São Francisco de Assis é o patrono da Ecologia e provavelmente uma das razões que o consagraram com esse título foi o seu poema intitulado “Cântico do Irmão Sol”, uma das mais belas poesias religiosas e um lindo texto lírico de louvor a Natureza.

Um dos trechos do poema é dedicado a “Irmã Água” a quem ele atribuiu, em 1225, algumas características que só foram compreendidas muitos séculos depois. Escreveu ele em tempos  muito remotos: “Louvado sejas tu meu Senhor pela irmã água que é tão útil e tão humilde e casta”.

Não tenho cultura para fazer análise literária, mas acredito que a indicação de um parentesco – irmã – ultrapassa a ligação biológica para simbolizar uma união íntima determinada pela essencialidade da água para o fenômeno da vida.

Humildade

O poema atribui humildade à água, sinalizando a capacidade de ela cumprir, adequadamente, sua missão tanto em rios famosos que atravessam florestas exuberantes, como nos pequenos córregos e olhos de água que mal conseguem umedecer o solo.

Para cumprir sua nobre finalidade ela tanto pode se exibir compondo cenários de magnífica beleza cênica, como escondida na porosidade de rochas subterrâneas, dispersa pelo lençol freático onde sequer pode formar superfícies espelhadas para refletir os bons e maus humores do firmamento.

Sua expressão máxima de humildade, no entanto, se revela no contraste entre o desdouro de servir como fossa de resíduos da atividade humana e a nobreza suprema de ser elemento essencial para a perpetuação do fenômeno da vida.

Preciosidade

A sabedoria popular designa a água como precioso líquido, uma designação que se justifica plenamente quando os organismos, especialmente os seres humanos que têm maiores exigências de potabilidade, se defrontam com o problema da escassez de quantidade e qualidade.

Utilidade e castidade

Ao louvar o Senhor pela água que é tão útil São Francisco de Assis tipificou-a como expressão divina substantiva e adjetivou profeticamente sua essencialidade, já que quase oito séculos atrás ninguém podia prever tantos usos múltiplos para os recursos hídricos. Naquela época a Natureza era bem comum, os corpos hídricos eram de livre acesso sendo seu uso de pequena monta. A agricultura era incipiente, a navegação reduzida e o lazer aquático eram restritos, pois naquele tempo não se podia imaginar que pessoas com os corpos seminus usassem a orla aquática para praticar esportes radicais e para o “laissez faire, laissez passer, le monde va de lui-même”. Ouso traduzir: “deixai fazer, deixai passar, o mundo caminha por ele mesmo”.

Lamentavelmente, nos dias atuais, o homem e seu processo de geração de riqueza deixaram de lado o respeito pela irmandade das criaturas inseridas no Cântico do Irmão Sol, agindo com requintes de crueldade contra a irmã água. A demanda industrial, a produção de alimentos, o excesso no uso doméstico, a explotação sem limites dos recursos naturais geram mais e mais resíduos que são, inexoravelmente, escoados pelos rios que funcionam como um sistema renal da paisagem ambientalmente doente.

A indicação de que a água é casta é uma bela metáfora indicativa da necessidade de mantê-la em estado de pureza, impedindo que seja maculada pelos pecados poluentes e que qualquer atentado contra sua pureza deva ser emblematicamente punido e corrigido, para que ela mantenha a limpidez essencial para alimentar a vida.

Ler o poema de São Francisco é gratificante além de ser intelectualmente instigante, pois obriga os leitores a refletir sobre suas afirmações escritas no século treze a respeito da complexidade da questão hídrica que hoje, setecentos e oitenta e sete anos depois, incorpora elementos de natureza política, econômica, científica, tecnológica, ambiental, moral e ética.

Sobre a essencialidade da água para a vida, vale lembrar uma frase coletada pelo poeta inglês Wyston Hugh Auden (1907-1973) na parede de uma penitenciária feminina nos Estados Unidos onde uma prisioneira, talvez revelando uma forma cruel de castigo, escreveu “Thousands have lived without love, not one without water”. Ouso traduzir “Milhares viveram sem amor, ninguém viveu sem água”.

Compartilhar
Ozório Fonseca
Biólogo, Mestre em Ecologia, Doutor em Ecologia e Recursos Naturais. Professor Visitante na UFRGS (1983-1995). Diretor do INPA (1995-1999), Professor da UFAM e da UEA. Membro Honorário da Academia Amazonense de Medicina; Membro Titular da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Filho do ex-prefeito de Itacoatiara Osório Alves da Fonseca (1889-1960) e da professora Francisca de Menezes Fonseca (1906-1988). Nascido em Manaus, porém criado em Itacoatiara. É o nosso querido mestre do Principado de Itacoatiara (título que conferiu à nossa cidade).

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui