Bruno Molinero
*Bruno Molinero

1 – Com construções do século 19, Belém esconde a ‘Paris tropical’ do passado.

Em vez de barqueiros transportando cestos cheios de açaí pelo porto, quem estivesse em Belém no final do século 19 encontraria trabalhadores descarregando navios vindos da Europa com queijos franceses, vinhos e roupas finas.

Impulsionada pelo auge (e pelo dinheiro) do ciclo da borracha, a cidade vivia a sua “belle époque” e ganhava apelidos como “Paris tropical”.

O fim do látex decretou a decadência de Belém. Hoje, 400 anos após sua fundação, 86% dos turistas criticam a limpeza urbana e 83% deles reclamam da falta de segurança, segundo uma pesquisa da Secretaria de Estado de Turismo feita em 2014.

Mesmo assim, a capital paraense recebeu 640 mil visitantes em 2015 –pessoas que, ao andarem pela capital, certamente esbarraram em resquícios de seu apogeu, como o Theatro da Paz, construído em 1878.

A casa de espetáculos, que recebia óperas e peças estrangeiras, até hoje está em funcionamento e coloca em cartaz produções nacionais e um festival de ópera. O prédio, construído pelos barões da borracha, é aberto a visitação –ingressos custam R$ 6.

Na cidade velha, à beira do cais, o Ver-o-Peso é parada obrigatória. No mercado a céu aberto, é possível ver mulheres fazendo o tacacá (caldo de goma de mandioca), além de comprar castanhas, açaí, jambu e todo o tipo de produtos locais. Se a fome apertar, barracas vendem o famoso peixe com açaí –a fruta é servida amarga, sem o açúcar comum em São Paulo e no Rio.

Do outro lado da rua, fica o mercado de carnes, do século 19, que mantém as estruturas de ferro que emulam a arquitetura inglesa.

Um pouco mais à frente está um parque inaugurado em 2005, o Mangal das Garças. Com 40 mil metros quadrados e entrada gratuita, tem flamingos e lagartos soltos, além de um borboletário. Ideal para lembrar que, apesar da civilização da borracha, Belém segue no coração da Amazônia.

2 – Esse rio é minha rua.

O calor é de matar. Os termômetros marcam 40ºC, mas é a roupa grudada na pele suada que dá o melhor indício da temperatura. O sol amazônico castiga o asfalto de Belém, capital paraense cujo aniversário de 400 anos foi comemorado no último dia 12, e transforma a cidade em uma verdadeira estufa.

A falta de ventos, bloqueados pelos altos prédios que foram erguidos nos últimos anos, só deixa uma opção ao belenense e ao turista: pegar um barco, singrar os rios e descansar à sombra da mata de uma das 47 ilhas que formam a região metropolitana.

À medida que a embarcação se afasta da cidade pelas águas enlameadas do rio Guamá, os edifícios dão lugar a palmeiras de açaí e castanheiras que podem chegar a 80 metros de altura.

Ruas se transformam em igarapés e em furos –pequenos rios com casas à margem. As motocicletas se tornam rabetas (lanchas), enquanto ônibus viram os popopôs: barcos de madeira que transportam a população entre Belém e os arredores e que recebem esse nome por causa barulho repetitivo do motor.

Um dos principais destinos é a ilha do Combu. Nos fins de semana e feriados, moradores da cidade atravessam o 1,5 quilômetro que separam a capital e o lugar em busca dos diferentes restaurantes e bares para comer, beber e, é claro, dançar tecnobrega.

Lembre-se: estamos na terra de Joelma, Ximbinha (que adotou o “X” desde o fim da banda Calypso) e Gaby Amarantos. Mesmo na mata, o som dos pássaros rivaliza com a batida eletrônica.

Para o turista, uma das opções é o restaurante Saldosa Maloca (assim mesmo, com “L”), com comidas típicas como tambaqui na brasa (R$ 75, para duas pessoas) e o prato Dom Alcides (R$ 63, a porção individual), que leva arroz com jambu, um vegetal usado na gastronomia local que pode deixar a boca dormente.

Entre o almoço e a sobremesa, de preferência um picolé de açaí, é possível entrar no rio e se refrescar.

Seguindo pelas águas do furo, a mata passa a ficar mais densa e a abafar as caixas de som dos restaurantes. É onde está a propriedade de dona Nena, que planta cacau à beira do rio e produz um chocolate concentrado usado em receitas de restaurantes como os do chef Alex Atala, em São Paulo.

O visitante é recepcionado com uma mesa farta de café regional, feito por ela com produtos plantados ali. As visitas precisam ser agendadas pelo telefone (91) 99616-0648 e custam de R$ 40 a R$ 70.

Outros moradores também abrem as portas de suas casas, onde é possível conhecer de perto a vida dos ribeirinhos. Em Boa Vista do Acará, ainda no rio Guamá, é seu Ladir, 74, quem recebe os turistas.

Há mais de dez anos ele se senta em um banquinho no quintal e mostra castanhas-do-pará recém-caídas no solo a grupos curiosos. Com um facão, corta a casca até aparecer a carne branca da semente. As galinhas ficam em polvorosa para tentar roubar algum pedaço.

Após passar por igapós, áreas alagadas propícias para o nascimento de palmeiras de açaí, é hora do show de Ladir. Ele pega uma das folhas dessa árvore e a amarra aos pés. Usando-a como apoio, escala rumo ao topo do tronco, que pode chegar a mais de 20 metros de altura. “Só caí quatro vezes”, garante.

O pôr do sol é sinal de que é hora de voltar a Belém. No barco, à medida que prédios surgem no horizonte, não é difícil ver rabetas com caixas de som prateadas rumo às festas de aparelhagem, os famosos shows de tecnobrega. A noite está só começando no Pará.

*Comunicador. Matérias no Caderno Turismo da Folha de São Paulo, de 21/01/2016.
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