Esta semana fui convidado para uma palestra cujo tema vem chamando a atenção no mundo todo: a morte na pós modernidade. A ilusão da infinitude ainda causa expectativas para nós seres mortais do século XXI que acompanhamos tantos avanços na medicina, mas chegamos a um ponto que precisamos tratar a morte como uma aliada e não adversária.

A vida faz parte de um complexo contexto biopsiquicosocial a qual sofre várias influências para a manutenção do nosso corpo e mente, desde a concepção estamos no processo de envelhecimento e temos o grande desafio de nos mantermos vivos durante esta caminhada. Nossa geração já conta com uma expectativa de vida acima dos 75 anos, o que não era possível há pouco tempo atrás e apesar do investimento em qualidade de vida nunca teremos a garantia do ciclo básico aguardado por todos, nascer, crescer e morrer.

Por falar na morte, hoje quero abordar sobre a distanásia, cujo significado em grego quer dizer o afastamento da morte, uma prática médica de prolongamento inútil ou artificial da vida mesmo sem chance de cura da enfermidade. Neste processo o paciente já se encontra em processo natural de óbito, mas a equipe médica tenta a todo custo manter a vida do paciente por meios artificiais e muitas vezes em sofrimento.

Sou médico há mais de 50 anos e professo minha fé na religião católica e acredito que somente a divindade pode decidir sobre nosso último suspiro, mas o que temos percebido é o mercantilismo para manter a vida de pacientes em fase terminal, seja com exageros em aparatos de aparelhos, seja em tratamentos terapêuticos.

Inclusive, compartilho com vocês a experiência que tive com meu querido pai, há19 anos com 90 anos de idade sofreu uma queda brusca e teve uma parada cardíaca, ao levá-lo para hospital constatamos uma grande quantidade de sangue na caixa craniana através de tomografia, ou seja, um aneurisma cerebral grave. Decidi com apoio da minha família retirar o aparelho e deixar o curso natural da vida, pois já sabíamos que não tinha como reverter o processo.

Hoje já temos o trabalho dos cuidados paliativos para pacientes em fases terminais, onde há o cuidado pela integridade física do paciente, levando em conta o seu bem-estar emocional e todo um trabalho humanitário

possibilitando uma vida digna e não apenas sobrevida. O cuidado paliativo também se estende a todos os pacientes que enfrentam qualquer doença que ameaça a vida e disponibiliza tratamento multidisciplinar para alívio da dor e sofrimento, uma visão integrativa que cuida não somente do físico, mas principalmente proporciona o melhor conforto e tranquilidade ao paciente.

Portanto, precisamos falar da morte e aceitá-la, viver uma vida extraordinária e agradecer por este belo privilégio. Sabendo viver estaremos preparados para quando chegar o grande dia em que a chama da vida lentamente se extinguirá. Boa Vida!

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Euler Ribeiro
Amazonense, de Itacoatiara. Formado em Medicina em Belém (PA), o médico geriatra completou os estudos em SP e nos EUA. Foi secretário de Saúde do Estado e deputado federal. Fundador da Universidade Aberta da Terceira Idade (UnATI), ligada à Universidade Estadual do Amazonas (UEA). Membro das academias amazonenses de Letras e de Medicina.

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