A decisão em celebrar o centenário de nascimento de Djalma Batista, confirma que a Academia é a guardiã da memória dos homens de pensamento, principalmente daqueles que aqui emprestaram parcela ponderável do seu talento e saber. Djalma Batista foi também homem de ação, com tirocínio reconhecido como professor da Universidade, Diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o INPA e Presidente desta Casa. Por onde passou disseminou seriedade e espírito público. Jamais se afastou desse estilo de vida. É, portanto, com enorme alegria que realizo a tarefa reservada para mim nesta solenidade, pela Presidente Rosa Mendonça de Brito.

Este seminário visa estudar os vários ângulos da personalidade e da ação do mestre Djalma Batista. Vou cuidar de suas preocupações com os temas de cultura e arte a que se dedicou desde moço, como veremos ao longo desta exposição. Sua obra mais abrangente, no entanto, realizou-se com a análise do meio ambiente e do desenvolvimento regional, enfeixada em O complexo da Amazônia, livro realizado sobre os seguros alicerces de uma vasta bibliografia, composta pela produção intelectual de artistas, cientistas e viajantes, que andaram pela região e dela se ocuparam em seus estudos.

Acompanhei de perto a elaboração desse livro. O Dr. Djalma escrevia a máquina e revisava os seus textos com caneta ou lápis, acrescentando aqui e ali uma palavra ou tornando mais expressiva uma frase ou um período. Muitas vezes cheguei em sua biblioteca e o encontrei martelando em sua velha remington, na elaboração de O complexo da Amazônia. A competente bibliotecária Algenir Ferraz Suano da Silva, organizadora e fundadora da Biblioteca do INPA, cuidava da bibliografia levantada sob a orientação do mestre. Prontos, os originais foram passados a limpo pela exímia datilógrafa Marta Lima, sob a minha modesta supervisão, cheio de dedos porque pressentia que ali devia estar nascendo um dos clássicos da Amazônia.

Outro fato sobre o Dr. Djalma que eu andava por perto quando sucedeu, foi a definição do novo nome da Avenida que leva o seu nome, aberta na parte mais nobre de Manaus. Com a expansão da cidade naquele rumo, o poder público decidiu ampliar a Rua João Alfredo e transformá-la numa via de acesso a vários bairros da zona Centro-Sul. Pronta a obra, houve necessidade de mudar-lhe o nome, visto aquela rua ter deixado de existir com a ampliação da área que deixou de ser rua e passou a ser uma avenida. Foi quando o professor José Lindoso, então Governador do Estado, no período de 1979 a 1982, sugeriu-lhe o nome e assim ficou a Avenida Djalma Batista.

Mas neste seminário, outro confrade deverá ocupar-se de O complexo da Amazônia e das visões de Djalma Batista como pesquisador da vida e da natureza regionais. Minha tarefa resume-se ao exame dos estudos nos domínios da cultura e da arte.

O Dr. Djalma foi um homem sóbrio e discreto. Não era de expansões efusivas, conquanto fosse gentil e acolhedor com as pessoas que o procurassem para um atendimento médico, ou em busca do conhecimento e do saber. Recebia na biblioteca de sua casa, ali na Praça do Congresso, discípulos e candidatos à república das letras, mas sem as referidas expansões efusivas, mas sem os amuos do escrevinhador provinciano. Quem sabe por ter sido assim, discreto e reservado, a sua obra literária tenha-se resultado sóbria e sintética, também? Seu livro mais volumoso continua sendo O complexo da Amazônia, porque as questões de cultura e arte compõem uma série de apenas 5 trabalhos, reunidos em um pequeno volume intitulado Amazônia Cultura e Sociedade (Editora Valer, Manaus, AM) , com 180 páginas, organizado por seus herdeiros em 2006, consultado neste artigo.

