Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Continuando nossa safra de ilustres colaboradores, recebo mais uma vez com muita alegria aqui no blog um texto do professor Walter Carnielli, do Centro de Lógica e Epistemologia e do Departamento de Filosofia da Unicamp. A seguir, ele traça uma pequena história do negacionismo científico e dos fatores que nos colocaram no atual buraco comunicacional entre a ciência e o mundo da política. Uma das chaves do rolo todo? “Follow the money”, siga o dinheiro. Confiram.

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Do ceticismo sadio à dúvida venenosa: como se planta o negacionismo da ciência

Em tempos modernos, tanto como nos velhos tempos, a ciência continua gerando polêmica, e as atitudes públicas em relação à ciência parecem mais uma vez se polarizar. Em vários momentos da história – por exemplo, quando Galileu Galilei defendeu o modelo heliocêntrico, ou quando Darwin introduziu a teoria da evolução por seleção natural – a ciência e a religião estiveram em rota de colisão.

Nicolau Copérnico e Galileu Galilei tiveram seus livros banidos. Copérnico só não enfrentou perseguição porque morreu pouco depois de publicar seu livro De revolutionibus orbium coelestium (Das revoluções das esferas celestes) em 1543. Mas Galileu foi julgado pela Inquisição depois que seu livro Sidereus Nuncius (Mensageiro Sideral) foi publicado em 1610, e só não foi para a fogueira porque era amigo do Papa Urbano 8º, seu grande admirador. Ambos, Copérnico e Galileu, sustentavam a mesma teoria de que a Terra girava em torno do Sol, uma teoria agora reconhecida como verdadeira por quase todos, menos pelos terraplanistas. A Igreja desaprovou essa teoria porque as Escrituras Sagradas afirmam que a Terra está no centro, não o Sol. Com o conteúdo da Bíblia levado ao pé da letra, os livros provavam para a Igreja que Copérnico e Galileu eram pecadores; eles pregavam, através de seus escritos, que a Bíblia estava errada.

Mas não é só da Igreja que vem a guerra contra a ciência; existem verdadeiras políticas anticientíficas, como a supressão da pesquisa genética da União Soviética com Trofim Lysenko, diretor de biologia de Stalin, que negava a existência de genes, afirmando que as características adquiridas são herdadas e que a hereditariedade pode ser alterada “educando” as plantas. Lysenko rejeitava particularmente a genética desenvolvida por Gregor Mendel e Thomas Hunt Morgan, por ser idealista e um produto do “capitalismo burguês”.

A “ciência” soviética promovia uma forma neolamarckiana de evolução baseada no trabalho do compatriota Ivan V. Michurin, como aquele caso clássico da evolução lamarckiana que sustentava que as girafas esticam muito seus pescoços para comer, e depois passam essa característica para sua prole direta. Na Alemanha nazista a “Deutsche Physik” (Física Alemã) ou “Arische Physik” (Física Ariana) foi um movimento nacionalista pseudocientífico na comunidade alemã de física no início dos anos 30 que se opunha ao trabalho de Albert Einstein, rotulado de maneira depreciativa como “Jüdische Physik”, ou física judaica.

Em 6 de novembro de 2012, quando já estava preparando o terreno para sua corrida presidencial, Donald Trump tuitou sobre as mudanças climáticas, afirmando que “o conceito de aquecimento global foi criado pelos e para os chineses a fim de tornar a indústria dos EUA não-competitiva”.

O negacionismo climático no Brasil, ou ceticismo climático, já é programa de governo: trata-se do movimento, em âmbito nacional, de negação total ou parcial do consenso internacional dos climatologistas a respeito da realidade do aquecimento global, da sua origem humana e da sua gravidade, contradizendo as pautas da ECO-92, sediada no Rio de Janeiro e durante a qual foi firmada a Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.

A atitude contraria ainda a participação do Brasil junto ao Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em inglês. A manchete do jornal britânico The Guardian de 15 de novembro de 2018 já anunciava ao mundo, a respeito da nova indicação do Ministro Ernesto Araújo: “Novo ministro das Relações Exteriores do Brasil acredita que mudança climática é uma conspiração marxista”.

