“Sem permitir o famoso olho no olho, estas formas modernas de pedir voto (…), têm transformado o candidato em propagandista e o eleitor em quase, prateleira para a mercadoria eleitoral. 

Não faz muito tempo as eleições eram realizadas de uma só tacada e a demora, aliás, exagerada demora, se dava no processo de apuração que era manual, sem nenhuma segurança de que a verdade das urnas iria prevalecer, e sujeito a todo o tipo de interferência de poderes inescrupulosos. Graças a essa forma de apuração é que podem ser contadas as histórias do boto que engoliu urnas inteiras, do mapismo e “bico de pena”, das atas falsas, e as de mesários cabeçudos que enricaram “montando” mesa de contagem de votos, exatamente aquelas nas quais os fiscais eram sempre os mesmos e os candidatos-financiadores da “truta” delas não se afastavam um milímetro, dia após dia.

A campanha também era longa, confusa, sem clareza de propostas para o eleitor e quase sempre balizada por comícios que davam o tom da animação popular em defesa .do candidato, ainda que fosse uma corrente formada por cabos eleitores remunerados às escondidas da justiça eleitoral. As mais antigas tinham outra qualidade, porque os comícios levados a efeito em via pública reuniam o que havia de melhor entre os oradores, os quais não só encantavam o público como eram endeusados, conquistavam o eleitor, desafiavam os adversários a um embate de oratória e conhecimento dos problemas locais e nacionais. O povo, diante deles, aplaudia e reconhecia a qualidade de bem representarem o Estado nas casas legislativas e nos governos.

Naqueles anos havia uma certa magia que era bem explorada na relação dos partidos com seus filiados e o povo, e as disputas se davam mais no campo das ideias, na apresentação de propostas e na capacidade individual do candidato que ficava exposta, de surpresa, em discursos feitos de improviso para uma verdadeira multidão que comparecia às praças para vibrar e aplaudir, para ouvir, comentar e debater.

Foi nesse embalo que despontaram Plinio Coelho, Álvaro Maia, Áureo Melo, Arthur Virgílio

Filho, Almino Affonso, Bernardo Cabral, Júlio Cesar da Costa, Arlindo Porto, Francisco Queiroz, Josué Cláudio de Souza, Aldevio Praia, dentre tantos outros, personalidades que fizeram história e marcaram positivamente a tribuna popular.

Depois a estratégia dos partidos e a relação eleitor X candidato foi modificando, com José Esteves, Gilberto Mestrinho e toda uma outra geração que foi descobrindo novos caminhos e formas de convencimento e conquista do eleitor.

Mais recentemente é que o palanque eletrônico tomou conta das propagandas, e, nestas duas mais recentes, as redes sociais assumiram papel preponderante na forma e no meio de comunicação do candidato para com o cidadão, seja os conhecidos e próximos, como aquelas totalmente distantes e completamente desconhecidos.

Sem permitir o famoso olho no olho, estas formas modernas de pedir voto se impõem pela

presteza e pelo largo alcance, mas têm transformado o candidato em propagandista e o eleitor em quase prateleira para a mercadoria eleitoral, sendo possível vender “gato por lebre”, como diz a sabedoria popular.

O que mais desejo observar nesse canto de página, quase ao final desse processo eleitoral

para cargos federais e estaduais, é que a instituição de dois turnos em cidades com mais de duzentos mil eleitores, por imposição legal, se de um lado permite ao eleitor melhor possibilidade de escolha de bons políticos e de correção de rumos ainda na própria eleição, de outro lado aumenta a angustia do que disputam o sufrágio popular e, quem sabe, com isso, as ações desregradas que se transformam em agressão sobre agressão, de um lado para o outro, sem cessar e de forma crescente, conforme se aproxima a data do pleito.

As últimas eleições se transformaram em verdadeira dupla agonia para o eleitor e os políticos, pelo desdobramento de ofensas crescentes, desnecessárias, agora quase que completamente escondidas sob o manto do anonimato das redes sociais, nas quais cada pessoa é somente um código de Identificação, o famoso endereço de “ip”.

É como todos estamos agora, vivendo a agonia do segundo turno das eleições.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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