O primeiro trabalho plantado nesse livro, segundo o índice, é a conferência Letras Amazônicas, proferida quando cursava a tradicional Faculdade de Medicina da Bahia. Lá funcionava, por iniciativa dos próprios acadêmicos, um surpreendente e ativo Centro de Estudos Amazônicos que patrocinou o evento. Mais tarde a conferência foi publicada num folheto editado em Manaus, em 1938, nos 22 anos de idade do autor. O livro trás, igualmente, outros trabalhos como o ensaio Cultura amazônica, publicado na revista da AAL, em maio de l955; a conferência Ideias gerais sobre a ecologia do homem amazônico, pronunciada no Teatro Amazonas, a convite dos estudantes de Manaus, que promoviam uma Semana de Estudos e Debates, publicada, também, na revista da AAL, em 11 de maio de 1963; Da habitabilidade da Amazônia, originalmente apresentado no Fórum sobre a Amazônia, promovido no Rio de Janeiro, pela Casa do Estudante do Brasil, de 25 a 30 de setembro de 1963, publicado pelo INPA, número 4 da série Cadernos Amazônicos; e, finalmente, Brancos e índios na formação da Amazônia, ensaio estampado no número 16 da revista da AAM, em dezembro de l974.

Na história das ideias, cultura e arte se completam nos atos de transformação da geografia e do meio ambiente, no processo de integração do homem em sociedade e nas mudanças de comportamento. As manifestações culturais se afirmam por meio do trabalho do homem insatisfeito com a realidade que o redeia. Todas as vezes que se observa a presença do homem numa situação dessas, vê-se, também, que o espaço da sua vivência transformou-se, na conquista de renovação do mundo. De outro modo, para que se materializem plenamente esses impulsos, – tal como se faz no preparo da terra à germinação de flores e frutos, – é necessário que se busquem as ferramentas do fazer e do anunciar, na alegria do trabalho, fenômeno que se manifesta na expressão das várias formas de arte. Nesse sentido o processo cultural de um povo legitima-se com a prática da dança, do teatro, do cinema, da literatura, das artes plásticas, da música e da arquitetura, isso tudo que, em síntese, é a revelação material da poesia. Outros instrumentos há que também funcionam nas manifestações culturais, como a pesquisa e a aplicação da ciência na melhoria da vida. Neste artigo estamos cuidando apenas da arte como expressão de cultura, na linha traçada pelo próprio Dr. Djalma que, às páginas 73 do seu livro Amazônia Cultura e Sociedade, afirma que nesse trabalho vislumbra a cultura dentro do conceito antropológico.

Nessa linha de pensamento, vamos apreciar a obra a partir dos assuntos abordados em cada parte do livro e não na ordem em que os trabalhos foram relacionados no índice.

No ensaio sobre a ecologia do homem amazônico, começa logo por afirmar que

A interação homem-meio é de longa data conhecida e discutida magistralmente nos primeiros capítulos do famoso livro de Araujo Lima, Amazônia, a terra e o homem. (p. 99)

O saber de Djalma Batista, como demonstra a citação acima, repousa nas qualidades do grande leitor que era ele, e na pesquisa dos fatos examinados, em consequência de sua formação profissional.

As mudanças praticadas pelo índio, o primeiro homem a habitar as florestas e os rios da Amazônia, ao converter um tronco de árvore num meio de transporte, mudar um punhado de argila num recipiente de uso no dia a dia de sua vida, construir um abrigo para se proteger da chuva e do sol, tudo isso constituem atos de cultura, praticada pelo primeiro habitante da região.

Aí chegou o conquistador e, segundo Djalma Batista, trazendo consigo as suas mazelas, as doenças, a ambição, a violência, dizimando populações inteiras ou submetendo-as a um processo de aculturação precário. Nessas áreas indígenas a condição do meio ambiente não permitiu que se implantasse aqui uma experiência civilizacional como os Incas.

O colonizador, ao se fixar na Amazônia, percebeu que ele teria de aprender com os seus primeiros habitantes como lidar com a umidade, o calor, as adversidades provenientes de uma natureza monumental, na maior bacia fluvial de água doce e a maior floresta do planeta.

Aprendeu como se alimentar, com os produtos da caça, a pesca e a coleta de frutos, folhas medicinais e lianas cheias de água. A população foi forçada a conceber uma arquitetura mais condizente com o meio, roupas adequadas, a camisa leve no lugar do fraque, e, hoje, o equipamento de sofisticada tecnologia que é o sistema de ar-condicionado.

Aí vai um mínimo retrato do aspecto material da cultura, abordado por Djalma Batista. E no terreno das ideias, como foi? A resposta está na conferência intitulada Letras da Amazônia. Quase sempre a arte é expressão da cultura e, ao mesmo tempo, uma forma de interferência nas mudanças da vida como se dá na Literatura, na concepção de Djalma Batista.