O negacionismo climático tem um grande poder político e econômico nos EUA, sendo promovido por grupos conservadores e ultraconservadores com uma verba bilionária, ligados principalmente à indústria do petróleo. Mas há muitos outros exemplos de que o mundo tem vivenciado uma crescente negação de fatos históricos. Slogans como “o Holocausto nunca existiu”, “o nazismo é de esquerda”, “a ditadura militar foi branda” e “nunca houve genocídio indígena” se popularizam nas conversas de rua e nas redes sociais. E movimentos como o terraplanismo e o criacionismo pretendem ser “alternativas” à ciência em detrimento da teoria cosmológica vigente e da evolução por seleção natural, segundo a teoria de Darwin.

“A ciência é apenas uma entre muitas opiniões”

Inúmeros fatores contribuem para o aumento deste fenômeno no Brasil e no mundo, e o problema não envolve somente as ciências naturais. Entre 7 e 9 de maio de 2019, o Departamento de História e o Programa de História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo organizaram o evento científico “Negacionismos e Revisionismos: o conhecimento histórico sob ameaça” para discutir o fenômeno negacionista recente no campo da História, bem como o lugar dos revisionismos para o conhecimento histórico.

Mas, curiosamente, o negacionismo quase não envolve as ciências formais, como a matemática, a lógica, a teoria da computação ou a teoria quântica de campos, a estrutura matemática e conceitual da física de partículas elementares. E essas teorias têm conclusões inesperadas, que ferem a intuição ingênua e são verdadeiros golpes na “certeza determinística”, como o primeiro Teorema da Incompletude de Kurt Gödel de 1936, que mostra que sempre haverá alguma afirmação verdadeira na matemática (em relação aos números naturais) que não pode ser provada.

Outro caso é o princípio da incerteza de Heisenberg ou princípio da indeterminação, articulado pelo físico alemão Werner Heisenberg em 1927, de que a posição e a velocidade de um objeto não podem ser medidas exatamente, ao mesmo tempo, nem em teoria e muito menos na prática. Essas teorias raramente são objeto de negacionismo, com poucas exceções. Por exemplo, uma das mais simples e diretas surpresas matemáticas é a demonstração de Georg Cantor de que o conjunto de números naturais pares e o conjunto de todos os números naturais são do mesmo tamanho. Num de seus livros, Olavo de Carvalho tentou “provar”, sem sequer entender o argumento matemático, que Cantor estava errado, recebendo o ilustre título de “lunático” (crank) pela comunidade matemática. Qual seria a razão de o negacionismo atingir diferentemente partes diferentes da ciência?

O próprio Albert Einstein odiava a teoria quântica por causa da sua aleatoriedade essencial, que sua tendência determinista não podia aceitar. Nesse ponto ele discordava diretamente de Niels Bohr sobre a interpretação da mecânica quântica: “Deus não joga dados”, como famosamente declarou. Talvez a principal razão pela qual os fundamentalistas religiosos ainda não tenham atacado a teoria quântica, a lógica ou a matemática seja que eles sabem muito pouco sobre elas. É mais fácil falar sobre primatas.

O negacionismo, quando ataca, apresenta uma mistura de dúvida corrosiva e credulidade obsessiva, e tem raízes mais profundas que apenas o conservadorismo político ou a religiosidade. O estudo Not All Skepticism Is Equal: Exploring the Ideological Antecedents of Science Acceptance and Rejection (Nem todo ceticismo é igual: explorando os antecedentes ideológicos da aceitação e rejeição da ciência, ver referência) identifica quatro principais fatores que levam ao negacionismo: ideologia política, religiosidade, moralidade e desconhecimento sobre ciência. Essas variáveis tendem a se correlacionar e a se confundir.

O estudo descobriu que nem todo negacionismo está relacionado à ideologia política ou a crenças religiosas, mas é também consequência do desconhecimento científico: quanto pior as pessoas se saíam no teste de alfabetização científica, mais indecisos eram sobre a segurança dos alimentos geneticamente modificados, por exemplo. O ceticismo sobre vacinas também não tinha relação com a ideologia política, mas era mais forte entre os participantes religiosos, com uma relação particular com as preocupações morais sobre vacinação ser algo natural ou não.

