RICARDO BONALUME NETO
DE SÃO PAULO

 

A “revolução agrícola” de 10 mil anos atrás não afetou só o ser humano, que deixou de viver em pequenas comunidades nômades de caçadores-coletores e começou a criar civilizações com milhares, milhões e hoje bilhões de pessoas graças à muito maior disponibilidade de comida.

Cães herdaram tendência a comer demais

A invenção da agricultura e da pecuária também “transformou” lobos selvagens em cachorros domésticos.

Lobo cinzento, “ancestral” e “primo” contemporâneo dos cachorros

E uma prova disso está nos genes, segundo estudo da equipe de Erik Axelsson, da Universidade Uppsala (Suécia).

Mutações genéticas permitiram aos cães se adaptarem a uma dieta contendo mais amido, encontrado nas plantas que passaram a ser cultivadas pelo homem. Já os lobos continuaram dependentes de uma dieta carnívora.

“Durante a domesticação, era crucial para os cães serem capazes de digerir amido eficientemente. Animais que eram melhores no processamento de amido ganhavam tamanha vantagem que todos os cachorros modernos que nós analisamos são descendentes desses cães eficientes na digestão de amido”, disse Axelsson à Folha.

“Era uma questão de vida e morte. No entanto, isso tem pouco a ver com o que os cachorros preferem comer. Não tenho dúvida de que preferem carne a amido”, diz ele.

“Não se trata do que os cachorros desejam comer, mas sim sobre a capacidade de animais antigos usarem um novo recurso alimentar.”

CÃES E LOBOS

Como é praxe para entender o processo de domesticação do cão, os pesquisadores também vasculharam os genes do ao mesmo tempo “primo” contemporâneo e “ancestral” remoto, o lobo.

Cães e lobos pertencem à mesma espécie biológica e podem cruzar entre si deixando híbridos férteis, mas derivaram para “subespécies”: Canis lupus lupus (lobo) e Canis lupus familiaris (cão).

Axelsson e colegas identificaram 36 regiões do DNA com genes ligados tanto ao desenvolvimento do cérebro como do metabolismo do amido que estariam em seleção intensa nos cães.

Três genes foram identificados com papéis nítidos na digestão de amido. O estudo foi descrito na revista científica “Nature”.

“A domesticação do cão foi um importante episódio no desenvolvimento da civilização humana. O local e o momento precisos desse evento ainda são debatidos e pouco se sabe das mudanças genéticas que acompanharam a transformação de antigos lobos em cães domésticos”, escreveu a equipe.

SOBRAS

A hipótese mais comum sobre a domesticação do cão sugere que os animais teriam sido atraídos pelas sobras de comida em torno das aldeias humanas. Poder comer alimentos ricos em amido seria uma vantagem para esses “vira-latas” pré-históricos.

“Adaptações novas permitindo aos ancestrais dos cães modernos prosperarem em uma dieta rica em amido, relativamente à dieta carnívora dos lobos, constituíram um passo crucial na primitiva domesticação dos cães”, afirmam os autores.

Axelsson diz que não há como saber ainda quando a seleção para melhor digestão de amido começou, mas que o desenvolvimento da agricultura acelerou o processo.

“Eu diria que havia alguns lobos com mutações que os tornavam ligeiramente melhores na digestão de amido e, quando surgiu a agricultura, eles estavam em melhor posição para tirar vantagem dos novos recursos.”

Existem indicações de que um fóssil com 33 mil anos encontrado nas montanhas Altai, na Sibéria, seria de um canídeo semelhante ao cão.

Mas os fósseis mais antigos confirmados como sendo de cães domésticos foram encontrados junto a esqueletos humanos em Israel entre 12 mil e 11 mil anos atrás.

Fonte: Folha de São Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/1229832-dieta-rica-em-carboidrato-separou-os-caes-dos-lobos.shtml)
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