Nesse trabalho ele traça um amplo panorama de tudo o que se escreveu sobre a região até aquela data, prosa, verso e prosa de ficção, desde os idos da conquista, iniciada com a viagem de Francisco de Orellana que revelou a região para o mundo. Refere-se ao movimento cultural assinalado por homens da projeção mundial de La Condamine, Wallace, Bates, Humboldt e Agassiz. Compõe um hino de louvor aos encantos da terra, a que denomina de feiticeira e boa, que atraiu esses intelectuais. Chama a atenção para a formação do homem novo sedimentado pelos rios e pela floresta, o heroísmo de sua vida nos recantos mais impressionantes da região.

No exórdio entusiasmado dessa conferência, Djalma Batista, exalta ainda o vigor e a coragem desses homens, bendiz os escritores amazônicos, artistas e cientistas, de ontem e de hoje, na produção de uma literatura que honra a inteligência brasileira, ainda que, nos primórdios tenha sido expressada por espanhóis que foram os seus primeiros cronistas, frei Gaspar de Carvajal, batizado por ele de o Pero Vaz de Caminha da Amazônia e o padre Cristóbal Acuña, entre tantos eclesiásticos jesuítas, carmelitas e mercedários, que por aqui estiveram em sua missão evangelizadora, pondo em destaque a figura de Samuel Fritz, a quem chamou de soldado de Cristo e de Loyla.

Cita, ainda, na categoria de primeiros cronistas, Martius e Von Spix, Castelnau, Wallace, Chandles e Frederico Hart, nomes que não refere numa rasa e simples relação episódica, mas para relatar uma visão essencial sobre as atividades de cada um. Tal como relaciona, ainda, Emílio Goeldi, Jacques Hubert, Koch-Grünberg, Mme. Coudreau e o Dr. Hamilton Rice.

Por falta de espaço e com receio de parecer enfadonho, não vou me referir a todos os escritores e poetas examinados nessa conferência, melhor seria que a lêssemos no original, disponível no citado Amazônia Cultura e Sociedade.

Gostaria, no entanto, de destacar alguns nomes em particular, das personalidades estudadas por Djalma Batista, estas que não são poucas, sem medo de parecer parcial, visto tratar-se de uma simples amostragem: Euclides da Cunha, Alberto Rangel, Alfredo Ladislau, Araujo Lima, Péricles Moraes, Álvaro Maia e Jonas da Silva.

O primeiro é Euclides da Cunha que o Dr. Djalma situa entre os mais expressivos estudiosos da região, pelo seu porte majestático, um nome que ocupa a primeira plana das letras nacionais. (p. 21)

Diz ainda:

Foi Euclides quem lhe deu nexo, traçando diretrizes seguras aos estudos amazônicos, depois de enfrentar, vitoriosamente, como já o fizera magistralmente com os sertões. (p.22)

Euclides da Cunha, na opinião de Djalma Batista, realizou a mais poderosa síntese que já foi possível fazer sobre a Amazônia (p. 22), até então observada por meio de estudos desconexos e fragmentados pelos primeiros estudiosos da região, europeus e brasileiros. É considerado um clássico da Amazônia e o seu estilo, aclimatado pela aspereza dos sertões e a agressividade da terra sem história, segundo apurou, multiplicou-se no modo de escrever dos amazônidas, entre os quais sobressaem dois nomes aureolados: Alberto Rangel e Alfredo Ladislau. (p. 23)

Alberto Rangel celebrizou-se com o também clássico Inferno Verde. É um livro que reúne contos, onde aparecem textos lavrados na cadência de crônicas e pequenos ensaios sobre a natureza e o homem da região. Sintomaticamente, o livro que é, enfim, uma análise exemplar da vida amazônica, vem encimado por um longo prefácio de Euclides da Cunha. As qualidades do livro, no entanto, revelam-se por meio do estilo, esse que é o maior ideal a ser alcançado pela arte literária.

Fato, ainda, que se observa em Alfredo Ladislau, no consagrado Terra imatura, no dizer de Djalma Batista, o mais bonito poema em prosa que já se fez sobre a Amazônia. (p.25)

Em verdade é um belo poema, tal qual um vasto painel se o autor desse livro fosse um artista plástico, ou um poema sinfônico se ele fosse músico.

Situemos Terra Imatura nas indagações do seu tempo.