O estudo concluiu basicamente que, com exceção do ceticismo das mudanças climáticas, a desconfiança da ciência não é tão devida à ideologia política quanto se pensa. Os resultados também sugerem que o ceticismo científico não pode ser remediado simplesmente aumentando o conhecimento das pessoas sobre ciência: algumas pessoas relutam em aceitar descobertas científicas específicas, por várias razões.

Quando a ciência entra em conflito com as crenças fundamentais de uma pessoa, ela geralmente perde. Por exemplo, para muitos aceitar a evolução significa rejeitar Deus; o povo tende a um comportamento de formação de bolhas epistêmicas quando pensa que a ciência está “atacando” suas crenças. Um grande número de estudos psicológicos mostrou que as pessoas muitas vezes respondem a evidências científicas ou técnicas com um viés cognitivo que justifica suas crenças pré-existentes.

“A dúvida é nosso produto”

Mas há um fator que esse estudo não leva em conta: o poder de (e o interesse em) se plantar dúvidas, regada a muito dinheiro. Esse fator foi desnudado pelos historiadores da ciência Naomi Oreskes e Erik M. Conway, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), que lançaram em 2011 nos Estados Unidos o livro Merchants of doubt – How a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming (Mercadores da dúvida – Como uns poucos cientistas ocultaram a verdade em temas que vão do cigarro ao aquecimento global). O livro mostra, com abundância documental, como a “estratégia do tabaco”, que consistia em empregar cientistas para levantar dúvidas sobre a relação entre o hábito de fumar e os riscos para a saúde, teve sucesso. O livro originou um documentário de 1h36, Merchants of Doubt, dirigido por Robert Kenner.

Os resultados científicos são sempre provisórios, suscetíveis de serem derrubados por algum experimento ou observação futura. Os cientistas raramente proclamam uma verdade absoluta ou certeza absoluta. A incerteza é inevitável nas fronteiras do conhecimento. “A ciência não é um conjunto de fatos”, como disse a geofísica Marcia McNutt, editora da prestigiosa revista Science. “A ciência é um método para decidir se o que escolhemos acreditar tem uma base nas leis da natureza ou não.”

A verdadeira ciência é fundada na dúvida sadia e na ideia de mudança. Na ciência experimental, usualmente se parte de uma hipótese nula que depois poderá ser refutada para provar a hipótese experimental alternativa que está sendo testada. Isso está intimamente ligado à noção de falsificabilidade, defendida por Karl Popper.

Em seu famoso Conjecturas e Refutações, Popper sustenta que a falsificabilidade deve ser tomada como o critério de demarcação que separa a ciência da pseudociência. A falsificabilidade significa que, para estudar alguma coisa, devemos pelo menos ser capazes de imaginar um cenário ou um resultado no qual o que estamos tentando provar possa estar errado. Um exemplo de um tópico não falsificável é a astrologia. Astrólogos geralmente expressam suas previsões de maneira tão vaga que elas nunca podem estar erradas e, portanto, não são falsificáveis, nem científicas.

Os “mercadores da dúvida” usam o grau de incerteza presente em todo estudo estatístico para plantar dúvidas sobre qualquer conclusão que questione as práticas da livre iniciativa. O livro mostra como a estratégia do tabaco tinha em princípio um quinto fator, diferente dos quatro principais fatores que se considera que levam ao negacionismo. Esse quinto fator é o interesse do mercado, reutilizado no negacionismo do aquecimento global e também na indústria de alimentos que segue a estratégia do tabaco (ver referências).

O capítulo 6 do livro de Oreskes e Conway, sobre “a negação do aquecimento global”, mostra como se podem comprar cientistas tidos como respeitados pelas academias de ciências para fabricar dúvidas sobre a própria ciência. A estratégia é simplesmente plantar o que se pode chamar de “dúvida venenosa”, muito diferente, por exemplo, da dúvida cartesiana – uma forma de ceticismo metodológico difundida por René Descartes, filósofo, matemático e cientista que influenciou Isaac Newton, em suas Meditações sobre Filosofia Primeira de 1641.

