais debilitado emocionalmente, refleti: por que chorar, se dona Vita (claramente um homônimo de VIDA) nos legou belos exemplos, foi uma árvore frondosa que frutificou uma família digna, que produziu o emblemático Zé Raimundo? Então, passei a sorrir e entoei uma oração em silêncio: uma canção de agradecimento à dona Vita.

Zé Raimundo é o primeiro dos nove filhos da extinta e do guarda-livros e ex-vereador Pedro Chagas da Costa. Tem uma trajetória de vida que deixa orgulhosos todos os seus conterrâneos. Professor e jornalista, um prestador de serviços solidário e independente. Herdou a paciência e alegria da mãe e a coragem e honradez do pai; e ainda traz marcada na alma a humildade de ambos. Membro titular do Comitê da Verdade do Amazonas, tem postulado, e bravamente, para honrar o nome do líder sindical, filho de Itacoatiara, Antogildo Paschoal Vianna, brutalmente assassinado pela ditadura de 1964. Avalio que, assim que chegou aos céus, dona Vita foi recebida à porta por Ranulfo e Elvira Vianna – pais de Antogildo – que lhes agradeceram o trabalho do Zé Raimundo em favor da memória de seu filho.

Na Câmara Municipal (1952/1956) Pedro Chagas da Costa enfileirou-se com os partidários de Àlvaro Botelho Maia (1893-1969) e, depois, opondo-se ao prefeito Antônio de Araújo Costa (1888-1971), ajudou a eleger o candidato da oposição Teodorico de Almeida Nunes. Ao seu lado estiveram Mendonça Júnior, Lourival Mamede, Manoel Marques, Manoel Rego e outros jovens da época. De outra feita, o valente vereador se insurgiu contra o PTB do governador Plínio Ramos Coelho (1920-2001), por discordar da ação arbitrária daquele partido forçando a que seus oponentes aderissem à política governamental, pura e simplesmente, sem discussão. O guarda-livros Pedro Chagas da Costa trabalhou para diversos comerciantes, entre eles Abdon Mamede, Wilson França, Antonico Ferreira e os Nakajima da boca do Madeira.

O professor Zé Raimundo tem p’ra quem puxar. Quando das pelejas políticas que dirigi, na era pós-AI 5, ele, ainda um rapazola, se entusiasmou. Ali, eu e meus companheiros colocávamos em risco nossas próprias vidas; importava lutar por eleições diretas, anistia, direitos humanos, liberdade total para todos os brasileiros. No período seguinte, quando concorri pela segunda vez à Prefeitura, Zé Raimundo já era do staff: organizado, determinado, estava sempre presente. Não havia televisão e nem o atrativo das telenovelas; o povo comparecia em massa aos comícios. Os tempos eram outros. Política era sinônimo de ato cívico, rareavam candidatos fichas-sujas e eleitores sem-vergonha.

Dona Vita assim que nasceu, em 1925, foi registrada como Victa Lopes da Silva. Mais tarde, Lucas Lopes da Silva e Luiza Corrêa da Silva, seus pais, retificaram em Cartório os apontamentos iniciais, e o seu prenome passou a ser Vita. Assim, depois de casada, nossa heroína passou a assinar Vita Lopes da Costa.

Anos depois, atendida em um estabelecimento de assistência médica, verificou que a servidora responsável pelo registro da consulta, anotara em seu boletim: Evita Lopes da Costa. Desde lá, seus mais íntimos amigos, aí incluídos cunhados e vizinhos, apelidaram-na de “Evita Peron”.

Na juventude, Evita compôs um grupo musical familiar formado pelo pai (violino), tio Pedro (violão) e tio Antônio (clarinete), a cujas apresentações compareciam os mais chegados à família, a exemplo de alguns filhos do velho Vicentinho Mendonça. Cantora de voz afinada, suas interpretações encantavam os ouvintes. Os improvisados saraus de fundo de quintal costumeiramente aconteciam no amplo terreno da chácara de seus pais, localizada à avenida 7 de setembro, frontal à residência do Conselheiro Vicentinho (onde é hoje a Escola Vicentinho Mendonça) – um ambiente aconchegante, repleto de árvores frutíferas: biribazeiros, abiuzeiros, cupuzeiros, goiabeiras, açaizeiros, bacurizeiros, pitombeiras e outras espécies típicas da flora amazônica.

Desde que chegou de Itacoatiara para morar com a mãe, uns quinze anos atrás, o professor Zé Raimundo passou a aprofundar seu conhecimento a respeito desses e de outros interessantes fatos biográficos de sua genitora. Fala que dona Evita torcia pelo Náutico Esporte Clube, de Itacoatiara, onde João do Lucas (irmão dela e tio do professor) jogou e deu muitas glórias ao time do coração. Revela que a ainda jovem “Evita Peron” manuseava máquina datilográfica, bordava e desenhava com perfeição. Na década de 45/55 do século 20, ouvia através dum aparelho de rádio da família, os musicais da Tupi do Rio de Janeiro, copiava a letra das músicas da época e decorava seus ritmos. Vivia cantarolando pela casa, mesmo depois de casada, os filhos crescendo…

Assídua frequentadora das missas, procissões, novenas e quermesses da Paróquia, diariamente rezava o terço, pela manhã e à noite. Devota da Padroeira, durante anos a fio integrou a congregação mariana representada pela famosa equipe das Filhas de Maria. Aliada com outras caridosas senhoras da comunidade prestou assistência aos padres Joaquim Pereira e Alcides Peixoto. Jamais se furtou a colaborar com a Igreja Católica. Sem dúvida, uma santa senhora e uma extraordinária mulher.

Depois de cumprir o que lhe fora traçado pelo Altíssimo, dona Vita foi transportada para Cima. Está na Santa Glória, cercada de anjos e santos. Cantando e sorrindo num vale de bênçãos.

Tenha certeza de uma coisa, meu querido amigo professor Zé Raimundo: hoje e até sempre dona Vita (a “Evita Peron” dos tempos felizes da juventude dela) é uma hóspede de Deus. Parceira de Nossa Senhora do Rosário, tal qual uma estrela, brilha pairando acima da candente abóbada do Céu.

(Querendo, acessem: franciscogomesdasilva.com.br ou franciscogomes.hist@hotmail.com; contatos também através do celular (092)9988-8305. Obrigado!)

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J.R Lopes
É jornalista. Natural de Itacoatiara (AM).

1 COMENTÁRIO

  1. Obrigado, amigo.
    Voce é nosso irmão há tempo, sempre admirado por meus pais que o apontavam como exemplo para nós, em uma época onde eram raros tais ícones na juventude de nossa terra. Um dia eu conto…
    Embora conformados, voce nos deixa visivelmente emocionados quando relata traços da trajetória de nossa mãe, fazendo-nos lembrar o orgulho da cidade que sempre carregou no peito, matando a saudade através das canções.
    Todos nós somos eternamente gratos, irmão.

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