Por volta das primeiras décadas do século passado na Europa, chegava ao auge o movimento expressionista que se expandiu mais na pintura e que se revelou também na literatura, acrescentando à rudeza do realismo as visões construídas sob o impulso das emoções. Esse espírito chegou  à Amazônia e marcou grande parte dos seus maiores intérpretes.

O cearense de Guaramiranga ao chegar à Amazônia, movido por esse espírito, foi tocado pela paisagem e os mistérios da região e produziu o seu livro mais importante. No estilo ele traz sim as marcas de Euclides da Cunha, na forma empolgante e o preciosismo vocabular em dizer as coisas.

Araujo Lima, o quarto autor citado nesta sequência, autor do clássico Amazônia, a terra e o homem, tem a seguinte avaliação do nosso homenageado:

É do fator humano que Araujo Lima faz o fulcro de suas deduções sobre a Amazônia, estudando-o sob o critério seguro, firmado através de uma sólida formação cultural, em que sobressai a sua rara imparcialidade científica e a sua destemerosa réplica aos depreciadores do homem amazônico. (p. 27)

Fala, em seguida, de Péricles Morais, em seu juízo a mais autêntica vocação de crítico literário de sua época. Possui uma visão universal das questões literárias e a manifesta por meio de uma prosa ao mesmo tempo precisa e bela.

O simbolismo deu-se no Brasil como um fenômeno poético. Na prosa há poucos exemplos de expressão simbolista, embora tenha havido intérpretes do período que se ocuparam mais notadamente da poesia simbolista. A obra de Péricles Moraes é um exemplo de prosa simbolista em seus ensaios e análises críticas. Em seus textos predomina a emoção, numa linguagem cheia de música, tendo sido a música objeto igualmente de suas preocupações intelectuais.

Péricles Moraes foi um escritor profissional no sentido de cultivar as letras como sentido primeiro de sua vida. Empreendeu duas viagens à França, Paris, e lá fez contacto com Remy de Gourmont, o mais notável crítico do período simbolista francês, tendo com ele firmado boa correspondência.

Nas letras nacionais não conviveram lá muito bem os simbolistas e parnasianos, embora muitos dos representantes dessas duas vertentes estéticas tenham sido contemporâneos e até amigos. Álvaro Maia, por exemplo, foi um cultor do verso nas normas parnasianas, sobre quem afirma Djalma Batista:

Álvaro Maia é de fato, um estatuário do verso, dos mais primorosos. (p. 53)

Na época em que Djalma Batista expendeu essa opinião, Álvaro Maia contava 45 anos de idade, em plena madureza intelectual, portanto, mas permanecia um nome ainda ignorado em termos literários, segundo ele informa. É que o autor de Sobre as águas barrentas vivia envolvido pela ação política partidária em defesa do homem da Amazônia. Seu talento em grande parte semeou nos beiradões e nos recantos da floresta, as imagens mais surpreendentes de sua consagrada oratória. Seus poemas só foram reunidos em livro em 1958, contando então o poeta 65 anos.

Por isso Djalma Batista disse dele em sua conferência:

Sua obra não é conhecida, senão através de fragmentos, amostras preciosas da sensibilidade e da inspiração (…). (p. 53)

Em sequência cita um exemplo da bela poesia de Álvaro Maia, no soneto que transcrevo a seguir:

Na catequese

Sob a alva areia as Salomés da mata,
às ordens do pajé surgem desnudas
e rodam, junto a Anchieta, em danças rudas…
rompem borés em bárbara sonata.

Uma aperta o ar deserto. Outra desata
em beijos que morrem nas ofertas mudas…
Medita Anchieta em Santo Antônio, em Judas,
e pousa os dedos pelo chão de prata.

Traça versos no areal, louvando a Virgem,
sem ver as virgens que os pecados sirgem,
– porque bem sabe que a maior vitória

não é viver sem pão, dormir no abismo,
mas às visões sensuais do paganismo
trancar o olhar, olhando a eterna glória… (p. 53/54)

Outro poeta de sua admiração era Jonas da Silva, que ele lembra com o soneto que vai a seguir:

Coração

Meu coração é um velho alpendre em cuja
Sombra se escuta pela noite morta,
O som de um passo e o gonzo de uma porta,
Que a umidade dos tempos enferruja.

Quem vai passando pela estrada torta
Que leva ao alpendre, dessa estrada fuja!
Ló só se encontra a fúnebre coruja
E a dor que à prece o caminhante exorta.

