Dona Maria Florinda

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“Lentamente vamos redescobrindo os seus passos e a sua herança que não é representada em bens materiais, mas em orgulho de um filho importante, inteligente, dedicado ao trabalho”.

Dona Florinda Maria da Conceição não é uma cidadã comum na história do Amazonas e do Maranhão, embora tenha sido uma pessoa simples, vivendo na periferia da cidade de São Luiz por longos anos. Lentamente vamos redescobrindo os seus passos e a sua herança que não é representada em bens materiais,
mas em orgulho de um filho importante, inteligente, dedicado ao trabalho.

Instigado pela cineasta e pesquisadora Cristiane Garcia, que vem se dedicando a cavucar informações sobre o governador Eduardo Ribeiro e sua família, tal como venho fazendo há alguns longos anos, eis que me deparo com informações preciosas sobre dona Maria Florinda, raramente referida nos estudos sobre o grande militar e governador positivista, salvo o que consta da modesta obra que fiz publicar.

Há notícias a serem confirmadas em pesquisa material, de que dona Florinda, ao tempo de Eduardo menino, morava na rua da Cerâmica, no bairro João Paulo, em São Luiz do Maranhão, e ganhava a vida vendendo peixe frito na calçada da rua, até que o-filho, auxiliado por um padrinho, foi estudar em outra cidade em busca de formação militar, possivelmente no Rio de Janeiro.

Há uma coincidência formal com esses fatos relatados por um jornalista a pessoa de sua confiança: dona Florinda faleceu aos 79 anos de idade, em sítio de sua propriedade, denominado João Paulo, no bairro do mesmo nome, em 9 de setembro de 1910, mas o féretro saiu da Rua Santana n° 110, na terra de Gonçalves Dias.

Florinda vinha de uma moradia antiga na companhia de duas outras negras livres, donas Lucrécia Francisca Rosa e Luciana, vizinhas de fundos de Severiano Dias Carneiro, em 1874, conforme noticiado oficialmente por David Gonçalves de Azevedo, pai do grande escritor Aluízio de Azevedo que se tornaria grande amigo de Eduardo Ribeiro, ainda em São Luiz, e depois ao tempo de governador do Amazonas.

O que tem sido comprovado por pesquisas recentes é que Eduardo Ribeiro ainda quando estudante foi também poeta, declamador, professor da Primeira Freguesia da capital do Maranhão, e que sua mãe, dona Florinda Maria, nos limites de suas possibilidades e pouco além destas, conseguiu preparar o filho para progredir na vida.
Os elogios de nota de imprensa de 1880 ressaltam suas qualidades como professor, tomada pela manifestação de alunos: “tem este jovem inteligente estudioso, conquistado a simpatia tanto de seus lentes, como de seus colegas. Muito lucraria o magistério se este ombreiro do progresso a ele se dedicasse tanto pelos conhecimentos que possui como pelas nobres qualidades de que é dotado”. E tudo isso decorreu de
apenas sessenta dias de exercício do magistério na pequena freguesia nos primeiros meses do ano letivo de 188Q, mesmo período em que ele publicou uma poesia de homenagem ao tricentenário de Camões, declamada em sessão solene no Teatro de São Luiz.

O que se vê, é que, vez em quando, vão surgindo novas “revelações da trajetória de Eduardo Ribeiro em sua terra natal, quando, ainda jovem e esperançoso, filiava-se ao positivismo e às crenças anticlericais com as quais formou trincheira com outros amigos a ponto de organizar, editar e promover um jornal a que deram o título de “O Pensador”, contestando a conduta da igreja católica apostólica romana e dos arraigados padres e cônegos da época, vivendo um período de verdadeira guerra de palavras, artigos, altos riscos, afrontas e desagravos.

Não é difícil imaginar o massacre que sofreu como jovem, afrodescendente, pobre, filho de negra livre, criado na periferia da cidade, por liderar oposição ferrenha aos ofícios da igreja e a seus seguidores quando a religião católica era a oficial do Império e a senhora de tudo e de todos.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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