Diversidade humana já era enorme desde as origens do Homo sapiens na África
Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Somos todos essencialmente africanos, e isso vale inclusive para quem nasce no Japão ou tem cabelos louros.

Existem mil maneiras de ridicularizar o racismo — escolha a sua e seja feliz —, mas uma delas é, ao menos do ponto de vista de quem se importa com os fatos da biologia, especialmente demolidora. A questão é que somos todos essencialmente africanos, e isso vale inclusive para quem nasce no Japão ou tem cabelos louros.

Se há alguma coisa que o estudo da evolução humana demonstrou de forma cabal nas últimas décadas, é a gênese da humanidade na África. Os fósseis, as análises de DNA e a cultura material se unem feito as peças de um quebra-cabeças para demonstrar que a grande diversidade de pessoas vivas hoje não passa de um pedaço relativamente pequeno da diversidade ancestral no continente africano.

Até aí, sem surpresas — isso já virou tema de livro didático faz tempo. Novas perspectivas sobre a saga da origem do Homo sapiens indicam, porém, que talvez devamos falar em gêneses africanas, no plural. Em vez de uma única grande população ancestral da qual provêm, de forma linear, os seres humanos de hoje, o mais provável é que nosso passado no berço africano tenha sido “policêntrico”, com diferentes ramos da humanidade se separando e confluindo há centenas de milhares de anos.

Um bom resumo de como a visão dos paleoantropólogos tem-se modificado a esse respeito nos últimos tempos está numa pesquisa coordenada por Eleanor Scerri, da Escola de Arqueologia da Universidade de Oxford (Reino Unido), publicada há pouco na revista Trends in Ecology & Evolution.

Trata-se de um trabalho clássico de ligar os pontos (nem sempre fáceis de conectar numa área tão complicada) com base nas evidências já mencionadas acima e mais algumas: genes, esqueletos, artefatos antigos e climatologia. O primeiro ponto que ganha destaque nesse esforço é a improbabilidade de que existisse uma conexão clara entre as diferentes populações africanas há cerca de 300 mil anos atrás, que é quando começam a aparecer fósseis que podem ser atribuídos à linhagem do Homo sapiens.

Isso é indicado, por exemplo, pelo fato de que as características cranianas típicas das pessoas de hoje aparecem, de início, isoladas, e não em conjunto. Fósseis do Marrocos, por exemplo, têm traços faciais modernos, mas caixa craniana alongada (a nossa é arredondada), enquanto os da Etiópia, mais arredondados, têm faces consideradas primitivas.

Em outras palavras, o “modelo básico” da humanidade parece ter evoluído em mosaicos regionais, que só depois se juntaram. Isso é reforçado pelo fato de que a genética das atuais populações africanas parece sugerir divergências profundas entre grupos, às vezes com o que seriam centenas de milhares de anos de separação. O vaivém das glaciações até 10 mil anos atrás pode ter contribuído para isso, às vezes isolando populações em diferentes habitats (savana, floresta equatorial etc.), às vezes transformando o Saara numa área relativamente úmida e fértil, o que reconectava tais grupos.

Como se não bastasse, há um curinga nessa história: outras espécies humanas, como o Homo naledi, que talvez tenham persistido na África quando já existia o H. sapiens. Se foi possível o cruzamento entre humanos modernos e neandertais na Europa, por que não no continente de origem? Essa possibilidade complicaria ainda mais o cenário — ​e deixa claro, mais uma vez, o quanto tudo o que somos foi moldado pela diversidade africana.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, B16, de 29/07/2018.
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