Se um dia, abrindo o casarão sombrio,
Um abrigo buscasses contra o frio
E entrasses, doce criatura langue,

Fugirias tremente vendo a um lado
A Crença morta, o Sonho estrangulado,
E o cadáver do Amor banhado em sangue… (p. 54/55)

Djalma Batista considera célebres esses dois poemas e admirava outro que não vai transcrito na conferência. É, no entanto, um soneto que ele sabia de cor e gostava de declamar nos seus momentos mais descontraídos. É um soneto de Aníbal Teófilo que vai aqui:

A Cegonha

Em solitária, plácida cegonha,
Imersa num cismar ignoto e vago,
Num fim de ocaso, à beira azul de um lago,
Sem tristeza, quem há que os olhos ponha?

Vendo-a Senhora, vossa mente sonha
Talvez, que o conde de um palácio mago,
Loura fada perversa, em tredo afago,
Mudou nessa pernalta erma e tristonha.

Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso
Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada
Qual morosa, tenaz, paciente lesma,

Ao vê-la assim mirar-se na água, penso
Ver a Dúvida Humana debruçada
Sobre a angústia infinita de si mesmo.

Djalma Batista vai caminhando até se deter na poesia de alta expressão de Violeta Branca. Impressionava-o junto com a poesia, a personalidade dominadora daquela jovem de apenas 19 anos, quando publicou o livro Ritmos de Inquieta Alegria, na Manaus daquele tempo, com um justo registro da vida social da cidade nos anos 20 do século passado.

Diz ele:

Violeta Branca é a representante feminina mais destacada das letras amazônicas: sua poesia é simples e de uma suavidade que encanta (…) é fidelíssima na realização de uma grande poetisa – melhor direi, de um grande poeta – e no refletir um espírito dominador de mulher bonita, cuja presença enche de encantamento a hora elegante do sorvete na leiteria “Amazonas”. (p. 56)

Com essa imagem faço uma transição para voltar às reflexões de Djalma Batista sobre as questões da cultura, referidas nas primeiras páginas desta exposição, cultura como fundamento das atividades, em suas várias formas de expressão, mas neste artigo considerado apenas a Literatura, sob o ponto de vista antropológico, levantado pelo próprio Dr. Djalma.

Logo nas primeiras páginas do ensaio de interpretação Cultura amazônica, um tanto desalentado, confessa Djalma Batista a descrença com que observa o resultado social da produção literária do período estudado em sua conferência.

Pergunta-se a si mesmo:

Cogitamos agora (…) que sentido teve essa ebulição mental? Quais os seus reflexos sobre o desenvolvimento cultural da região? (p. 73)

E responde:

As respostas não podem ser muito otimistas. (p. 73)

Em seguida, expende o seu próprio entendimento sobre esse fenômeno:

O sentido da ebulição foi desconexo e até certo ponto anárquico, em especial no Amazonas. No Pará, é preciso ressalvarmos, verificou-se, em consequência de fatores históricos que não podem  ser olvidados, um princípio animador de cristalização da cultura, resistente ao tempo e ao desmoronamento da riqueza fácil do extrativismo. (p. 73)

Tal acontecimento sucedia na década de 30 do século passado. Depois disso muita coisa mudou. Passados mais de 80 anos de lá para cá, o Amazonas também mudou. A ação da Universidade nas esferas da pesquisa e da criação intelectual, dos profissionais que se promovem mentalmente na realização dos cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado, complementados inclusive em respeitáveis centros universitários no Brasil e no Exterior, desenham uma nova imagem da nossa realidade e, então o mestre Djalma Batista haveria de se rejubilar com as mudanças provocadas em nosso ambiente cultural, até mesmo do seu inesquecível Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o INPA.

Propõe, no entanto, uma série de providências para que esse patrimônio cultural seja valorizado e transferido ao conhecimento das novas gerações.

