*Lya Luft

A Esfinge, essa senhora pouco simpática, devorava quem não adivinhasse as charadas que propunha. Acabou desmascarada pelo rei Édipo (vejam tragédias gregas), e de raiva se lançou num precipício. A ideia de uma Esfinge brasileira a nos encher a paciência me ocorreu para construir um artigo apenas questionando enigmas brasileiros atuais (devoraremos a moça antes que ela acabe conosco?):

– Com a falência de tantas instituições respeitáveis, como ter a necessária confiança no nosso Judiciário, que não pune a grande maioria dos crimes ou infrações, prende aqui e solta ali – não por haver policiais ruins, mas leis abstrusas e descumpridas? Tratamos assassinos de 16 anos como crianças de escola primária, nunca chamados de assassinos, mas de infratores. Conduzidos a uma utópica ressocialização, serão soltos em no máximo três anos, para cumprir seu desejo, anunciado por um rapazote de 15 anos apontando a arma para um amigo meu, que lhe perguntou por que fazia aquilo: “Hoje a gente tá a fim de matar alguém”. Meu amigo não morreu porque na hora a arma falhou.

– Como ainda acreditar em qualquer instituição, aliás, se na mais importante delas (o Supremo tribunal Federal) um ministro decide soltar doze figurões condenados por crimes graves e comprovados, mas, no dia seguinte, arrependido, deixa todos na prisão, menos um – por acaso. o chamado “homem-bomba”, do qual dizem que, “se ele explodir, o governo implode”?

– Como ter esperança neste país dito civilizado, se o ensino é um dos itens mais esquecidos pelos governos e há milhares de crianças sem escola, outras tentando aprender sentadas no chão de terra batida onde também dormem porque a distância até sua casa é demasiada, com os donos da casa, professor e professora, preocupados porque ali tem “muita cobra e escorpião que são um perigo”? Como valorizar o estudo se pelo menos em uma das capitais grande parte das escolas públicas ainda não recebeu os livros escolares, estando nós já em junho, e em tantas outras pelo país faltam professores? Como entusiasmar os alunos pelo estudo, se a cada dia as coisas são mais facilitadas, e praticamente é preciso um esforço heroico para ser reprovado, pois considera-se que todos têm o mesmo direito a um diploma de ensino médio ou superior, tenham capacidade ou não, tenham se esforçado ou não?

– Como ser saudável se nos postos de saúde e hospitais públicos falta tudo – menos médico, ou, se isso ocorre, é porque o profissional se desesperou com a impossibilidade de dar atendimento humano aos doentes -, desde água tratada até panos limpos, estetoscópio, aspirina, maca, luz elétrica, aparelhos básicos?

– Como transportar nossos produtos se a estrutura rodoviária é lendariamente péssima? Como chegar ao trabalho se as greves, justas ou não, são nossa rotina diária? Como nos transportarmos a nós, se mulheres com crianças ao colo, velhos e frágeis caminham quilômetros até chegar em casa, exaustos depois de um dia de trabalho, ônibus são impedidos de rodar e líderes proferem palavras vazias?

– Como confiar em autoridades desmoralizadas que solenemente bradam “Não toleraremos violência ou vandalismo”, enquanto dezenas de veículos, lojas, agências bancárias e farmácias são destruídas nessa mesma hora? Onde ficaram seriedade e esperança?

– Por que. neste país convulsionado por greves e manifestações constantes, surge essa oposição à Copa? São os gastos com arenas faraônicas contrastando com casebres, favelas, barracas de lona ou mesmo bancos de praça em que tantos vivem? O protesto de professores contra os jogadores da seleção brasileira na saída de um hotel no Rio, e na chegada à Granja Comary, com ameaça de outros mais, indica que não haverá trégua, durante a Copa e depois, para a indignação do povo a exigir soluções eternamente adiadas?

Senhora Esfinge, se houver respostas, a senhora estará devorada. Mas, se continuarmos ignorados e descrentes, seremos engolidos sem piedade pela nossa própria exausta indignação.

*Poeta e escritora. Colunista da Revista Veja. Edição nº 2376 de 04/06/2014.
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