*Djamila Ribeiro

Leva tempo até que as pessoas brancas percebam que nasceram salvas e que têm um capital social que pode lhes salvar a vida.

É muito comum assistirmos a reportagens que narram histórias de precariedade, dedicação diária e superação. Quem nunca se deparou com a narrativa de uma pessoa que saiu de uma situação muito difícil, que teve de percorrer dezenas de quilômetros todos os dias para estudar e terminou em uma posição profissional respeitável e que mantém dentro de si a vontade de transformar a vida de outras pessoas? São biografias inspiradoras que motivam muitas pessoas.

Contudo, precisamos ter cuidado ao fazer das exceções de pessoas que conseguiram vencer os desafios de suas vidas a regra para todas as pessoas. Isso porque estamos falando de estruturas que organizam a vida em sociedade com alguns grupos sociais em condições materiais excelentes, enquanto outros não têm nem sequer um teto. Alguns tentaram e, mesmo com tudo contra, conseguiram. Outras pessoas tiveram de interromper sua caminhada para pegar alumínio na rua para ajudar a família a ter o que comer. Outras tiveram de parar por ter engravidado, já que sabemos que no país muitas criam seus filhos sozinhas.

Outras morreram precocemente, vítimas de violência doméstica. São inúmeras as situações em que uma pessoa pertencente a um grupo social vulnerabilizados vê contra si a impossibilidade de seguir adiante.

Como digo em palestras, essas narrativas de pessoas que saem de situações de extrema precariedade e transcendem sua realidade, para além de uma história de superação, também são uma história de violência. Sim, são sobrevivências num país tão desigual que nos inspiram em momentos em que tudo parece tão difícil. Mas não, ninguém deve achar material de estudo no lixo para conseguir poder seguir seus estudos. Ninguém deveria percorrer quilômetros descalço para estudar em uma escola que mal possui revestimento no teto.

Precisamos entender que essas histórias são histórias de violência de um Estado sem políticas públicas e desmontado por um sistema financeiro predatório e que, quando privatiza, não retorna e nem se responsabiliza pela população mais pobre. Mas, em geral, se esconde essa questão do problema. A mensagem é: se essas pessoas em situação de tanta vulnerabilidade conseguiram, por que você não conseguiria?

Grafite contra à violência doméstica

A artista Panmela Castro (ao centro, de amarelo) com mulheres integrantes do Projeto Afrografiteiras posam em frente ao mural feito no pátio da escola municipal Maestro Pixinguinha, na zona norte do Rio de Janeiro Na Lata

A artista plástica e arte educadora Jennifer Borges posa para foto em frente ao mural sobre representatividade negra de sua autoria em Irajá, no Rio de Janeiro Na Lata

O discurso do “basta querer” romantiza a violência e inverte a lógica, pois responsabiliza tão somente o indivíduo, escamoteando que há um processo histórico no país, uma falta de políticas públicas para possibilitar oportunidades. Tenha certo que outras pessoas também quiseram, mas apenas a força de vontade não bastou. Pessoas são mortas todos os dias em espaços periféricos, nem sequer têm a chance de tentar. Outras passaram fome e não tiveram qualquer meio para que pudessem transcender sua realidade. Para falar em mérito é preciso investigar as oportunidades.

Em passagem brilhante na sua palestra do TEDx São Paulo, o pensador Leandro Karnal trouxe uma expressão muito interessante -“nasceu salvo”.

“Eu nasci salvo porque de alguma forma eu nasci no Palácio de Versalhes. O que significa ter nascido no Palácio de Versalhes? Eu nasci homem, eu nasci branco no Brasil. Eu nasci salvo. Não precisava um esforço meu -é claro que me esforcei: eu acordo cedo, eu estudo, eu trabalhei muito a vida inteira, jamais desde a idade adulta fui sustentado, sou uma pessoa esforçada, mas eu nasci salvo. E levou muito tempo para eu perceber que eu tinha nascido salvo.”

Leva tempo para as pessoas brancas perceberem que nasceram salvas. Exige autocrítica e honestidade intelectual. Significa dizer que as pessoas brancas que conquistaram seu espaço, apesar de toda a estrutura, não tiveram mérito em suas caminhadas? Bom, muitas não tiveram, sobretudo no Brasil das capitanias hereditárias. Vemos muitas pessoas que nasceram salvas querendo ser exemplos de mérito e superação.

Exposição de Graça Craidy sobre feminicídio

Serie “Trinta contra uma”, de Graça Craidy, foi inspirada no estupro coletivo de adolescente por 30 homens, no Rio de Janeiro Graça Craidy/Divulgação

Serie “Trinta contra uma” foi inspirada no estupro coletivo de adolescente por 30 homens, no Rio de Janeiro Graça Craidy/Divulgação

Mas é claro que muitas outras precisaram de muito suor e dedicação. Existem pessoas brancas pobres, em situações de precariedade. Mulheres brancas também são vítimas de feminicídio e violência doméstica. Muitas, mesmo querendo muito, são impedidas de existir. Também são engravidadas precocemente num país que criminaliza seus corpos enquanto convive muito bem com homens que não são pais, mesmo tendo filhos.

Uma leitura interseccional nos mostra que mesmo essas pessoas brancas em situação precária carregam na sua pele um capital social que pode ser decisivo em uma entrevista de emprego, que pode ser o diferencial entre não ser parado pela polícia com o resultado morte e que certamente significará um tratamento social mais gentil. Não estou dizendo que é fácil, mas imagina para quem nem sequer esse capital está à disposição.

São algumas reflexões necessárias para pararmos de romantizar a violência colonial presente neste país.

*Mestre em filosofia. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 18/03/2021.
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