Diz ele:

Há um setor desse movimento por assim dizer revolucionário, em que a Academia Amazonense de Letras pode e deve dar o seu concurso valioso e insubstituível: a instituição de prêmios literários, que incentivarão de verdade o aparecimento de trabalhos que estão por aí em potencial. (p. 92/93)

Propõe que a Academia poderia criar quatro prêmios:

O prêmio de erudição, que deve ter o nome glorioso de Adriano Jorge; o de poesia, que será batizado com uma legenda heráldica planiciária: Raimundo Monteiro; o prêmio de ficção e história, que poderá ser chamado Coriolano Durand, que foi dos nossos mais notáveis contistas; e o de amazonologia, para o qual, entre várias fulgurações, não encontramos outro maior, que o nome de Araújo Lima. (p. 93)

Quem sabe se, neste momento, presidente Rosa, não seria o caso de se concretizar esse projeto. Djalma Batista sugere, ainda, de como essas ideias poderiam ser postas em prática. O governo é a fonte de recursos que logo é lembrada a participar numa empreitada dessa natureza, em destaque para o Estado do Amazonas, que jamais se recusou a proteger esta Academia, desde a doação da sede e, ao longo do tempo, a manutenção e o melhoramento das suas instalações. Djalma Batista lembra, ainda, que os próprios homens de negócio poderiam ser convocados a tornar efetivo um projeto dessa envergadura, numa forma de devolver aos produtores culturais da sociedade, uma parcela dos benefícios espirituais sem o que não há prosperidade duradoura. Sugere-se, ainda, inspirados no impulso empreendedor do Dr. Djalma, que esses concursos atinjam alcance nacional, o que tornaria esta Casa um dos elementos de promoção e, ao mesmo tempo, de defesa da região e do intercâmbio entre os estados brasileiros e os países latino-americanos servidos pela bacia amazônica.

Djalma Batista indicava ainda que se valorizassem as manifestações culturais das comunidades de Manaus e do interior, àquela altura tão abandonadas. Aí se poderia também distinguir as lideranças ou os artistas dessas comunidades, com a honraria do mérito já instituída pela Casa de Adriano Jorge. Seria uma forma de estimular a produção cultural nos dois níveis, arte erudita e arte popular.

Um dia, em plena florescência do INPA, sua direção decidiu homenagear o Dr. Djalma que estava entre os primeiros diretores da instituição, nos tempos heroicos das dificuldades de verbas e até de espaço onde realizasse os projetos a que fora destinado. O Dr. Djalma, no discurso de agradecimento à homenagem e lembrando os fatos desse período, os doutores que conseguiu formar, veio às lágrimas e com dificuldade logrou encerrar suas palavras.

Fico refletindo sobre o Dr. Djalma Batista hoje. Talvez ele devesse chorar vendo a que foram transformados alguns exemplares expressivos da arquitetura no centro histórico de Manaus; mas, talvez sorrisse face ao movimento editorial da cidade, a conservação dos prédios históricos do Palácio Rio Negro, do Teatro Amazonas e do Palácio da Justiça, a implantação da Universidade do Estado do Amazonas, esta uma iniciativa que só foi possível com a geração de recursos oriundos da política de incentivos fiscais, implantada no Distrito Industrial de Manaus; a agitação da cultura popular tão reclamada por ele, e as dimensões que obtiveram os centros urbanos do interior, com destaque para o Festival Folclórico de Parintins, o Festival da Canção de Itacoatiara e o Festival do Peixe Ornamental de Barcelos, a Ciranda de Manacapuru e a Festa do Guaraná em Maués, igual como acontece em todas as cidades amazonenses.

Essas festas visam a diversão do povo como primeiro atrativo, mas, também, convertem-se em instrumentos de comunicação da capacidade econômica desses municípios e da sua tradição folclórica.

Essa agitação toda tem propiciado o estimula à criação artística popular expressa nas artes visuais, na poesia, na música e na dança, tudo a experimentar um estilo autêntico, nos ritmos e na melodia, a gerar influência a arte popular de Manaus e projetar a região para fora do Estado.

O panorama atual desses movimentos faria o Dr. Djalma Batista rejubilar-se, posto vir para responder aos anseios do grande pensador que ele era quanto à preocupação do povo em se integrar ao próprio caráter, a tradição e a história.

Isso é o que penso minhas senhoras e meus senhores, senhoras e senhores acadêmicos, sobre cultura e arte em Djalma Batista.

NOTA: Texto referente à Palestra proferida no dia 17/09/2016, em seminário promovido pela Academia Amazonense de Letras, para celebrar o centenário de nascimento de Djalma Batista.

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Elson Farias
*Poeta e ensaísta. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras. Nascido em Itacoatiara é uma das glórias dessa cidade.

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