fernanda torres
*Fernanda Torres

O Brasil é uma Muzema de dimensões continentais.

​Logo após o dilúvio que se abateu sobre a Guanabara, uma jornalista pediu que eu falasse sobre o estado de distopia do Rio de Janeiro. É Páscoa, eu sei, mas a palavra, desde então, não me sai na cabeça.

Distopia

Lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação. Representação ou descrição de uma organização social futura caracterizada por condições de vida insuportáveis.

Os 82 tiros de fuzil disparados num só carro pelo Exército, matando um pai de família a caminho de um chá de bebê e o homem que tentou socorrê-lo; os prédios erguidos em terreno grilado por milicianos que desmoronam em cima de dezenas de moradores; a mira dos snipers apontada para comunidades carentes; um professor de Uberlândia arrastado da sala de aula por policiais fortemente armados… A jornalista tem razão. A distopia não é mais uma antiutopia futura ou ficcional, ela é a barbárie no tempo presente. A incivilidade como regra.

Em meio às enchentes e tragédias que marcaram os 15 dias que separam esta coluna da anterior, destaco o pronunciamento do presidente da República em vídeo caseiro, abraçado ao senador Marcos Rogério (DEM-RO), desautorizando a destruição do maquinário de exploração de madeira ilegal na Floresta Nacional do Jamari, realizada pelo Ibama.

Numa estupefaciente inversão de valores, Jair se mostra preocupado com os bens materiais das quadrilhas, tratando como criminosos os agentes públicos que trabalham para defender a floresta.

Esquecido do artigo que validava a ação, Marcos Rogério afirma não se tratar de apoio a ilegalidades, mas de clamor pelo devido cumprimento da lei.

A dupla prefere ignorar que uma simples autuação permitiria aos infratores o retorno ao local do crime para terminar o serviço. A defesa eufórica dos trâmites legais mal disfarça a perversidade da licença para desmatar.

Imagens divulgadas do caso mostram toras gigantescas empilhadas na caçamba do caminhão incendiado. Entre o trator e a árvore, Jair não titubeia em se penalizar com o trator. A natureza virgem virou sinônimo de parasita improdutiva.

Tomei conhecimento desse tipo de ação do Ibama com Vladimir Brichta, cujo irmão, Maurício, depois de formado em biologia, acabou se alistando na linha de frente da proteção ambiental.

Nas fotos que Brichta me mostrou, no lugar de um estudioso do bioma, lá estava um soldado da natureza armado de fuzil, pendurado num helicóptero em voo rasante sobre a mata, atirando granadas em tratores, motos e caminhões.

É guerra.

Quando retornou ao Brasil, depois de se formar em antropologia na França com Claude Lévi-Strauss, Manuela Carneiro da Cunha viveu numa redoma teórica, estudando as estruturas mitológicas e sociais das tribos ameríndias.

A ameaça de extinção de seu objeto de estudo, no entanto, semelhante à enfrentada por Maurício, rapidamente a engajou na luta pela preservação das terras indígenas.

Uma batalha frustrante, que enfrenta não só o garimpo, o contrabando, as invasões e os assassinatos recorrentes, como também, a exemplo do vídeo caseiro do presidente, a insensatez do poder travestida de justiça e progresso.

A sensibilidade de Jair com o destino das motosserras é a mesma da desembargadora Marília de Castro Neves Vieira, relatora do recurso que impediu a demolição de um prédio próximo aos dois edifícios que desabaram no condomínio Figueiras do Itanhangá.

Denunciada por postagens ofensivas, Marília já ironizou uma professora com síndrome de Down, atacou Zumbi dos Palmares e acusou Marielle Franco de ter sido executada por descumprir acordos com o Comando Vermelho. “Qualquer outra coisa diversa é mimimi da esquerda tentando agregar valor a um cadáver tão comum quanto qualquer outro.”

Na presidência do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli jura combater o ódio, enquanto defende a censura de uma reportagem que o estampava na capa da revista Crusoé.

A lei! A leeeeeei!, grita Jorge Mautner, parodiando Getúlio.

A distopia é resultado de um longo e minucioso trabalho de desmonte. Sou carioca, sei o que digo. Sobrevivi ao casal Garotinho, ao Cabral, ao Pezão, convivo com Witzel e encarei a última chuva com o quase impichado Crivella no comando do Centro de Operações da Prefeitura.

Não é o PT, o PSDB, o PMDB, o DEM, o PSL, os militares, o Olavo, a esquerda, a direita… É o conjunto da obra.

O Brasil é uma Muzema de dimensões continentais.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 21/04/2019.
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