A dúvida venenosa, diferentemente da dúvida metodológica de Descartes que é fundadora da ciência, apresenta-se falsamente como libertadora: “Nós ainda não sabemos”, “precisamos de mais pesquisa”, pregam os mercadores da dúvida – alegando falaciosamente que se uma teoria científica não é perfeita, como quase sempre acontece, então qualquer um tem o “direito” de apresentar sua alternativa.

Sem dúvida, a ciência se renova. Como mostra Thomas Kuhn em A Estrutura das Revoluções Científicas, as revoluções científicas estão sempre acontecendo, mas o método da ciência é substituir uma teoria por outra mais completa, menos imperfeita, mais simples, ou mais geral, mas não por qualquer coisa que sirva a interesses de certos grupos. O grande e crucial problema é que a alternativa interesseira muitas vezes não é uma teoria, mas simplesmente um conjunto desarticulado de crenças enviesadas!

E como essas crenças se tornam “científicas”? Participando de debates, mesmo sendo massacrada em reuniões científicas, artigos, entrevistas etc. O que importa é que a partir daí a “teoria” alternativa, seja ela o criacionismo, a terra plana, a fábula de que vacinas causam autismo, de que o vírus de SARS-CoV-2 foi criado na China para destruir o capitalismo, a narrativa do clima como uma conspiração marxista, ou a eficiência da cloroquina contra a COVID 19, passa a ter um estatuto de igualdade com as teorias verdadeiramente científicas.

A dúvida venenosa almeja substituir a ciência por algo mais conveniente, e é por isso que não se pode debater com a “ciência” alternativa plantada, maldosa e calculista. Tenta vender como “revolução científica” o que é nada mais que um embuste, em geral temperado com um princípio ideológico, característico da moderna política conservadora e libertária, ressaltando o “direito” à liberdade de se apresentar uma ciência alternativa.

A negação da ciência é uma forma perversa de pseudociência, que envolve a fabricação persistente de controvérsias falsas, interesse econômico e conexão com várias formas de política de direita. “A dúvida é nosso produto”, esclarecia um memorando interno de 1969 da Brown & Williamson, subsidiária da R. J. Reynolds Tobacco Company, “pois é o melhor meio de competir com o ‘corpo de fatos’ que existe na mente do público em geral”. Continua sendo.

Referências

Bastiaan T. Rutjens, Robbie M. Sutton e Romy van der Lee. Not All Skepticism Is Equal: Exploring the Ideological Antecedents of Science Acceptance and Rejection.

Personality and Social Psychology Bulletin, 2017; DOI: 10.1177/0146167217741314.

Joel Achenbach. Why Do Many Reasonable People Doubt Science? – National Geographic Magazine, March 2015, online.

Alan Beyerchen. Scientists under Hitler: Politics and the physics community in the Third Reich. New Haven, CT: Yale University Press, 1977.

Naomi Oreskes e Erik M. Conway. Merchants of Doubt: How a Handful of Scientists Obscured the Truth on Issues from Tobacco Smoke to Global Warming. Bloomsbury Publishing PLC, 2011.

Naomi Oreskes, Stephen Macedo, Ottmar Edenhofer, Jon Krosnick e Marc Lange. Why Trust Science? Princeton University Press, 2019.

Marcos Pivetta Negar para não mudar. Revista FAPESP Edição 175 , setembro de 2010 https://revistapesquisa.fapesp.br/negar-para-n%C3%A3o-mudar/

David Michaels. Doubt Is Their Product: How Industry’s Assault on Science Threatens Your Health. Oxford University Press, 2008.

Karl Popper.Conjecturas e Refutações. Almedina, 2003.

Kelly D Brownell e Kenneth E Warner. The Perils of Ignoring History: Big Tobacco Played Dirty and Millions Died. How Similar Is Big Food? Milbank Quartely 87(1): 259–294, 2009

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Walter Carnielli é professor e pesquisador do Centro de Lógica e Epistemologia e do Departamento de Filosofia da Unicamp e Vice-Presidente do IA2- The Advanced Institute for Artificial Intelligence, São Paulo.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ciência, de 04/08/2020.
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