Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Descendentes do Abraão bíblico acharam um porto seguro deste lado do Atlântico.

No fim do século 15, espanhóis e portugueses se tornaram os primeiros europeus a alcançar os “novos mundos” da América (em 1492) e da Índia (em 1498), mas a glória dessas façanhas coincidiu com manifestações renovadas do que havia de pior no mundo antigo e medieval.

Com efeito, nesses mesmos anos, os monarcas da Espanha e de Portugal forçaram as antigas e numerosas comunidades judaicas de seus países a escolher entre três opções devastadoras: a execução, o exílio e a conversão à fé católica.

A maioria das centenas de milhares de judeus ibéricos acabou abandonando a religião de seus ancestrais, mas isso não impediu que esses “conversos” ou “cristãos-novos” sofressem perseguição e discriminação ao longo dos dois séculos seguintes, o que incluía restrições legais contra a vinda deles para os territórios recém-descobertos nas Américas.

 

Filhos de Abraão

Interior de sinagoga em Portugal Boaz Gabriel Canhoto/Wikimedia Commons

Ao menos nesse último ponto, porém, as táticas genocidas adotadas pelos impérios espanhol e português fracassaram feio. Um novo estudo genômico sugere que há uma quantidade imensa de descendentes de judeus deste lado do Atlântico, da Cidade do México ao Chile, passando por Porto Alegre.

Os dados, que acabam de ser publicados na revista científica Nature Communications, foram obtidos a partir de amostras de DNA de mais de 6.500 brasileiros, chilenos, colombianos, mexicanos e peruanos.

Coordenado por Juan-Camilo Chacón-Duque, do University College de Londres, o estudo contou também com a participação de pesquisadores como Tábita Hünemeier, da USP, e Maria Cátira Bortolini, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

O que os pesquisadores fizeram foi analisar cerca de 500 mil variantes de uma só “letra” química do DNA (no total, o material genético humano contém 3 bilhões de pares dessas letras) em cada um dos milhares de indivíduos estudados. Essas variações de uma letra só, conhecidas como SNPs (pronuncia-se “snips”), tendem a se agrupar em conjuntos característicos dependendo da região de origem de cada pessoa no planeta, o que ajuda a estimar de onde vieram os ancestrais de cada voluntário do estudo, e também, é claro, se a pessoa descende de gente de várias regiões diferentes, o que é tremendamente comum na população muito miscigenada da América Latina.

Como os pesquisadores sabem de onde vêm os SNPs dos latino-americanos? Comparando-os com “bibliotecas” de SNPs de populações do resto do mundo, é claro. E isso nos leva à principal surpresa do estudo: quase um quarto dos indivíduos estudados nas Américas possui mais de 5% de ancestralidade classificada como “sefardi” (grupo dos judeus de origem espanhola e portuguesa) ou “do Mediterrâneo Oriental e Meridional” (o que inclui grupos árabes e do norte da África). Nesse conjunto, a contribuição genética judaica sefardi predomina.

Predomina, mas não é a única, e isso faz bastante sentido quando se considera outro elemento-chave da história da península Ibérica: os séculos de dominação muçulmana (implantada, é claro, por exércitos islâmicos do norte da África com alguma presença árabe).

Aliás, foi só em 1492, no ano em que Colombo avistou as ilhas do Caribe pela primeira vez, que os chamados Reis Católicos da Espanha conquistaram Granada, o último reino muçulmano da Europa Ocidental. Nos séculos seguintes, os seguidores do Islã passaram pela mesma história de perseguição que afetou os judeus. Israelitas e árabes, ambos considerados descendentes do Abraão bíblico, acabaram achando um porto seguro conjunto deste lado do Atlântico.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 30/12/2018.
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