Drauzio Varella
*Drauzio Varella

Antes das manhãs inúteis criadas pela pandemia, eu cruzava o país, examinava doentes e atendia dezenas de presas.

Acordei às cinco da manhã. Finalmente, um dia sem compromissos, nenhuma palestra para fazer, nenhuma reunião pelo Zoom, ninguém acordado àquela hora, sem telefonemas urgentes para dar. Sozinho, em casa, o dia inteiro para me dedicar ao livro que não consigo terminar de escrever.

A caminho da cozinha, peguei os jornais da véspera intactos sobre a mesa da sala. No café da manhã, li os editoriais e me entretive com as notícias sobre a CPI, os números da epidemia, as roubalheiras das vacinas e as mentiras de autoridades que nos julgam idiotas.

Quando dei por mim, já eram seis e meia. Lavei, enxuguei e guardei a louça. Estava saindo da cozinha, quando vi o chão manchado. Umedeci um pano, enrolei no rodo e esfreguei com força.

Arrumei a cama e abri a porta do quarto que dá para a sacada. Voltei à cozinha para buscar a banana que coloco para os sanhaços todos os dias. São lindos, azulados, ariscos, voam para longe à menor aproximação. Estão mal acostumados, a banana não pode estar muito madura nem ser servida depois das dez da manhã.

O estado das ruas pelo mundo durante a pandemia

Movimentação de pedestres na rua Sultan Suleiman, na Jerusalém Oriental, área sob controle de Israel e reivindicada pela Autoridade Nacional Palestina para abrigar a capital do futuro estado palestino Quique Kierszenbaum – 02.jul.2021/Folhapress

Passageiros aguardam transporte público em uma parada de ônibus no bairro Tarumã, em Manaus Bruno Kelly – 30.jun.2021/Folhapress

Pedestres esperam para atravessar a rua Meraviglie, na esquina com a Via Dante, na região central de Milão. Ao fundo, a torre do Castelo Sforzesco Rafa Jacinto – 02.jul.2021/Folhapress

Passageiros esperam ônibus próximo da estação Dadar, na região central de Mumbai Subhash Sharma – 30.jun.2021/Folhapress

Começava a clarear. Uma franja de luz alaranjada circundava a zona norte, por trás da serra da Cantareira. Madrugadores como eu acendiam as primeiras luzes nos prédios do centro de São Paulo. No silêncio das ruas vazias, parado na janela, a cidade em que nasci e eu éramos capítulos inseparáveis da mesma história.

Antes de sentar diante do computador achei melhor colocar em ordem os papéis e devolver à estante as revistas científicas e os livros espalhados sobre a mesa. Sobrou um tratado de medicina que não encontrou espaço entre os congêneres.

Retirei os livros daquela prateleira e fiz uma pilha sobre a mesa. Antes de devolvê-los ao lugar, voltei à cozinha atrás de um pano para tirar o pó acumulado entre eles. Olhei para a lata de lixo, estava pela metade, mas achei bom esvaziá-la, a cozinha estava tão limpa. Levei o saco plástico para a área de serviço. Quando voltei para o escritório, vi que a implicância com a ordem me fizera esquecer do pano para o pó da estante. Retornei à cozinha.

Já passava das oito quando abri o computador. Nenhuma nuvem no céu, o sol batia forte na janela. Dias assim, não são bons para escrever, convidam o escritor a sair de casa, deixam a sensação de que estamos perdendo parte da vida que pulsa intensa lá fora. Manhãs cinzentas, chuvosas, induzem estados reflexivos mais próprios à escrita.

Antes de abrir o computador, tive a má ideia de olhar para a tela do celular. Cinco WhatsApps já me atormentavam àquela hora. Achei melhor respondê-los logo, para ficar livre da preocupação. Caí na armadilha, porque os cinco se somavam às dezenas que eu não tivera tempo de ver na véspera. Você, leitora, não faz ideia do inferno que virou a vida dos médicos, depois do WhatsApp. Qualquer sombra de dúvida que passe pela cabeça de um paciente, de um familiar, de um amigo ou dos amigos de qualquer amigo, vira uma mensagem que somos obrigados a responder.

Um dos WhatsApps daquela manhã começava assim: “doutor, a cunhada do marido da prima da minha mulher teve um tumor de mama de dois centímetros, é grave?”. Outro perguntava se o cansaço que a sogra estava sentindo podia ser sintoma de Covid. Uma amiga se queixava de que tomara a vacina na véspera e tinha acordado sem sentir nada. Queria saber se ficaria imunizada.

Depois de duas horas ou mais, saí do aplicativo, com a sensação de culpa de haver deixado tantas mensagens para trás. Fui fazer um café.

Já que tinha perdido tanto tempo atualizando o WhatsApp, talvez fosse melhor dar uma olhada nos emails. Foi a segunda armadilha. As mensagens rolam pela minha caixa postal como a água nas cachoeiras. Sinto-me Sísifo condenado pelos deuses a carregar uma pedra até o topo da montanha, que cairá de volta para ser carregada para cima, outra vez. Essa era a imagem mais contundente do trabalho inútil e repetitivo, antes da criação do email e do WhatsApp.

Parei quando o telefone interno tocou para avisar que o entregador do supermercado me aguardava na garagem do prédio.

Guardei as compras na despensa e na geladeira. Olhei para o relógio, a manhã tinha ido embora. Nas manhãs de antes da pandemia, eu cruzava o país para fazer uma palestra no Recife ou em Fortaleza, examinava doentes, passava visita no hospital, atendia dezenas de presas na penitenciária, gravava para a televisão. E nesta manhã, o que eu fiz?

*Médico e escritor. Colunista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 14/07/2021.
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